Se você chegasse à Rua Eduardo Jansen, no bairro da Saúde, sem saber o que te esperava, acharia que havia algum show, algum evento, algum famoso assinando autógrafo. Mas não. A fila — que nos fins de semana ultrapassa duas horas de espera — é por causa de 16 degraus de concreto pintados de verde, amarelo, azul e branco. Uma escadaria. Uma bandeira. Uma obra de arte que cresceu junto com o Brasil dentro da Copa do Mundo.
Márcia Regina, 62 anos, moradora do Morro da Conceição, faz isso desde 1998. A cada quatro anos, ela pega pincéis, reúne os vizinhos para rachar o custo das tintas, e reconstrói a bandeira brasileira nos degraus que sobem da Rua Sacadura Cabral em direção à vila. Para 2026, ela foi além: pintou 18 estrelas brancas no círculo azul — uma atualização do escudo que o Brasil carrega no peito nesta Copa. O detalhe virou gatilho. A foto viralizou. E o Centro do Rio ganhou um ponto turístico que nenhum guia havia planejado.
A escadaria de Márcia Regina que o Rio não sabia que precisava
O calor do Centro do Rio em junho não é gentil. Mas a fila não para. Cariocas, paulistanos, argentinos, norte-americanos — todos ali, celular na mão, esperando o momento exato de subir os degraus e posar sobre a bandeira. A escadaria virou o que os urbanistas chamam de lugar de afeto: um espaço que a comunidade transforma e a cidade adota. Só que neste caso, a adoção veio rápido demais. E os moradores precisaram reagir.
Regras foram estabelecidas pela própria comunidade para garantir que o fluxo de visitantes não sufoque a rua residencial. Horários, comportamento, respeito ao espaço — tudo combinado entre os moradores que vivem exatamente ali, atrás das câmeras e dos sorrisos dos turistas. A escadaria é arte, mas a rua é casa. Esse equilíbrio, delicado como uma pintura recém-seca, é o que mantém o lugar vivo.
"A gente quer fazer várias ruas aqui na comunidade até a Copa", disse Cristiane Silva de Oliveira, fundadora do projeto Prato Cheio, em Porto Alegre — uma frase que resume o mesmo espírito que move Márcia Regina há quase três décadas.
Em Porto Alegre, a tinta chegou junto com a solidariedade
A quase 1.400 quilômetros do Rio, na Vila Graciliano, bairro Glória de Porto Alegre, outra escadaria ganhou as cores do Brasil — mas o contexto é diferente. Aqui, a pintura não nasceu do hábito de uma artista solitária. Nasceu de uma mobilização coletiva articulada pelo projeto social Prato Cheio, da Cozinha Solidária, que há anos atua na comunidade com alimentação e inclusão.
Crianças, jovens e voluntários se organizaram para transformar a Vila Graciliano numa pequena festa visual: camisas de futebol, a taça da Copa e a bandeira do Brasil tomaram as paredes e os degraus da escadaria local. O projeto, que depende de doações de tintas e pincéis para continuar, quer levar as cores para outros pontos da comunidade antes do apito final da Copa. É o futebol servindo de ponte — pulmão da comunidade num momento em que o país inteiro respira verde e amarelo.
O fenômeno que nenhum ministério do turismo planejou
O que aconteceu na Rua Eduardo Jansen e na Vila Graciliano conta algo que os grandes planos de legado olímpico e mundialista raramente conseguem capturar: o turismo mais genuíno nasce de gestos pequenos. Uma mulher de 62 anos comprando tinta com os vizinhos. Uma cozinha solidária distribuindo pincéis para crianças. Nenhum orçamento milionário, nenhuma licitação, nenhuma campanha de marketing.
No Rio, a escadaria da Rua Eduardo Jansen já aparece em guias de viagem improvisados no TikTok e no Instagram, publicados por turistas estrangeiros que chegaram ao Brasil sem saber que aquele degrau existia. A fila de duas horas virou ela mesma parte do espetáculo — um termômetro do quanto o Brasil sabe transformar esquina em símbolo. E Márcia Regina, que começou tudo isso quando Ronaldo Fenômeno ainda tinha 21 anos e a Copa era na França, segue ali, pincéis na mão, atualizando a obra a cada ciclo.
A Copa do Mundo segue em campo — com jogos espalhados pelos EUA, Canadá e México — e a escadaria da Rua Eduardo Jansen já está na agenda de quem passa pelo Rio neste junho, ao lado do Cristo e da Lapa. Márcia Regina, que pintou os primeiros degraus em 1998, já avisou que a arte é atualizada a cada quatro anos. O próximo retoque está marcado para 2030.








