Quando a Red Bull desembarcou em Bragança Paulista em janeiro de 2020, prometia revolucionar o futebol brasileiro com sua filosofia de jogo ofensivo e investimento estrutural. Cinco anos depois, às vésperas do confronto contra o Flamengo pela 9ª rodada do Brasileirão, o Red Bull Bragantino ocupa a incômoda 17ª posição na tabela, com apenas 9 pontos conquistados em oito jogos – sua pior campanha desde a chegada dos austríacos.
O contraste com os anos dourados
Em 2021, o Bragantino encantou o país ao terminar o Brasileirão na 6ª colocação, garantindo vaga na Copa Libertadores pela primeira vez em sua história. Naquele ano, o time comandado por Maurício Barbieri marcou 56 gols em 38 jogos, construindo um futebol vistoso baseado na velocidade de Ytalo (14 gols) e na criatividade de Claudinho, que seria vendido ao Zenit por 18 milhões de euros.
A temporada seguinte manteve o padrão elevado: nova classificação à Libertadores, desta vez terminando em 8º lugar no Brasileirão. Helinho despontou como uma das revelações do campeonato, enquanto Artur consolidava-se como lateral ofensivo de seleção. O modelo Red Bull parecia ter encontrado sua fórmula no Brasil, combinando investimento inteligente com desenvolvimento de talentos.
A debandada que mudou tudo
O atual cenário de crise começou a se desenhar no início de 2023, quando o clube perdeu peças fundamentais de seu quebra-cabeças tático. Claudinho já havia partido em 2021, mas as saídas de Artur para o Palmeiras e de Helinho para o futebol europeu deixaram lacunas que o departamento de futebol não conseguiu preencher adequadamente.
Mais grave ainda foi a instabilidade no comando técnico. Desde a saída de Maurício Barbieri, o clube já passou por cinco treinadores diferentes, incluindo as passagens frustrantes de Pedro Caixinha e Marcelo Cabo. Cada mudança representou uma filosofia diferente, impedindo a consolidação de um estilo de jogo consistente.
"O Bragantino precisa encontrar sua identidade novamente. Perdemos jogadores importantes e não conseguimos repor à altura", admitiu o diretor técnico do clube em entrevista recente.
Os números da decadência
A atual sequência de sete jogos sem vitória no Brasileirão representa a pior fase do clube desde sua reestruturação. Em 2024, o time marcou apenas 11 gols em 22 partidas do campeonato nacional, uma média de 0,5 gol por jogo que contrasta drasticamente com os 1,47 gols por partida da campanha de 2021.
Defensivamente, os números também preocupam: 18 gols sofridos em oito jogos resultam numa média de 2,25 tentos por partida, indicando fragilidades estruturais que vão além das questões ofensivas. A defesa que em 2021 tinha Léo Ortiz e Ligger como pilares hoje depende de jogadores ainda em adaptação ao modelo de jogo proposto.
O modelo Red Bull em xeque
Especialistas em futebol questionam se a filosofia austríaca consegue se sustentar no competitivo cenário brasileiro a longo prazo. Diferentemente dos projetos europeus da Red Bull, onde a empresa controla múltiplos clubes e pode fazer intercâmbios constantes de jogadores, no Brasil o Bragantino opera de forma mais isolada.
O investimento em categorias de base, que era um dos pilares do projeto, ainda não gerou os frutos esperados. Enquanto clubes rivais como Palmeiras e Flamengo colhem resultados de suas divisões inferiores, o Bragantino ainda depende heavily do mercado externo para formar seu elenco principal.
"É preciso tempo para que um projeto de base amadureça, mas o futebol brasileiro não oferece esse luxo. A pressão por resultados imediatos é constante", analisa o consultor esportivo especializado em modelos de gestão internacional.
A conta que não fecha
O confronto contra o Flamengo no Maracanã torna-se fundamental para as ambições do Bragantino na temporada. Uma derrota pode aprofundar a crise e aumentar a pressão sobre a comissão técnica, enquanto uma vitória seria o respiro necessário para começar uma reação na tabela.
O técnico Pedro Caixinha tem à disposição um elenco que custou mais de 50 milhões de reais em investimentos nos últimos dois anos, mas que ainda não conseguiu encontrar a química necessária para reproduzir o futebol que encantou o Brasil há três temporadas.
Para o duelo desta quarta-feira, às 19h no Maracanã, o Bragantino precisa vencer para sair da zona de rebaixamento e recuperar a confiança perdida. Caso contrário, o sonho austríaco pode se transformar no pesadelo de um retorno precoce à Série B, apenas cinco anos após a chegada da Red Bull ao futebol brasileiro.

