"Temos que considerar também que ninguém no primeiro tempo teve seu melhor nível no jogo." A frase é de Casemiro, ainda no vestiário após sair no intervalo da estreia do Brasil contra Marrocos. Só que o problema é que, enquanto outros jogadores tiveram performances medianas, os dados da FIFA apontaram especificamente para ele: menos distância percorrida, velocidade abaixo do esperado e pouca contribuição nas ações defensivas.

O que os números de Casemiro revelam sobre a estreia

As métricas divulgadas pela FIFA logo após o jogo contra Marrocos contaram uma história desconfortável. Três pontos saltam aos olhos de qualquer analista:

  • Distância percorrida: abaixo da média esperada para um volante de pressão em 45 minutos de Copa do Mundo — atletas da posição costumam cobrir entre 5,5 km e 6,5 km por jogo completo.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): o Brasil registrou índices ruins no primeiro tempo, o que indica que o bloco médio não pressionava com eficiência — e Casemiro, responsável por gatilhar a pressão, esteve lento nas transições.
  • Defensive actions: número de duelos ganhos, interceptações e recuperações de bola ficou aquém do padrão que ele mesmo estabeleceu no Real Madrid entre 2016 e 2022.

O próprio jogador não fugiu da autocrítica. Aos 34 anos, com duas Copas disputadas na bagagem, ele reconheceu que esteve muito abaixo do que se espera dele — e essa maturidade, curiosamente, é parte do argumento que Ancelotti usa para mantê-lo.

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A relação de Ancelotti com Casemiro vai além da Copa

Carlo Ancelotti não convocou Casemiro por nostalgia. Ele o conhece melhor do que qualquer outro técnico: foi no Real Madrid que os dois empilharam títulos — incluindo a Champions League de 2021/22 — e Ancelotti sabe exatamente quais funções o volante cumpre que não aparecem no GPS ou no mapa de calor.

Desde que assumiu a Seleção Brasileira, o italiano escalou Casemiro em 9 das 10 partidas que dirigiu. A única ausência foi contra a Bolívia, em El Alto, quando o jogador cumpria suspensão — não foi escolha técnica. Nos 13 jogos totais sob seu comando, Casemiro iniciou 12. Esse dado, levantado em matéria do SportNavo, é o retrato mais honesto da confiança do treinador.

O que os números de Casemiro revelam sobre a estreia Ancelotti blindou Casemiro
O que os números de Casemiro revelam sobre a estreia Ancelotti blindou Casemiro

Ancelotti até testou Fabinho no meio de campo durante os treinos desta semana, mas o recado foi direto: Casemiro começa jogando contra o Haiti nesta sexta-feira, às 21h30 (horário de Brasília). A mensagem foi comunicada ao próprio jogador antes de qualquer anúncio público.

"Temos que considerar também que ninguém no primeiro tempo teve seu melhor nível no jogo", disse Casemiro após a partida contra Marrocos, assumindo a má atuação coletiva como parte do contexto da sua própria performance individual.

Por que o Brasil ainda não encontrou quem substitua Casemiro

Aqui está o nó do debate. A crítica à lentidão de Casemiro é legítima — mas ela existe no vácuo quando não aponta um substituto concreto capaz de replicar as funções que ele desempenha.

Compare com o que o Brasil tinha nos anos 2000: Emerson Ferreira, que disputou a Copa de 2002 com 26 anos e cobria 11,2 km por jogo em média, tinha um perfil físico completamente diferente para a posição. Mas aquela Seleção também dependia de um pivô de contenção que liberasse os criadores — Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo — de responsabilidades defensivas. A função existe desde sempre. O que muda é quem a executa.

No futebol moderno, o volante de contenção ideal precisa de dois atributos que não são negociáveis:

  1. Progressive passes: capacidade de receber sob pressão e progredir com a bola para o terço final — Casemiro ainda tem essa leitura, mesmo que o motor tenha perdido rotações.
  2. Posicionamento no bloco médio: saber quando fechar o espaço entre linhas para impedir que o adversário construa com xA (expected assists) dentro da área. Essa função é quase invisível nas estatísticas tradicionais, mas aparece no pass network da Seleção — quando Casemiro está bem posicionado, os caminhos para o gol do adversário passam por fora, não por dentro.

A avaliação de Casemiro e de Ancelotti é convergente: o meio de campo brasileiro ficou desprotegido contra Marrocos não só por culpa individual, mas porque o sistema coletivo não funcionou. Os marcadores tiveram que cobrir espaços grandes demais, o que sobrecarregou especialmente quem deveria ser o elo entre defesa e ataque.

"Admirador do volante de longa data, desde os tempos em que empilharam taças no Real Madrid", descreveu a reportagem do Jornal Nacional ao explicar por que Ancelotti mantém Casemiro como titular mesmo após a atuação apagada na estreia.

Fabinho é uma opção real, mas ainda não foi testado sob pressão de Copa do Mundo com essa camisa. André, do Fluminense, tem métricas de PPDA melhores em clubes, mas ainda constrói sua relação com o sistema de Ancelotti. Enquanto isso, Casemiro chega ao jogo contra o Haiti com 34 anos, a experiência de duas Copas anteriores — e a obrigação de provar que a estreia foi anomalia, não tendência.