O silêncio no estádio Lusail durou exatos três segundos. Depois explodiu em gritos que ecoaram por todo o Qatar. Saleh Al-Shehri acabara de empatar contra a Argentina de Messi, em 22 de novembro de 2022. Dois minutos depois, Salem Al-Dawsari completaria um dos maiores choques da história das Copas do Mundo.
Agora, quatro anos depois, a Arábia Saudita se prepara para a Copa de 2026 carregando uma etiqueta que não tinha antes: a de seleção perigosa. O elemento surpresa, fundamental para derrubar a futura campeã mundial, não existe mais. Técnicos adversários já estudam cada movimento dos Falcões Verdes.
O peso da expectativa substitui a liberdade da surpresa
Roberto Mancini, atual técnico da seleção saudita, sabe que enfrentará um cenário completamente diferente. Contratado em agosto de 2023 por um salário de 25 milhões de euros anuais, o italiano herda uma equipe que precisa se reinventar taticamente.
"Não podemos mais contar com o fator surpresa. Agora todos nos conhecem e se preparam especificamente para nos enfrentar", admitiu Mancini em entrevista recente à imprensa local.
A diferença já se mostrou evidente nas Eliminatórias Asiáticas. A Arábia Saudita garantiu a classificação para 2026, mas com performances irregulares. Venceu apenas seis dos 18 jogos disputados, terminando em terceiro lugar no Grupo C, atrás de Japão e Austrália.
Durante a campanha no Qatar, Hervé Renard comandava uma equipe que jogava sem pressão externa. Os apostadores davam odds de 500 para 1 para a vitória saudita contra a Argentina. Essa liberdade psicológica permitiu que jogadores como Al-Dawsari e Feras Al-Brikan expressassem seu melhor futebol.
Mudanças táticas para enfrentar adversários preparados
Mancini implementou mudanças significativas no esquema tático herdado de Renard. Abandonou o 4-2-3-1 tradicional em favor de um 3-5-2 mais defensivo, priorizando a solidez no meio-campo. Mohammed Kanno e Sami Al-Najei agora atuam como volantes em um sistema duplo de proteção.
A renovação do elenco também acelera. Dos 26 convocados para o Qatar, apenas 14 permanecem como titulares regulares. Jovens como Abdullah Radif, de 21 anos, e Musab Al-Juwayr, de 23, ganharam espaço na equipe principal. Ambos atuam no Al-Hilal, clube que investe pesadamente na formação de base.
As amistosas de preparação revelam a nova filosofia. Em setembro de 2024, a Arábia Saudita enfrentou Austrália e Indonésia com um estilo mais cauteloso. Sofreu apenas um gol em 180 minutos, mas também marcou apenas dois. O contraste com o futebol ofensivo de 2022 é evidente.
Investimentos milionários em infraestrutura e análise técnica
A Federação Saudita de Futebol investiu 150 milhões de dólares em um novo centro de treinamento em Riad, inaugurado em janeiro de 2024. O complexo inclui cinco campos oficiais, academia de alto rendimento e centro de análise de dados com inteligência artificial.
Mohammed Al-Khuraiji, presidente da federação, contratou uma equipe de 15 analistas especializados em scout adversário. O departamento produz relatórios detalhados sobre cada seleção que a Arábia Saudita enfrentará nas próximas competições.
"Precisamos ser mais inteligentes taticamente. Em 2022, surpreendemos pela velocidade e intensidade. Agora precisamos surpreender pela estratégia", explica Al-Khuraiji.
O projeto de longo prazo inclui parcerias com clubes europeus para desenvolvimento de jovens talentos. Accord com Leicester City, Brighton e Real Sociedad já enviaram 12 jogadores sauditas para períodos de treinamento na Europa entre 2023 e 2024.
Realidade de uma seleção em transição
A pressão interna cresceu exponencialmente após 2022. Torcedores sauditas agora esperam performances consistentes em cada jogo oficial. Redes sociais locais criticaram duramente a eliminação precoce na Copa Asiática de 2024, quando a equipe caiu nas oitavas de final para a Coreia do Sul por 4 a 2.
Salem Al-Dawsari, herói contra a Argentina, admite que o cenário mudou completamente. Aos 33 anos, o atacante do Al-Hilal sabe que carrega expectativas enormes sobre os ombros.
Estudos da FIFA mostram que seleções que causam grandes surpresas em uma Copa enfrentam média de 40% mais faltas nos jogos seguintes. Adversários passam a marcar mais rigorosamente jogadores-chave identificados em análises posteriores.
A Copa de 2026 representará o verdadeiro teste para a evolução do futebol saudita. Mancini terá até junho para encontrar o equilíbrio entre manter a identidade ofensiva que chocou o mundo e desenvolver maturidade tática necessária para competir sem surpresas. A primeira fase da competição acontece entre 11 de junho e 14 de julho, com a Arábia Saudita ainda aguardando o sorteio dos grupos.

