Todo mundo sabe que o Irã vai jogar a Copa do Mundo 2026 nos Estados Unidos. O que pouca gente acompanhou de perto é a sequência de negociações, bloqueios diplomáticos e cerimônias carregadas de simbolismo que tornaram essa confirmação possível — e ainda frágil. O ponto de chegada está definido: estreia em 15 de junho, em Los Angeles, contra a Nova Zelândia. O percurso, esse é o que merece atenção.

A guerra que chegou antes da bola rolar

Quando os Estados Unidos e Israel iniciaram operações militares contra o Irã em fevereiro de 2026, a participação iraniana na Copa do Mundo deixou de ser uma questão esportiva e passou a ser um problema de protocolo diplomático com consequências práticas imediatas. A Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) respondeu com uma declaração formal em 9 de maio, listando dez condições para que a delegação embarcasse rumo à América do Norte.

As exigências cobrem desde a concessão de vistos para todos os membros da delegação até o respeito explícito à bandeira e ao hino nacional iraniano durante as partidas — itens que, em qualquer Copa do Mundo anterior, seriam considerados protocolares e automáticos. A novidade é que, desta vez, nada é automático. O Canadá, um dos três países-sede, negou a entrada do presidente da FFIRI, Mehdi Taj, antes do Congresso da FIFA, alegando supostos vínculos de Taj com a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que Ottawa classificou como organização terrorista em 2024.

O secretário de Estado americano Marco Rubio tentou equilibrar o discurso: afirmou que os jogadores iranianos serão bem-vindos nos EUA, mas deixou aberta a possibilidade de barrar membros da delegação com ligações ao IRGC. O próprio Taj citou pelo nome dois atletas que cumpriram serviço militar na Guarda Revolucionária — Mehdi Taremi e Ehsan Hajsafi — e exigiu que ambos recebam vistos sem restrições.

"Participaremos da Copa do Mundo, mas sem abrir mão de nossas crenças, cultura e convicções", afirmou a FFIRI em seu site oficial.

Para quem acompanhou as edições de 1998 e 2006, quando o Irã jogou em contextos de tensão regional sem que isso gerasse protocolos de segurança específicos, o contraste é revelador. Em 28 anos, a seleção iraniana acumulou três participações em Copas do Mundo — 1998, 2006 e 2022 — sem que nenhuma delas exigisse negociações de acesso diplomático desta magnitude antes mesmo do embarque.

A despedida na Praça da Revolução e o peso do momento

Na quarta-feira, 13 de maio, uma multidão se reuniu na Praça da Revolução, em Teerã, para uma cerimônia de despedida que foi muito além do protocolo esportivo. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, posou para fotos com jogadores e dirigentes. Torcedores seguravam cartazes em homenagem ao líder supremo Ali Khamenei, morto durante o conflito com os EUA, segundo a rede Al Jazeera. O evento, descrito pelo próprio Taj como de "caráter simbólico", foi transmitido pela TV estatal e reuniu participantes que misturavam esperança esportiva com luto político.

"Estou muito feliz e, sinceramente, essa multidão que vejo aqui mostra o quanto todos os amam. Espero que essa multidão e essas orações sirvam de apoio para eles e que consigam vencer", disse Bahareh, uma das participantes, à agência Reuters.

Há um paralelo histórico que me ocorre toda vez que vejo uma seleção nacional carregada pelo peso político de seu país: a Iugoslávia de 1990, que disputou a Copa da Itália com o país já em processo de dissolução interna. Os jogadores entravam em campo enquanto as repúblicas negociavam sua separação. O futebol funcionou, naquele caso, como uma espécie de suspensão temporária da realidade. O Irã de 2026 opera em lógica semelhante — com a diferença de que a guerra não é interna, e o adversário geopolítico é o mesmo país que vai receber a delegação no aeroporto.

O SportNavo acompanhou a evolução das negociações desde março e identificou um padrão recorrente: cada declaração de garantia da FIFA é seguida por um novo episódio de bloqueio diplomático. Infantino afirmou que "nenhuma potência externa pode privar o Irã de participar de uma competição para a qual se classificou por mérito", mas a FIFA não tem autoridade para emitir vistos nem para garantir acesso em aeroportos.

O que muda no Grupo G e o roteiro até Los Angeles

A delegação iraniana não viajará diretamente para os EUA. O plano é ir primeiro à Turquia, onde a equipe realizará sua preparação em Antalya, incluindo um amistoso contra a Gâmbia em 29 de maio. Só depois disso a delegação tentará cruzar a fronteira americana — e é nesse momento que as dez condições exigidas pela FFIRI serão testadas na prática.

No Grupo G, o Irã enfrenta Nova Zelândia, Bélgica e Egito. A Bélgica, atual 14ª do ranking FIFA, é o adversário mais qualificado — e o confronto entre as duas seleções, previsto para acontecer nos EUA, carrega uma ironia geopolítica que não passa despercebida: a Bélgica sedia a sede da OTAN, aliança que os EUA acionaram como argumento diplomático durante o conflito. São detalhes que não mudam o resultado em campo, mas que contextualizam o ambiente em que cada jogo será disputado.

A seleção iraniana está instalada na cidade de Tucson durante o torneio, segundo a FIFA. A estreia contra a Nova Zelândia acontece em 15 de junho, em Los Angeles — a mesma cidade onde, em 1994, o Irã não pôde sequer ser sorteado para o mesmo grupo que os EUA por pressão política. Trinta e dois anos depois, o futebol colocou os dois países no mesmo continente, no mesmo torneio, com a delegação iraniana dependendo de um visto americano para entrar em campo.

"Nós definitivamente participaremos da Copa do Mundo de 2026, mas os anfitriões precisam levar em consideração nossas preocupações", declarou a FFIRI em comunicado oficial.

O prazo para que todas as questões de acesso sejam resolvidas é curto: a delegação precisa estar em solo americano antes de 10 de junho para cumprir o protocolo da FIFA. Se o visto de algum membro da comissão técnica for negado, a federação iraniana já sinalizou que levará o caso ao Tribunal Arbitral do Esporte. O jogo, nesse caso, começa muito antes do apito inicial em Los Angeles.