O vento frio de Zenica corta a pele dos torcedores que chegam ao estádio Bilino Polje. A tensão paira no ar como névoa densa. Na Bósnia e Herzegovina, a Itália enfrenta seu maior pesadelo: a possibilidade de ficar fora de uma segunda Copa do Mundo consecutiva.
Quatro anos se passaram desde que a Azzurra assistiu ao Mundial do Catar pela televisão. O fantasma de 2022 assombra cada treino, cada convocação, cada olhar dos jogadores no vestiário. Hoje, contra uma Bósnia que luta pela primeira classificação de sua história, não há margem para erro.
O peso da história sobre os ombros italianos
A última vez que a Itália ficou fora de duas Copas seguidas foi entre 1954 e 1962. Gerações inteiras cresceram sem ver a camisa azul em um Mundial. Federico Chiesa, com 27 anos e 47 jogos pela seleção, carrega nas costas não apenas o número 7, mas o peso de toda uma nação.
Roberto Mancini moldou esta geração após o desastre de 2017, quando a Suécia eliminou os azzurri na repescagem. A conquista da Eurocopa 2021 parecia ter exorcizado os demônios. Mas as eliminatórias para 2026 trouxeram de volta os velhos fantasmas.
Atualmente em segundo lugar no Grupo J das eliminatórias europeias, com 14 pontos em 7 jogos, a Itália precisa terminar na liderança para garantir vaga direta. A diferença para a primeira posição é de apenas dois pontos, mas a Bósnia tem um jogo a menos e pode assumir o controle do grupo com uma vitória em casa.
Bósnia e Herzegovina: a geração dourada em busca do sonho
Do outro lado, Edin Džeko sente o gramado sob seus pés como se fosse a última chance. Aos 38 anos, o atacante do Fenerbahçe sabe que esta pode ser sua derradeira oportunidade de levar a Bósnia ao primeiro Mundial da história.
A seleção bósnia nunca disputou uma Copa do Mundo. Criada apenas em 1995, após a independência do país, a equipe cresceu sob o comando de técnicos como Safet Sušić e agora Sergej Barbarez. Com 12 pontos em 6 partidas, mantém 100% de aproveitamento em casa nas eliminatórias.
O meio-campo comandado por Miralem Pjanić, ex-Juventus com 107 jogos pela seleção, ditará o ritmo da partida. Aos 34 anos, o jogador do Sharjah FC voltou a ser convocado especificamente para este momento decisivo. Sua experiência em grandes jogos pode ser o diferencial em uma noite em que cada passe importa.
Táticas e jogadores-chave no confronto direto
Mancini deve apostar na formação 4-3-3 que trouxe estabilidade nas últimas partidas. Gianluigi Donnarumma, com 67 jogos e titular absoluto no PSG, protege a meta italiana. O goleiro de 25 anos acumula 8 jogos sem sofrer gols nas eliminatórias, estatística que demonstra a solidez defensiva construída pela equipe.
No ataque, a dupla Chiesa-Scamacca promete criar dores de cabeça para a defesa bósnia. Gianluca Scamacca, artilheiro da Atalanta na última temporada com 19 gols em 41 jogos, representa a nova geração de centroavantes italianos. Sua força física e finalização podem decidir uma partida que promete poucos gols.
A Bósnia aposta na experiência de Džeko, que mesmo aos 38 anos mantém média de um gol a cada dois jogos pela seleção. Com 65 gols em 130 partidas pelo país, o veterano atacante é a principal referência ofensiva bósnia. Ao seu lado, Ermedin Demirović, do Augsburg, tenta confirmar o bom momento na Bundesliga, onde marcou 8 gols em 15 jogos nesta temporada.
As consequências de uma possível eliminação italiana
Uma derrota hoje significaria mais que três pontos perdidos. Representaria o fim de um ciclo e o início de uma crise institucional na Federação Italiana. A Azzurra teria que disputar a repescagem em março de 2025, enfrentando outras seleções eliminadas nas eliminatórias diretas.
O histórico italiano em repescagens não anima os torcedores. Em 2017, a derrota para a Suécia por 1 a 0 no agregado ainda ecoa nos corredores da FIGC. Jogadores como Marco Verratti, com 55 jogos pela seleção, podem estar vivendo seus últimos momentos vestindo a camisa nacional caso não consigam a classificação direta.
Para a Bósnia, uma vitória representaria a realização do sonho de uma geração inteira. Jogadores como Sead Kolašinac, lateral-esquerdo com 49 jogos pela seleção, nunca disputaram um grande torneio internacional. A oportunidade de fazer história em casa, diante de 13.000 torcedores em Zenica, pode ser o combustível extra necessário.
O apito inicial está marcado para as 16h45 (horário de Brasília). No estádio Bilino Polje, sob o frio dos Bálcãs, duas nações disputam muito mais que uma vaga na Copa do Mundo. Disputam o direito de sonhar com junho de 2026, quando o futebol mundial se reunirá nos Estados Unidos, Canadá e México.
Para a Itália, é a chance de redemção após quatro anos de ausência. Para a Bósnia, é a oportunidade histórica de escrever seu nome entre as 48 seleções que disputarão o primeiro Mundial ampliado da história.

