Todo mundo sabe que Neymar divide o Brasil. O que poucos perceberam é que a fissura já chegou ao estúdio da Globo, ao gabinete da CBF e ao seu próprio feed de notícias — ao mesmo tempo. O episódio desta semana entre Alex Escobar e Edu Gaspar não foi uma simples troca de opiniões. Foi o sintoma de algo que o futebol brasileiro carrega desde, pelo menos, a eliminação na Copa de 2018 na Rússia.
A fala de Edu Gaspar e o que ela revelou
Em entrevista coletiva após a eliminação do Brasil, o coordenador da CBF defendeu o atacante com uma intensidade que surpreendeu pela pessoalidade. Edu argumentou que Neymar havia sido o atleta que menos exigiu tratamento especial durante a preparação — apesar de ter ficado três meses parado e treinado apenas três semanas antes da Copa, com apenas dois amistosos no currículo.
"Não é fácil ser Neymar. É difícil ser Neymar. Ele é um atleta que merece todo meu elogio por passar o que passou, todo o tempo que ficou parado, o tempo que teve para jogar a Copa em condições", declarou Edu Gaspar.
O coordenador chegou ao ponto de usar a palavra "pena" para descrever o que sentia pelo camisa 10 diante das críticas. Afirmou que Neymar era elogiado e criticado ao dar um sorriso, ao chorar, ao conceder ou negar entrevistas — uma pressão que, segundo ele, qualquer atleta teria dificuldade em suportar.
Escobar discorda e puxa o freio de mão
A resposta de Escobar veio pelas redes sociais, com a precisão de um lateral que corta o contra-ataque na raiz. O apresentador do Globo Esporte não negou os méritos do jogador, mas recusou a narrativa da vitimização.
"Discordo respeitosamente. É um homem. Bem sucedido e remunerado. Um profissional de altíssimo nível que gera altas expectativas. Normal! O que não é normal nem legal é nos preocuparmos com o lado pessoal dele. Mas Edu, há peles bem mais difíceis de se estar", escreveu Escobar.
A frase final — "há peles bem mais difíceis de se estar" — carregou o peso de toda uma geração de brasileiros que acompanhou o futebol do país enquanto convivia com realidades muito mais ásperas do que as de um atleta multimilionário. Para quem lembra de Romário jogando com febre em 1994, de Ronaldo superando convulsões para disputar uma final em 1998, a moldura da "dificuldade" muda radicalmente.
O debate sobre a convocação e o ponto de saturação
Horas depois da troca com Edu Gaspar, Escobar voltou ao X para tratar do debate sobre a convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026. O comunicador demonstrou esgotamento com a polarização crescente — e concordou com um internauta identificado como Hugo Gentil, que sugeriu, em tom de brincadeira, que "falta sexo" para quem insiste no assunto.
"Gente boa, se alguém acha que o Neymar tem mesmo que ir pra Copa, tudo bem. Se alguém acha que não, tudo bem também. Que loucura isso! Que preguiça… Não precisa demitir ninguém, cancelar ninguém. Viva leve, gente boa!", escreveu Escobar antes de concordar, sutilmente, com a provocação do seguidor: "É possível".
Quando o usuário Elias levantou que as críticas ao jogador teriam base em seu posicionamento político — alinhado à direita —, Escobar foi direto: "Futebol, cara. Se jogar bem vai, se jogar mal fica." A frase resume, em oito palavras, o critério que muitos jornalistas da velha guarda defendem há décadas para qualquer convocação.
O que a briga diz sobre o Brasil e sobre Neymar
Há um paralelo histórico que ilumina este momento. Em 1998, depois da final perdida para a França por 3 a 0 no Stade de France, o Brasil também se dividiu: havia os que defendiam Ronaldo — que havia sofrido convulsões horas antes da partida — e os que exigiam explicações da CBF. A tensão entre compaixão e cobrança profissional não é nova. Ela é estrutural no futebol brasileiro.
O que mudou em 2026 é a velocidade e o volume do debate. O jornalista Thales Machado, cujo artigo foi compartilhado por Escobar, escreveu que "a convocação do atacante expôs um país e uma imprensa esportiva cada vez menos interessada em conviver com divergências". Escobar endossou: "Por favor, pelo menos no assunto futebol vamos nos permitir discordar."
A questão objetiva permanece na mesa: Neymar, que completará 34 anos durante a Copa do Mundo de 2026, terá condições físicas e de ritmo para contribuir? A resposta depende de dados que ainda estão sendo produzidos — exames, treinos, partidas pelo Santos. O que a semana deixou claro é que, enquanto o campo não responder, o microfone continuará em guerra.








