6 de abril de 2026. O Mirassol anuncia que manteve 80% da base campeã da Série B para encarar o Red Bull Bragantino no Brasileirão Série A. Entre os nomes que ficaram, um zagueiro de 28 anos e 188 centímetros que percorreu Bahia e interior paulista antes de encontrar, no oeste do estado, algo parecido com um lar.
João Victor Carroll Santana não chegou ao futebol profissional pela porta principal. Chegou pela lateral, carregando a bagagem de quem rodou por divisões menores, adaptou-se a culturas táticas distintas e entendeu, com o tempo, que a consistência é a única moeda que não desvaloriza no mercado do futebol brasileiro.
Início de carreira
Nascido em 2 de setembro de 1997, João Victor formou-se em um ambiente de futebol que exige maturidade precoce. Suas primeiras aparições no registro profissional apontam passagem pelo Vitória, clube baiano com tradição e exigência próprias, onde o defensor foi testado no Campeonato Baiano e na Copa do Nordeste — competições que funcionam como termômetro para jovens que precisam provar valor antes de ganhar sequência.
A virada de capítulo aconteceu no Guarani de Campinas, em 2022. Naquele ano, João Victor disputou 31 jogos pela Série B e marcou dois gols — número expressivo para um zagueiro —, além de quatro partidas no Campeonato Paulista, com mais um gol. A nota média de 7.024 na Série B daquele ano não é apenas um dado de plataforma: é o retrato de um defensor que começou a se firmar como titular confiável em segunda divisão, a liga onde carreiras se constroem ou se perdem sem holofote.
De Campinas ao Mirassol, a distância geográfica é pequena — algo como ir de Recife a Caruaru, uma hora de estrada. Mas a distância simbólica entre as duas passagens é muito maior: no Mirassol, João Victor encontrou um projeto, não apenas uma vaga.
Números que importam
Na temporada 2024, ainda na Série B, João Victor disputou 32 jogos pelo Mirassol e marcou um gol, com nota média de 7.04. Era o segundo ano consecutivo em que ele ultrapassava a barreira dos 30 jogos em uma única competição — dado que, para um zagueiro, equivale a dizer que o técnico confia, que o corpo aguenta e que o sistema joga ao redor dele.
Na temporada atual, 2026, com o clube já na elite do futebol brasileiro, João Victor soma 36 jogos, um gol e uma assistência. O número de partidas é o maior de sua carreira em uma única temporada segundo os registros disponíveis. A assistência — detalhe raro na ficha de um zagueiro — sugere um defensor que participa da construção, não apenas da destruição.
Ao longo da carreira, o jogador acumula 95 jogos e quatro gols registrados. Para quem atua na última linha, quatro gols em 95 partidas é uma taxa que poucos defensores brasileiros da mesma faixa etária conseguem apresentar com regularidade.
Estilo de jogo
Com 188 centímetros e 80 quilos, João Victor tem o físico clássico do zagueiro brasileiro moderno: alto o suficiente para dominar o jogo aéreo, mas sem o excesso de massa que compromete a mobilidade. O perfil sugere um defensor que se encaixa bem em sistemas que pedem saída de bola — característica cada vez mais valorizada no futebol nacional, onde a pressão alta obriga os zagueiros a se tornarem o primeiro passe da equipe.
A nota média consistente ao longo das temporadas na Série B — sempre acima de 6.8 — indica um jogador sem picos dramáticos, mas também sem quedas abruptas. Estabilidade. No vocabulário do futebol, isso se chama confiabilidade. No vocabulário do Mirassol de 2026, isso se chama necessidade.
A assistência registrada na temporada atual reforça a leitura de um defensor que entende o espaço ofensivo sem abrir mão do posicionamento. Não é um zagueiro que avança por impulso: é um que avança porque leu o jogo antes de todo mundo.
Conquistas e momentos marcantes
Os registros disponíveis não apontam títulos formais na trajetória de João Victor até o momento. Mas há uma conquista que não cabe em troféu: ser peça central do Mirassol que subiu para a Série A e que, em 2026, decidiu manter 80% do elenco campeão da Série B. Quando um clube faz essa escolha, está fazendo uma declaração sobre quem ele acredita. João Victor estava na lista dos que ficaram.
Disputar a Série A com a camisa 34 do Mirassol, clube do interior paulista que raramente frequenta a elite nacional, é em si um marco de carreira. Para um jogador que passou por Vitória, Guarani e chegou ao clube de Mirassol sem holofote, cada partida na primeira divisão é um capítulo que ele não estava garantido de escrever.
O que esperar daqui pra frente
João Victor tem 28 anos. No futebol brasileiro, essa é a idade em que um zagueiro começa a ser visto como produto acabado — não mais promessa, não ainda veterano. É o momento em que o mercado decide se o jogador sobe de patamar ou se estabiliza onde está.
Com 36 jogos em 2026 na Série A, o defensor do Mirassol constrói o argumento mais sólido de sua carreira. O cenário mais realista para os próximos 12 meses envolve duas possibilidades: a consolidação no clube do interior paulista, com possível renovação e papel de liderança no setor defensivo, ou a atração de interesse de clubes maiores que precisam de zagueiros experientes em primeira divisão sem custo de formação.
O futebol brasileiro tem o hábito de ignorar jogadores como João Victor até que eles se tornem indispensáveis para alguém. A temporada 2026 pode ser o momento em que essa invisibilidade termina. Trinta e seis jogos falam mais alto do que qualquer press release.








