Confesso: eu errei sobre Alesson em 2024. Quando o nome apareceu vinculado ao Torpedo Moscow — um clube russo de segunda linha, distante de qualquer holofote que o futebol brasileiro costuma iluminar —, escrevi mentalmente aquele prognóstico que qualquer jornalista envergonharia ao reler: mais um brasileiro engolido pela distância e pelo frio, mais um atacante que a Série A havia perdido sem perceber. Eu estava errado. E hoje, assistindo ao Alesson conduzir a linha ofensiva de um Mirassol que surpreende a cada rodada do Brasileirão Série A de 2026, entendo o porquê.
Sob a lente do treinador
Há uma categoria de jogador que os treinadores chamam, em linguagem de vestiário, de "jogador de função múltipla" — aquele que não é o centroavante de área, não é o ponta de velocidade pura, mas que ocupa os espaços entre as linhas com uma inteligência posicional que só se adquire em anos de adaptação a sistemas diferentes. Alesson, nascido em Guarulhos no dia 16 de fevereiro de 1999, pertence a essa categoria. Com 167 cm e 74 kg, ele nunca vai intimidar fisicamente nenhum zagueiro da elite nacional. O que faz, em compensação, é tornar a vida desses zagueiros permanentemente desconfortável.
A trajetória que o formou como atacante começou ainda em 2013, quando tinha apenas 14 anos e dava seus primeiros chutes no PSTC. Em 2015, o Paraná o absorveu — e foi ali que a paciência passou a ser o traço mais definitivo de seu desenvolvimento. Sua estreia profissional aconteceu apenas em novembro de 2016, num empate por 1 a 1 contra o Ceará pela Série B, titular em campo alheio. Não é a estreia de quem chega pronto; é a estreia de quem estava sendo testado.
"Atacante pequeno que sobrevive no futebol brasileiro por dez anos não sobrevive por acidente. Ele sobrevive porque aprendeu a ser incomodo nas horas certas." — comentarista esportivo, em análise de rodada do Brasileirão 2026
Sob a lente do torcedor
Para quem acompanha o Mirassol nesta temporada, Alesson já tem um lugar na memória afetiva que vai além dos números. Há algo na maneira como ele recebe a bola de costas para o gol, gira o marcador com um toque curto e já está em outra posição antes que o adversário processe o movimento — uma daquelas qualidades que a câmera de transmissão frequentemente perde, mas que a arquibancada vê com clareza meridiana.
Sua história tem a textura das que o torcedor brasileiro aprecia: não é a do prodígio que chegou com 17 anos e virou manchete. É a do atleta que passou pelo sub-20 da Ponte Preta em 2017, foi emprestado ao Cruzeiro no mesmo ano, retornou ao Paraná em 2018 sem que a cláusula de compra fosse ativada, e estreou na Série A no dia 27 de outubro daquele ano — como substituto, numa derrota por 3 a 1 justamente para o Cruzeiro, o clube que havia preferido não comprá-lo. Há um certo sabor amargo e formador nesse tipo de episódio que molda atletas de maneira mais definitiva do que qualquer título de base.
Seu primeiro gol como profissional veio em 7 de fevereiro de 2019, abrindo o placar numa goleada de 5 a 2 sobre o Itabaiana pela Copa do Brasil. Pequeno como momento de palco, enorme como marco pessoal. Depois vieram passagens pelo Bahia — onde chegou em janeiro de 2020 e conquistou o Campeonato Baiano daquele mesmo ano —, pelo Goiás, onde somou a Copa Verde de 2023 à sua prateleira de conquistas, pelo Cuiabá, pelo Vila Nova e, finalmente, pelo Torpedo Moscow, que hoje o cede ao Mirassol enquanto escreve este capítulo mais luminoso de sua carreira.
Sob a lente da planilha de dados
Os números desta temporada são, para qualquer analista que os examine sem preconceito de nome ou clube, notáveis. Em 35 jogos pelo Mirassol no Brasileirão Série A de 2026, Alesson marcou 11 gols e distribuiu 6 assistências — uma contribuição direta para 17 tentos, o tipo de retorno que coloca qualquer atacante em conversas sobre os mais produtivos do campeonato. Para um jogador que, em toda sua carreira até aqui, havia acumulado 26 gols em 145 partidas profissionais, a temporada atual representa uma inflexão expressiva no rendimento ofensivo.
A razão para essa inflexão raramente é milagrosa. Ela costuma ser sistêmica: um clube que joga num sistema que potencializa suas características, um entorno tático que lhe oferece os espaços entre linhas onde ele mais prospera, e, não raramente, a maturidade de um atleta que chegou aos 27 anos tendo experimentado ambientes radicalmente distintos — da Série B ao futebol russo, passando por quase todos os climas possíveis do futebol brasileiro. Essa maturidade tem preço de mercado, e o Mirassol, ao menos por enquanto, está pagando um valor muito abaixo do que recebe em campo.
Sob a lente do mercado
A situação contratual de Alesson é, ao mesmo tempo, sua maior vulnerabilidade e seu maior trunfo nos próximos doze meses. Ele pertence ao Torpedo Moscow e está cedido ao Mirassol — o que significa que qualquer negociação futura passa necessariamente por um clube russo que, a depender do desempenho continuado, pode escolher entre reintegrá-lo ao seu elenco, vendê-lo ou estender o empréstimo.
Com 11 gols e 6 assistências na temporada, Alesson passou a existir no radar de olheiros de outros clubes brasileiros de maior porte. A questão que se coloca para os próximos meses é simples na enunciação e complexa na resolução: o Mirassol tem musculatura financeira para transformar o empréstimo numa aquisição permanente? E, se não tiver, algum clube da Série A com ambições maiores enxerga nele o atacante de sistema que resolve um problema pontual sem custar os valores que o mercado cobra por nomes mais badalados?
A resposta para essas perguntas chegará, provavelmente, na janela de transferências do meio do ano. O que já é possível afirmar, com os dados desta temporada na mão, é que Alesson dos Santos Batista — o garoto de Guarulhos que estreou profissionalmente num empate anônimo em novembro de 2016 — está, aos 27 anos, jogando o melhor futebol de sua vida. Que eu tenha demorado para perceber isso é culpa minha. Que o mercado demore também seria um desperdício que o futebol brasileiro não deveria se permitir.










