36 jogos. Esse número, sozinho, conta uma história que muitos zagueiros brasileiros tentaram escrever na Europa e não conseguiram passar do rascunho. João Victor, 28 anos, nascido em 17 de julho de 1998, disputou todas as 36 partidas do Real Betis na temporada 2025/2026 — um volume de participação que, num clube andaluz historicamente exigente com suas opções defensivas, não é trivialidade. É escolha técnica reiterada semana após semana.
O número que define a temporada
Quando se fala em zagueiro que joga 36 partidas em uma temporada europeia, o dado bruto parece simples. Mas quem conhece a dinâmica da La Liga sabe que a regularidade defensiva é a moeda mais difícil de acumular. O campeonato espanhol, ao longo dos anos 90 e 2000, foi palco de alguns dos ciclos defensivos mais rígidos da história do futebol continental — do Barça de Van Gaal com Blanc e Reiziger ao Atlético de Simeone com Godin e Miranda, passando pelo Real Madrid de Capello onde Roberto Carlos e Hierro formavam uma das duplas mais pontuadas da era moderna. Naquele contexto histórico, a permanência de um zagueiro no time titular por 36 rodadas significava ter superado pressão, lesão, concorrência e variação tática. Em 2026, a lógica não mudou tanto.
João Victor, com 187 cm e 77 kg, tem o biotipo clássico do zagueiro europeu — alto o suficiente para disputar bolas aéreas, leve o suficiente para acompanhar atacantes em transição. Esses 36 jogos na temporada atual, sem gols e sem assistências, são a fotografia de um defensor que entende que sua função é subtrair, não adicionar.
Como ele chegou aqui
A trajetória de João Victor tem um ponto de partida que a imprensa brasileira recentemente revisitou com atenção: o Guarani, de Campinas. A notícia publicada em maio de 2026, intitulada "A travessia de João Victor — do Guarani ao Mirassol da Série A", ilumina um arco de carreira que passou por clubes do interior paulista antes de cruzar o Atlântico. Essa rota — interior do Brasil, Série A nacional, Europa — é conhecida, mas raramente percorrida com a consistência que os números de carreira de João Victor sugerem.
Ao longo de sua carreira profissional, o zagueiro acumulou 84 jogos em competições oficiais, marcando 3 gols e distribuindo 4 assistências — números que, para um zagueiro moderno, indicam participação ofensiva pontual sem desvirtuar a função primária. Há temporadas fragmentadas em seu histórico, com passagens por diferentes competições e contextos, o que é típico de jogadores que atravessam o processo de adaptação entre o futebol sul-americano e o europeu. O que os dados não revelam em detalhe, a regularidade atual confirma na prática: ele chegou ao Betis em condições de competir.
O Mirassol aparece como capítulo relevante nessa história. O clube do interior paulista, que em 2026 protagoniza uma campanha surpreendente na Copa Libertadores — vencendo com dez jogadores e permanecendo invicto no Grupo G —, foi parte do processo que lapidou João Victor antes de sua chegada à Espanha. Há uma ironia bonita nisso: o jogador que hoje defende a camisa 4 do Real Betis foi moldado num clube que, nesta mesma temporada, enfrenta gigantes sul-americanos em Assunção.
O que o faz diferente dos pares
Comparar João Victor com outros zagueiros brasileiros que tentaram a Europa é exercício que exige honestidade. Não faltam casos de compatriotas que chegaram a clubes espanhóis com alarde e saíram pela porta dos fundos após uma ou duas temporadas de adaptação inconclusa. O que diferencia o perfil de João Victor, ao menos pelo que os dados desta temporada indicam, é a continuidade sem dependência de momentos de brilho individual.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, o padrão de zagueiro que "defende sem aparecer nos holofotes" foi identificado como um dos mais valiosos — e dos menos celebrados — no futebol europeu contemporâneo. João Victor parece se encaixar nessa categoria. Seus 36 jogos em 2025/2026 não vieram acompanhados de gols espetaculares nem de assistências que viralizam. Vieram de presença, de consistência, de uma função defensiva que o técnico do Betis optou por não substituir ao longo de toda uma temporada.
Para contextualizar: na temporada 1999/2000, quando o Deportivo de La Coruña venceu a La Liga com 69 pontos — um dos títulos mais surpreendentes da história do campeonato —, a solidez defensiva de Naybet e Donato foi o alicerce que sustentou a campanha. Ninguém lembrava seus nomes como artilheiros. Todo mundo lembrava o título. A função de João Victor no Betis tem essa mesma lógica estrutural.
Os limites a vencer
A ausência de dados sobre títulos e conquistas específicas na carreira de João Victor não é irrelevante. Aos 28 anos — idade em que zagueiros europeus como Piqué já tinham Champions League no currículo, ou como Thiago Silva já era referência continental —, o brasileiro ainda constrói seu palmarès. O Betis, historicamente, é um clube que oscila entre campanhas europeias e temporadas de consolidação. Não é o Real Madrid dos anos 2000 nem o Atlético de Simeone, mas é um ambiente competitivo o suficiente para exigir nível alto semana após semana.
O desafio mais concreto para os próximos 12 meses é transformar regularidade em protagonismo. Há uma diferença entre o zagueiro que joga 36 partidas porque é a opção disponível e o zagueiro que joga 36 partidas porque é insubstituível. Os números atuais não permitem distinguir com precisão em qual categoria João Victor se encaixa — e essa ambiguidade é, por si só, o próximo capítulo a ser escrito.
A janela de transferências europeia, o desempenho do Betis nas competições da temporada seguinte e a eventual convocação para a seleção brasileira são variáveis que podem redefinir completamente o valor de mercado e a visibilidade do jogador. Aos 28 anos, ele está no pico físico de um zagueiro. A pergunta que fica é: o Betis vai renovar a confiança depositada nesta temporada, ou João Victor precisará buscar um novo endereço europeu para dar o próximo salto na carreira?













