A última vez que a Copa do Mundo eliminou a Alemanha na fase de grupos antes de 2018 foi em 1938 — há 80 anos —, quando os alemães caíram para a Suíça em Bordeaux. Oitenta anos de ausência desse tipo de humilhação, e então vieram dois tropeços consecutivos: o 2 a 0 sofrido diante da Coreia do Sul, que encerrou a participação do tetracampeão na Rússia, e o 4 a 2 imposto pelo Japão no Qatar, que selou outra eliminação precoce em 2022. Para uma seleção que acumulou quatro títulos mundiais e cinco finais entre 1954 e 2014, a sequência representa a crise mais profunda em quase um século de história.

Dois fracassos consecutivos e o custo histórico para a Alemanha

Os números expõem a dimensão da queda com frieza cirúrgica. Em 2018, a Alemanha encerrou a fase de grupos com apenas 3 pontos disputados — uma vitória, uma derrota e um empate — e um saldo de gols de -1, resultado de um aproveitamento de 33%. Quatro anos depois, no Qatar, o aproveitamento foi idêntico: 3 pontos em 9 disputados, desta vez com saldo de -1 novamente, após o 1 a 1 com a Espanha e a derrota para o Japão. Duas campanhas, dois fracassos, e a posição no ranking da FIFA que despencou para o 10º lugar — a pior colocação alemã em décadas, número que contrasta brutalmente com o 2º posto que a Mannschaft ostentava ao conquistar o título de 2014 no Maracanã, superando a Argentina por 1 a 0 na prorrogação.

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O intervalo entre 2014 e 2018 foi suficiente para que uma geração de jogadores envelhecesse sem renovação adequada. Thomas Müller, Mats Hummels e Jérôme Boateng, pilares do tetracampeonato, chegaram à Rússia com 28, 29 e 29 anos respectivamente, mas sem a vitalidade tática que a equipe de Joachim Löw exigia. A Alemanha marcou apenas 2 gols em três jogos em 2018, contra 18 gols em sete partidas em 2014 — uma queda de eficiência que nenhuma narrativa de azar consegue justificar.

Goretzka fala o que a torcida alemã não queria ouvir

Leon Goretzka, 31 anos, é um dos poucos jogadores que atravessou essa travessia no deserto com a camisa da Mannschaft e sobreviveu para contar. Em entrevista publicada no site oficial da FIFA, o meio-campista do Bayern de Munique dispensou qualquer filtro diplomático ao avaliar a relação entre o elenco e o público alemão.

"Os torcedores perderam um pouco da fé em nós, e adoraríamos reconquistá-los", admitiu Goretzka, em declaração que confirma o que as pesquisas de opinião na Alemanha já indicavam há meses.

O tom realista foi mantido quando o assunto foi o favoritismo na Copa do Mundo de 2026, disputada em solo norte-americano, canadense e mexicano. Com a Alemanha na 10ª posição do ranking da FIFA, o meio-campista recusou qualquer ilusão.

"Não acho que estaremos entre os principais favoritos, sejamos honestos", disse Goretzka, posicionando a Mannschaft como uma equipe em reconstrução, não como candidata ao título.

A honestidade do jogador contrasta com a retórica habitual de seleções que chegam ao Mundial infladas por narrativas de grandeza. Para um país que acostumou seus torcedores a semifinais e finais — entre 1966 e 2014, a Alemanha chegou ao menos às quartas em todos os Mundiais que disputou, com exceção de 1978 —, admitir que não figura entre os favoritos é um exercício de maturidade raro no futebol de alto nível.

Nagelsmann e o recomeço que passou pelo vestiário

A reconstrução alemã desde 2022 tem nome e sobrenome: Julian Nagelsmann, 38 anos, que assumiu o cargo em setembro de 2023 após a demissão de Hansi Flick. O técnico mais jovem a comandar a seleção alemã na era moderna impôs uma lógica de renovação que custou algumas relações — inclusive com Goretzka, que foi deixado de fora da Eurocopa de 2024, torneio disputado em solo alemão e encerrado com eliminação nas semifinais para a Espanha por 2 a 1.

O retorno do meio-campista ao grupo passou por uma conversa franca entre jogador e treinador, relatada pelo próprio Goretzka com o pragmatismo de quem entende que conflitos internos destroem campanhas antes de qualquer adversário em campo.

"Queríamos voltar à mesma sintonia e agora temos as bases para trabalhar bem juntos novamente", explicou o jogador, descrevendo o processo de reconciliação com Nagelsmann.

Um indicativo concreto de que o ambiente melhorou foi a virada alemã sobre a Suíça em amistoso realizado na Data Fifa de março de 2026 — 4 a 3 para a Alemanha, após estar perdendo por duas vezes no decorrer da partida. Para Goretzka, o resultado não foi apenas um placar amistoso: foi a prova de que o grupo tem qualidade individual para virar jogos diante de adversidade, característica que faltou nas campanhas de 2018 e 2022, quando a equipe sucumbiu ao primeiro sinal de dificuldade.

Curaçao, Costa do Marfim e Equador no caminho da redenção alemã

Na Copa do Mundo de 2026, a Alemanha integra um grupo que, no papel, oferece possibilidades reais de classificação. Curaçao, que disputa sua primeira Copa, Costa do Marfim e Equador são os adversários na fase de grupos — um conjunto bem diferente dos grupos que incluíam Coreia do Sul e Japão nas edições anteriores. Mas o histórico recente ensina que grupos acessíveis não garantem classificação para seleções em crise de identidade.

Goretzka levantou um fator que frequentemente é subestimado em análises táticas: o impacto físico do clima norte-americano. O jogador conhece as condições por ter disputado o Mundial de Clubes de 2025 nos Estados Unidos pelo Bayern de Munique e alertou que o elenco precisará estar no pico da forma física para aguentar o torneio. O calor e a umidade de cidades como Dallas e Kansas City, que receberão partidas do grupo alemão, podem ser tão decisivos quanto qualquer esquema tático montado por Nagelsmann.

Registrado pelo SportNavo ao longo dos últimos meses de preparação, o processo de reconstrução alemão envolveu a convocação de jogadores sub-23 em percentual superior a 40% do elenco, algo inédito desde a Copa de 1934. A Alemanha estreia na Copa do Mundo de 2026 contra Curaçao no dia 13 de junho — exatamente 32 anos após a conquista do título mundial de 1994 ter escapado das mãos alemãs nas quartas, eliminados pela Bulgária por 2 a 1 em Nova York, um fantasma que a nova geração sequer viveu, mas que a história não deixa esquecer.