A última vez que Neymar chegou a uma Copa do Mundo com problema físico, em 2014, o Brasil ficou sem ele na semifinal e levou 7 a 1 da Alemanha. Doze anos depois, o roteiro de incerteza volta — e desta vez a lesão apareceu ainda antes de o torneio começar. Com uma ruptura muscular de grau 2 na panturrilha direita, o camisa 10 não tem previsão de retorno confirmada enquanto a estreia contra Marrocos, marcada para 13 de junho em Nova Jersey, se aproxima a passos largos.
Da panturrilha dolorida no Santos ao exame em Nova Jersey
A origem do problema está em maio, num jogo do Santos contra o Coritiba — o último que Neymar disputou antes de ser convocado por Carlo Ancelotti, em 18 de maio. Na época, o Santos informou apenas um edema na panturrilha direita, diagnóstico que parecia gerenciável dentro do prazo até a Copa. O problema se revelou mais sério quando o atacante se apresentou à Granja Comary, em Teresópolis, nove dias depois da convocação, e passou por exames complementares. No dia 28 de maio, o médico da Seleção, Rodrigo Lasmar, confirmou a lesão de grau 2 e estimou de duas a três semanas de recuperação — o que coloca a primeira janela possível de retorno em 11 de junho, dois dias antes da estreia.
Nesta segunda-feira, 8 de junho, a CBF divulgou nota oficial informando que uma ressonância magnética realizada no mesmo dia apontou "boa evolução, dentro dos parâmetros esperados". O comunicado, porém, não traz nenhuma data concreta. O texto se limita a dizer que Neymar "seguirá o processo de recuperação e de preparação física planejado pela comissão médica da Seleção Brasileira". Enquanto o boletim médico era publicado, o atacante aproveitava a folga do grupo — concedida no domingo, 7 — em uma churrascaria em Nova Iorque, longe dos treinos coletivos que o restante da delegação realizou em Nova Jersey.
O que a comissão médica precisa ver antes de 13 de junho
Uma lesão muscular de grau 2 envolve ruptura parcial das fibras, com processo inflamatório que responde a protocolos de fisioterapia, crioterapia e fortalecimento progressivo. O próximo passo concreto, segundo informações da CBF, é liberar Neymar para exercícios com bola — o que ainda não aconteceu até esta segunda-feira. Essa etapa é decisiva: a resposta do músculo ao impacto do chute e à mudança de direção em alta velocidade é o indicador real de disponibilidade, não apenas a ausência de dor em repouso.
A Fifa permite substituições na lista de convocados até 24 horas antes da estreia de cada equipe. No entanto, Ancelotti já descartou publicamente essa hipótese. Em entrevista coletiva realizada em Teresópolis no dia 30 de maio, o técnico italiano foi direto: Neymar não será cortado. A decisão mantém o atacante no grupo como aposta de médio prazo, com foco nas partidas seguintes da fase de grupos — contra Haiti e Escócia —, onde a CBF acredita que ele poderá estar disponível.
Como registrado pelo SportNavo, o calendário sobrecarregado de 2025, com a Copa do Mundo de Clubes intercalada à temporada europeia e sul-americana, aumentou o índice de lesões musculares entre atletas de elite. Neymar não é exceção: chegou ao Santos já em processo de reintegração física e acumulou poucos minutos de alta intensidade antes do corte.
Neymar não está sozinho no departamento médico da Copa
O panorama de lesões nesta Copa do Mundo de 2026 é incomum em extensão e profundidade. Lionel Messi, da Argentina, sentiu inflamação no músculo posterior da coxa esquerda e foi preservado do amistoso contra Honduras, no dia 6 de junho. A expectativa é que ele atue alguns minutos contra a Islândia, nesta terça-feira, 9, como preparação para a estreia contra a Argélia, no dia 16. Lamine Yamal, da Espanha, sofreu lesão no posterior da coxa esquerda em abril, ficou fora do restante da temporada pelo Barcelona e agora está em fase final de recuperação — o técnico Luís de La Fuente acredita que o atacante estará apto para a estreia contra Cabo Verde, no dia 15.
No Uruguai, a situação é ainda mais crítica por afetar múltiplos setores. Ronald Araújo, zagueiro do Barcelona, sofreu distensão muscular na panturrilha e virou dúvida para o Mundial após comunicado emitido no dia 7 de junho. Arrascaeta, do Flamengo, se recupera de lesão muscular na panturrilha contraída durante treino da Seleção Uruguaia, sem prazo definido. Piquerez, do Palmeiras, passou por cirurgia em abril para tratar ruptura ligamentar no tornozelo — e segue fora. No Brasil, Wesley foi cortado definitivamente após lesão no adutor da coxa no amistoso contra o Egito; para sua vaga, Ancelotti convocou o volante Éderson.
O trunfo que Ancelotti guarda para o segundo jogo
A lógica da comissão médica e da comissão técnica brasileira aponta para um Neymar usado como uma chuva fina de verão — aquela que não faz barulho mas molha devagar e muda o jogo sem que ninguém perceba exatamente quando começou. A ideia não é forçar o retorno para 90 minutos contra Marrocos, mas preservar a integridade muscular para que o atacante entre em campo com carga controlada nas rodadas seguintes, quando o Brasil já tiver definido ou quase definido a classificação.
Neymar tem 34 anos, acumula histórico extenso de lesões graves — incluindo as fraturas no pé direito de 2018 e 2023 — e o grau 2 na panturrilha exige atenção redobrada. Uma recaída neste momento encerra a Copa antes de começar. Por isso, a pergunta que Ancelotti precisa responder não é se Neymar joga contra Marrocos no dia 13, mas se o atleta terá condições físicas reais de ser decisivo nas partidas que o Brasil precisar ganhar a partir do dia 18 — e se a comissão médica terá coragem de mantê-lo fora do banco mesmo com a pressão pública aumentando a cada hora.








