— Cara, você ainda acredita nesse Ancelotti? O Brasil caiu pras oitavas, irmão.
— Depende. Você lembra como era o Milan no primeiro ano dele?
— Não lembro não. Mas sei que a gente perdeu pra Noruega.
Esse diálogo aconteceu em botecos de Porto Alegre a Belém na semana seguinte à derrota. Uma semana. Tempo suficiente para a Seleção Brasileira ser enterrada nas redes sociais e para a CBF publicar um vídeo em tom de recomeço — "Um filme que não queríamos escrever, sobre uma história que não pode ser esquecida. Pode acreditar. Que venha o novo ciclo" — sem responder a pergunta que realmente importa: o que muda estruturalmente para 2030?
A eliminação que escancarou as falhas ofensivas de Ancelotti no Brasil
Carlo Ancelotti estreou na Seleção em junho de 2025 e chegou à Copa do Mundo de 2026 com pouco mais de um ano de trabalho. O diagnóstico do torneio é brutal: o Brasil foi eliminado pela Noruega nas oitavas de final, sofrendo uma das campanhas mais vexatórias em décadas — equivalente, em termos de rodada de eliminação, ao pior resultado em 60 anos de participação em Copas. O time teve desfalques, trocou de ideia taticamente mais de uma vez e, sobretudo, não apresentou consistência ofensiva. Foram problemas de criação, de finalização e de identidade de jogo que qualquer torcedor com 20 minutos de atenção identificou.
A crítica ao aproveitamento ofensivo não é nova na carreira do italiano. No Parma, entre 1996 e 1998, o time de Ancelotti marcou apenas 44 gols em 37 jogos na sua primeira temporada completa — média de 1,19 gol por partida. O ataque era considerado problema crônico. No segundo ano, a média subiu para 1,6 gol por jogo, o que representou melhora mensurável, ainda que o clube tenha caído do vice-campeonato italiano para o 6º lugar. A trajetória não é linear, e isso precisa ser dito com clareza.
O empresário Will Dantas, que gerencia a carreira de Pedrinho — ex-Corinthians e atualmente no Shakhtar Donetsk —, explodiu nas redes sociais na semana da eliminação.
"No treino de hoje do Shakhtar, pa pá ensinou pra uns Zé b*****, 'craques' da Seleção, como ser gelado na frente do goleiro. Vão dar meia hora de **"digitou Dantas em referência a um treino de Pedrinho. Na segunda publicação, o agente foi além:
"Enquanto tivermos esses p** no c* que só pensam exclusivamente em dinheiro e não entendem absolutamente nada de bola comandando o futebol brasileiro, jamais seremos campeões mundiais novamente."A fala é grosseira, mas o ponto que toca — gestão do futebol brasileiro como entrave estrutural — é debatido há décadas.
O que os segundos anos de Ancelotti em clubes revelam sobre o ciclo 2030
Quem não tem cão caça com gato — e o Brasil, sem um projeto de base consolidado e com gestão institucional fragilizada, precisará extrair o máximo de um técnico que já provou saber se reinventar. A história de Ancelotti em clubes mostra um padrão: o primeiro ano é de diagnóstico e ajuste tático, frequentemente com resultados abaixo do esperado; o segundo ano tende a apresentar coerência maior de sistema.

Quando chegou à Juventus em meados de 1999, Ancelotti encontrou um elenco com Thierry Henry e Zinedine Zidane — dois jogadores que não se encaixavam no 4-4-2 clássico que aprendera com Arrigo Sacchi. Foram 20 jogos no restante daquela temporada: 9 vitórias, 7 empates e 4 derrotas. No ano seguinte, já com tempo para adaptar o sistema às características dos jogadores, o desempenho melhorou substancialmente. A mesma lógica se aplicou no Milan, onde os títulos — incluindo a Champions League de 2003 — vieram a partir do segundo e terceiro anos de trabalho.
Quando impõe um sistema rígido sem considerar o perfil dos atletas, ele tropeça. Quando adapta o modelo às peças disponíveis, ele vence. A Seleção de 2025-2026 foi um caso do primeiro tipo: Ancelotti chegou com ideias, encontrou um elenco heterogêneo, acumulou desfalques no período mais crítico e não conseguiu consolidar identidade em tempo hábil.
O que precisa mudar para que 2030 não seja mais do mesmo
Ancelotti renovou contrato com a CBF antes mesmo do início da Copa do Mundo de 2026, garantindo vínculo até 2030. A entidade publicou o vídeo de recomeço neste domingo, sete dias após a eliminação, sinalizando que o projeto segue. Mas continuar com o mesmo técnico não resolve os problemas estruturais que o empresário Will Dantas — de forma agressiva, mas não sem fundamento — apontou: gestão do futebol brasileiro, critérios de convocação e ausência de renovação geracional planejada.
O ciclo para a Copa de 2030 tem quatro anos. Para efeito de comparação, Ancelotti trabalhou três temporadas completas no Milan antes de conquistar a Champions League de 2003 e outras três antes de repetir o feito em 2007. Com a Seleção, o italiano terá de comprimir esse processo — e a CBF terá de garantir condições que até agora não garantiu: calendário de amistosos coerente, base sub-20 integrada ao projeto principal e critérios técnicos transparentes de convocação, sem interferência de agentes e interesses comerciais.
A próxima janela de convocação da Seleção está prevista para setembro de 2026, com o início das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030. Ancelotti terá ali a primeira oportunidade de mostrar que o segundo ano — como sugere seu histórico — começa diferente. O Brasil joga em outubro contra adversários sul-americanos ainda a serem confirmados pela CONMEBOL, e os resultados dessas rodadas já vão definir se a narrativa do "novo ciclo" tem substância ou é apenas material para vídeo de redes sociais.










