Subiu. O ponteiro do altímetro, não o placar — ainda. Quando a delegação da África do Sul desembarcou em solo mexicano, após um atraso burocrático relacionado à emissão de vistos que obrigou a Copa do Mundo a começar com um imprevisto diplomático, o que mais importava não era a logística do voo, mas o ar rarefeito que os jogadores passariam a respirar nas semanas seguintes. A cidade de Pachuca, base de treinamento escolhida pela federação sul-africana, fica a 2.400 metros acima do nível do mar — 200 metros acima da Cidade do México e quase 650 metros acima de Joanesburgo, onde a maioria dos jogadores do elenco atua nos seus clubes.

A fisiologia antes da tática

Existe um fenômeno bem documentado na medicina esportiva chamado de hipóxia de altitude, que ocorre quando o organismo, submetido a pressões parciais de oxigênio menores, reduz a capacidade aeróbica de forma imediata. Em altitudes acima de 2.000 metros, jogadores de futebol registram queda de desempenho de até 7% na potência máxima nos primeiros dias de exposição — dado que se reflete diretamente em sprints, recuperação entre os esforços e tomada de decisão sob fadiga. O técnico Hugo Broos, que conhece o México de dentro, já que atuou pela Bélgica na Copa de 1986 justamente no país, é preciso ao descrever o que espera do início da preparação:

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"Nos primeiros dias, será difícil treinar a 100% por causa da altitude, então é isso que faremos na segunda semana", disse Broos em entrevista a uma rádio.

A declaração é aparentemente simples, mas carrega uma lógica de periodização que vale ser decifrada. A equipe chegou em torno de 30 de maio — onze dias antes da partida de abertura —, o que significa que os primeiros quatro ou cinco dias seriam de adaptação passiva, com treinos de baixa intensidade. A segunda semana, mencionada por Broos, corresponderia justamente aos dias que antecedem diretamente o jogo de 11 de junho, quando o organismo já teria iniciado a produção compensatória de eritropoietina natural, aumentando a concentração de glóbulos vermelhos no sangue e melhorando o transporte de oxigênio.

Esse intervalo de onze dias não é acidental. É, na verdade, o mínimo recomendado pela literatura científica para que os benefícios fisiológicos da aclimatação comecem a superar o prejuízo inicial. Selecionar Pachuca como sede — e não a própria Cidade do México — também revela sofisticação: treinar a 2.400 metros para jogar a 2.200 metros é uma estratégia análoga ao método de altitude training que atletas olímpicos de endurance utilizam há décadas.

O que a história das Copas em altitude ensina

Há um paralelo literário útil aqui. Em A Arte da Guerra, Sun Tzu argumenta que o guerreiro que conhece o terreno antes do combate já ganhou metade da batalha. A África do Sul, ao investir nessa preparação específica, demonstra ter lido o mapa com atenção — algo que nem sempre acontece nas Copas disputadas em altitude elevada.

O próprio Estádio Azteca, palco da estreia, carrega na memória do futebol mundial episódios em que a altitude foi protagonista. Na Copa de 1986, jogos disputados naquele estádio terminavam com jogadores cambaleando nos acréscimos, exauridos por um oxigênio que simplesmente não chegava em quantidade suficiente. O México, como anfitrião desta edição de 2026, tem a vantagem óbvia de treinar no país há meses — mas os jogadores sul-africanos que atuam em Joanesburgo, a 1.753 metros, já partem de uma base fisiológica superior à da maioria dos adversários que chegariam ao nível do mar.

A Copa de 2010, sediada justamente na África do Sul, oferece outro dado relevante: a seleção dos Bafana Bafana empatou em 1 a 1 com o México no Soccer City, em Joanesburgo, na partida de abertura daquele torneio. Dezesseis anos depois, o confronto se repete, com os papéis de anfitrião invertidos — e a altitude como variável central novamente.

México tem a pressão do Azteca, África do Sul tem o plano

O México estreia em 11 de junho às 16h (horário de Brasília) no Estádio Azteca, diante de uma torcida que representa uma das maiores pressões psicológicas do futebol continental. O ambiente será completado por uma cerimônia de abertura que reúne, entre outros, J Balvin, Los Ángeles Azules e a cantora sul-africana Tyla — cujo nome no palco, paradoxalmente, pertence ao mesmo país que a seleção mexicana precisa derrotar para começar bem a Copa.

A África do Sul, segundo informações registradas pelo SportNavo ao longo da cobertura pré-Copa, também planejava realizar dois amistosos de preparação: um em casa contra a Nicarágua, em 29 de maio, e outro em Pachuca contra Porto Rico, ainda em fase de negociação. Esses jogos cumprem função dupla — manutenção do ritmo competitivo e teste de esquemas táticos em altitude antes da estreia oficial.

"Não é um grupo fácil para nós. Para começar, enfrentaremos os anfitriões na partida de estreia, no Estádio Azteca, e será muito difícil para nós lá", admitiu Broos no início do ano.

A honestidade do técnico belga não esconde, contudo, a ambição declarada de surpreender. Broos já havia sinalizado publicamente que via a África do Sul como capaz de avançar da fase de grupos pela primeira vez em quatro participações mundialistas — um feito que exigiria ao menos um empate contra o México e uma vitória em algum dos outros dois jogos do Grupo A, contra República Tcheca, em Atlanta, no dia 18 de junho, e Coreia do Sul, em Monterrey, no dia 24.

Cenário possível para 11 de junho

Se a aclimatação correr conforme o planejado, a África do Sul chegará ao Azteca com onze dias de adaptação a altitudes iguais ou superiores às do estádio — uma janela fisiológica que, segundo os protocolos adotados por seleções europeias em Copas disputadas na América do Sul, costuma ser suficiente para anular a desvantagem inicial. O México, por sua vez, terá o calor da torcida, a familiaridade com o terreno e a pressão política de ser anfitrião de um torneio que o país sediou duas vezes antes — em 1970 e 1986.

O confronto projeta-se, portanto, como um duelo entre a lógica emocional do anfitrião e a racionalidade preparatória do visitante. A Pachuca que hospedou os sul-africanos nas últimas semanas pode ter feito mais pelo resultado do que qualquer sessão de análise de vídeo. Após a estreia no Azteca, a África do Sul segue para Atlanta enfrentar a República Tcheca em 18 de junho, antes do confronto decisivo contra a Coreia do Sul em Monterrey no dia 24 — e o aproveitamento físico acumulado nas primeiras semanas no México será determinante para saber se o Grupo A guarda ou não uma surpresa histórica.