A última vez que o Brasil entrou em campo numa Copa do Mundo com um técnico que nunca havia repetido uma escalação sequer foi... nunca. Nem Zagallo, que reinventou o 4-2-4 em 1970, nem Parreira, que trocou Romário por Edmundo na véspera da semifinal de 1994, chegaram a tanto. Carlo Ancelotti faz hoje, no MetLife Stadium em East Rutherford, Nova Jersey, algo que nenhum treinador verde-amarelo fez antes: manda um time completamente inédito à sua estreia numa Copa do Mundo — o 13º diferente em 13 jogos no comando da seleção.

O técnico que nunca copia a si mesmo

Quem acompanhou Ancelotti no Milan dos anos 2000 sabe que o italiano nunca foi um homem de fórmulas fixas. Em 2003, quando o Milan de Shevchenko e Kaká venceu a Champions, ele alternava entre o losango no meio e o 4-4-2 clássico dependendo do adversário. Na seleção brasileira, essa característica ganhou dimensão histórica: 12 partidas, 12 formações distintas. A filosofia foi declarada desde o início. O treinador deixou claro que prefere "ajustar a equipe conforme cada cenário" em vez de criar uma estrutura considerada intocável.

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Lesões também forçaram a mão. Para esta estreia, Neymar está fora com problema na panturrilha, e o elenco também não conta com Rodrygo, Estêvão, Éder Militão e Wesley — todos cortados por problemas físicos. Quem não tem cão caça com gato, diz o ditado, e Ancelotti transformou a adversidade em versatilidade tática.

Os 11 que devem começar contra Marrocos

Nos treinos da semana, o técnico esboçou a seguinte formação: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Raphinha, Matheus Cunha e Vini Jr. O esquema aproxima-se de um 4-3-3 com Paquetá numa função de meia-enganche entre as linhas — posição que o próprio jogador ocupou com regularidade no West Ham antes de chegar ao Lyon.

A dupla de zaga Gabriel Magalhães e Marquinhos chama atenção. Nos últimos dois ciclos de Copa — 2018 e 2022 — o Brasil começou com Thiago Silva como titular absoluto. A ausência do capitão histórico deixa Marquinhos como referência de liderança defensiva, papel que ele desempenha no PSG há anos, mas que numa Copa do Mundo ganha peso diferente. Gabriel Magalhães, por sua vez, vem de temporada sólida no Arsenal, onde participou de 34 partidas na Premier League 2025/2026.

No meio, a presença simultânea de Casemiro e Bruno Guimarães cria equilíbrio entre destruição e construção — algo que a geração de 2002 nunca precisou tanto, porque Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho resolviam sozinhos. Hoje, o Brasil é mais coletivo e menos dependente de um único gênio, o que pode ser tanto virtude quanto fragilidade diante de um adversário organizado como Marrocos.

Marrocos não é mais surpresa — é ameaça conhecida

Em 2022, no Catar, Marrocos eliminou Bélgica, Espanha e Portugal antes de cair para a França na semifinal. Foi a primeira seleção africana a chegar entre os quatro melhores de um Mundial. Agora, sob Mohamed Ouahbi — que substituiu Walid Regragui —, o projeto evoluiu para um futebol de posse e trocas posicionais, com nomes como Achraf Hakimi, Brahim Díaz e a jovem promessa Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, no centro do jogo. O clube marroquino chega com dois desfalques confirmados — Nayef Aguerd e Abde Ezzalzouli — mas com Mazraoui liberado pelo departamento médico.

O paralelo histórico é inevitável: em 1982, a Argélia derrotou a Alemanha Ocidental na fase de grupos. Em 2002, o Senegal bateu a França campeã. O futebol africano tem produzido choques com potências europeias há décadas, e Marrocos em 2026 não é mais azarão — é o sétimo colocado no ranking Fifa, imediatamente atrás do Brasil. Tratar esta partida como jogo fácil seria repetir o erro que a Espanha cometeu em Doha.

"Diga a eles, Ancelotti, que eles precisam jogar para o povo brasileiro. Joguem com um pouco de alma", pediu o presidente Lula em vídeo publicado neste sábado antes da partida.

O tabu histórico que Ancelotti pode quebrar

Nas 22 edições anteriores da Copa do Mundo, o técnico campeão sempre teve a mesma nacionalidade da seleção vencedora — sem exceção. Scaloni manteve a tradição em 2022 com a Argentina. Se Ancelotti erguer a taça, será o primeiro treinador estrangeiro a conquistar o Mundial, quebrando uma marca que atravessa quase um século de futebol. O próprio Lula reconheceu o peso histórico do momento:

"Time você tem. A Copa do Mundo a gente não disputa, a gente ganha. A gente não vai para disputar, a gente tem que ir para ganhar", declarou o presidente.

O Brasil não conquista uma Copa desde 2002, quando Luiz Felipe Scolari comandou Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo na Coreia do Sul e no Japão. São 24 anos de jejum — o maior da história pentacampeã. Nenhum dos jogadores que entram em campo hoje nasceu antes daquele título. Vini Jr tinha dois anos quando Ronaldo balançou as redes duas vezes na final contra a Alemanha.

A partida começa às 19h (horário de Brasília) e será transmitida pela Globo, SBT, SporTV, N Sports, GE TV e CazéTV. Após o duelo desta tarde, o Brasil enfrenta Haiti e Escócia para completar a fase de grupos do Grupo C — dois adversários teoricamente mais acessíveis, o que torna a estreia contra Marrocos ainda mais estratégica para o aproveitamento de pontos. Vale gravar o jogo e assistir com calma à análise dos primeiros 45 minutos, porque é neles que a formação inédita de Ancelotti vai revelar o rosto real desta seleção.