A eliminação da Itália para a Bósnia e Herzegovina nos pênaltis, na última terça-feira, consolida um fenômeno sem precedentes na história do futebol mundial: uma tetracampeã da Copa do Mundo transformada em ausente perpétua do torneio mais importante do planeta. Desde a conquista de 2006, com a geração de Cannavaro, Pirlo e Totti derrotando a França de Zidane por 5-3 nos pênaltis, a Azzurra coleciona fracassos consecutivos nas eliminatórias: ausente em 2018 (eliminada pela Suécia), em 2022 (superada pela Macedônia do Norte) e agora em 2026.
O drama de Zenica e a sequência histórica de derrotas
O confronto em Zenica expôs todas as fragilidades de uma seleção que, mesmo sendo favorita, sucumbiu diante de um adversário teoricamente inferior. A Bósnia, que havia superado a Ucrânia na fase anterior, mostrou organização tática superior e aproveitou as limitações ofensivas italianas para levar a decisão aos pênaltis. Esta derrota marca exatos 12 anos desde a última participação italiana em uma Copa do Mundo - o Mundial do Brasil em 2014, onde a equipe de Prandelli foi eliminada na fase de grupos com apenas um ponto conquistado.

A imprensa italiana não poupou críticas ao resultado. Segundo os principais jornais do país, classificaram o fracasso como "desastre e apocalipse", evidenciando a dimensão da catástrofe para uma nação que possui quatro títulos mundiais (1934, 1938, 1982 e 2006) e duas Eurocopas (1968 e 2021). Nenhuma seleção tetracampeã mundial havia ficado ausente de três Mundiais consecutivos na era moderna do futebol.
A República Tcheca quebra jejum de duas décadas
Enquanto a Itália amarga mais um fracasso, a República Tcheca celebra o retorno ao principal palco do futebol mundial após 20 anos de ausência. A última participação tcheca havia sido no Mundial de 2006, na Alemanha, quando a equipe de Karel Brückner foi eliminada nas oitavas de final pela futura campeã Itália. Nos pênaltis contra a Dinamarca, os tchecos garantiram vaga no Grupo A da Copa de 2026, ao lado de México, África do Sul e Coreia do Sul.
O atacante Viktor Gyökeres, do Sporting, foi um dos grandes destaques da repescagem europeia, confirmando sua fase artilheira que o transformou em um dos principais goleadores do continente. A Chéquia, que atingiu as semifinais da Euro 1996 e 2004, volta a disputar um Mundial com uma geração renovada, mas mantendo as características táticas tradicionais do futebol tcheco.
O declínio estrutural do futebol italiano
A análise histórica revela que o problema italiano transcende questões técnicas pontuais. Desde 2006, quando conquistou o tetracampeonato sob comando de Marcello Lippi, a Azzurra apresenta aproveitamento de apenas 38% nas eliminatórias para Copas do Mundo - estatística inferior a seleções como Albânia (42%) e Macedônia do Norte (40%) no mesmo período. A geração que sucedeu Pirlo, De Rossi e Buffon não conseguiu manter o padrão técnico necessário para competir no cenário mundial.
O sistema de formação italiano, outrora referência mundial com suas categorias de base estruturadas, perdeu competitividade diante dos investimentos maciços de Inglaterra, França e Espanha. Entre 2014 e 2024, a Itália produziu apenas dois jogadores que se tornaram referências absolutas no cenário europeu: Federico Chiesa e Nicolo Barella. Em comparação, a França formou Mbappé, Camavinga, Tchouaméni e Dembelé no mesmo período.
Consequências e perspectivas futuras
A ausência italiana representa uma perda de aproximadamente 80 milhões de euros em receitas da FIFA, além do impacto econômico nos clubes que teriam jogadores convocados. Histórica potência do futebol mundial, a Itália iguala agora a França dos anos 1990, que ficou ausente dos Mundiais de 1990 e 1994, mas sem a perspectiva de renovação que os franceses demonstraram com a geração de Zidane emergindo em 1998.
A próxima oportunidade italiana surge apenas em 2030, quando a Copa do Mundo será disputada em Espanha, Portugal e Marrocos. Até lá, a Federação Italiana precisará reformular completamente sua base de formação e filosofia de jogo, processo que pode durar uma década inteira. A Azzurra, que não perde uma eliminatória em casa há 23 jogos, agora enfrenta a realidade de uma Liga das Nações como único torneio oficial até 2028, quando começarão as eliminatórias para o Mundial de 2030.

