Diz-se que o Brasil é a única seleção a disputar todas as edições da Copa do Mundo — e isso é verdade. O que essa estatística não diz, e que poucos têm coragem de verbalizar, é que presença não é sinônimo de relevância. Desde 2006, o pentacampeão não chegou a uma semifinal sequer. Marrocos, nos últimos dois Mundiais, chegou a duas. O dado, sozinho, já encerra boa parte do debate.

O que Marrocos construiu enquanto o Brasil improvisava

A trajetória marroquina não é um acidente geográfico nem um golpe de sorte. Em 2022, no Catar, a seleção do treinador Walid Regragui eliminou Portugal — campeão europeu de 2016 e semifinalista em 2006 — por 1 a 0, com gol de Youssef En-Nesyri, e chegou às semifinais pela primeira vez na história, onde perdeu para a França de Mbappé por 2 a 0. Em 2026, no torneio disputado entre Estados Unidos, Canadá e México, os marroquinos avançaram novamente às quartas de final, desta vez caindo diante da mesma França. Duas Copas consecutivas entre os oito melhores. Dois ciclos de consistência.

O jornalista José Trajano, no programa Posse de Bola do Canal UOL, foi cirúrgico na avaliação:

"Marrocos está no ranking — não é só no ranking da FIFA, que é meio fajuto, meio esquisito — mas os resultados de Marrocos, das divisões de base, de comportamento na Copa do Mundo, nós estamos bem atrás de Marrocos. Aquele patamar que está a França lá em cima, talvez a Espanha, um pouco abaixo é a Inglaterra, ou a Argentina. Nós não estamos na mesma prateleira de Marrocos, nós estamos bem abaixo."

Juca Kfouri reforçou o argumento com dados objetivos, lembrando que Marrocos acumulou ainda o vice-campeonato da Copa Africana de Nações, consolidando uma regularidade que o Brasil simplesmente não exibe há duas décadas:

"Foi semifinalista da última Copa. Jogou nas quartas de final nessa, contra a poderosa França. Finalista da Copa Africana. Então quando a gente falava, até há algum tempo atrás, na Marrocos, Marrocos está muito melhor do que a gente, pessoal."

A estrutura marroquina tem base sólida nas categorias de formação, com jogadores nascidos ou criados na Europa — En-Nesyri (Sevilla), Hakim Ziyech (Chelsea, depois Ajax e PSG) e Achraf Hakimi (PSG) — que devolvem ao país africano um nível técnico de elite. Não é improvisação. É planejamento de médio prazo executado com disciplina.

Neymar (Santos)
Neymar (Santos)

O Brasil de Ancelotti e o peso de uma herança mal administrada

Carlo Ancelotti assumiu a Seleção Brasileira num momento de transição turbulenta, após o ciclo de Fernando Diniz e as eliminatórias mais irregulares da história recente do país. Em 2026, o Brasil terminou em primeiro lugar no Grupo D — que incluía justamente Marrocos, com empate por 1 a 1 na estreia — e superou o Japão nas oitavas de final antes de ser eliminado pela Noruega de Erling Haaland, atacante do Manchester City com 36 gols em 42 jogos pela seleção escandinava até aquele momento.

Para contextualizar o declínio histórico com precisão: em 2006, o Brasil chegou às quartas com Ronaldo (15 gols em Copas até então), Ronaldinho Gaúcho (Bola de Ouro 2005) e Adriano, e caiu para a França de Zidane por 1 a 0. Era, de fato, uma das grandes favoritas. Em 2010, Dunga montou o time mais pragmático da era recente — eliminado pela Holanda por 2 a 1 nas quartas. Em 2014, o trauma do 7 a 1 diante da Alemanha, em Belo Horizonte, sem Neymar e Thiago Silva, expôs as fraturas estruturais. Em 2018, Tite chegou bem nas Eliminatórias mas caiu para a Bélgica nas quartas, 2 a 1. Em 2022, a eliminação veio nos pênaltis para a Croácia nas quartas, após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar e prorrogação. Agora, em 2026, cai nas oitavas.

A progressão é inequívoca: quartas em 2006, quartas em 2010, quarto lugar em 2014, quartas em 2018, quartas em 2022, oitavas em 2026. A curva aponta para baixo. Seria injusto chamar de era de decadência — mas é uma era em escala doméstica, com cada Copa pior que a anterior em termos de fase alcançada.

Neymar (Santos)
Neymar (Santos)

A base que não sustenta o teto e o caminho que precisa ser pavimentado

O diagnóstico de Trajano sobre as categorias de base marroquinas não é retórica. O Brasil não chega a uma final de Mundial Sub-20 há 11 anos — o último título foi em 2011, em Bogotá, com equipe treinada por Ney Franco. Marrocos, no mesmo período, investiu na estrutura de suas ligas domésticas e na naturalização estratégica de jogadores da diáspora francesa e espanhola, criando um pipeline de talentos que hoje rivaliza com os melhores da Europa.

A questão da convocação de Neymar por Ancelotti, mesmo com o atacante do Al-Hilal longe do seu melhor nível físico desde as cirurgias no joelho em 2023, ilustra o problema de critério. A decisão foi amplamente criticada e o jogador não correspondeu às expectativas durante o torneio. Num cenário em que jovens como Endrick e Estêvão ainda buscam consistência no nível de seleção principal, apostar em um veterano de 34 anos fora de forma revelou uma ausência de planejamento geracional.

O analista Danilo Lavieri, no mesmo debate do Posse de Bola, trouxe uma observação técnica relevante sobre Marrocos que também serve de espelho para o Brasil:

"Eu vi diferente. Eu não acho que o Marrocos não quis ter a bola, eu acho que o Marrocos não conseguiu. Então eu acho que o plano de jogo de Marrocos era o mesmo do plano contra o Brasil, só que eles não conseguiram executar. Tem uma diferença entre querer e poder."

A frase sintetiza, inadvertidamente, o problema brasileiro de outra perspectiva: o Brasil, contra a Noruega, quis — criou chances, segundo análises publicadas em matéria do SportNavo durante o torneio — mas também não conseguiu executar. A diferença é que Marrocos tem um projeto que justifica o que não consegue ainda. O Brasil tem apenas a memória do que já foi.

A CBF enfrenta agora uma decisão que vai além da demissão ou manutenção de Ancelotti: trata-se de definir se o futebol brasileiro vai continuar administrando o declínio com nostalgia ou vai construir, de fato, um ciclo de base sólida para 2030. O próximo Mundial, a ser realizado em Portugal, Espanha e Marrocos — sim, Marrocos como sede —, já tem data marcada. O Brasil tem quatro anos para deixar de ser uma seleção de tradição e voltar a ser uma seleção de resultado. Quatro anos é tempo suficiente para construir uma catedral ou para deixar o canteiro de obras abandonado na esquina.