Quarta-feira, 4 de junho de 2025. O Brasil é eliminado na fase de grupos do Mundial Sub-20, realizado na Coreia do Sul, sem sequer chegar às oitavas de final. Para uma seleção que venceu o torneio cinco vezes — mais do que qualquer outro país na história — o resultado não é tropeço. É sintoma.
Onze anos sem final e um declínio que não é coincidência
Desde o vice-campeonato no Mundial Sub-20 de 2015, disputado na Nova Zelândia, a Seleção Brasileira não voltou a uma final da categoria. Nas duas edições seguintes, em 2017 e 2019, o Brasil sequer se classificou. Em 2023, caiu nas quartas de final. Em 2025, foi eliminado ainda na fase de grupos — o pior resultado da história verde-amarela no torneio. No Sub-17, o cenário é igualmente preocupante: três eliminações consecutivas antes das semifinais entre 2019 e 2023. Nos Jogos Olímpicos, a medalha de ouro de Tóquio em 2021 disfarçou fragilidades estruturais que a queda precoce em Paris 2024 escancarou.
Das oito seleções que chegaram às quartas de final do último Mundial Sub-20, cinco também avançaram para as quartas da Copa do Mundo principal de 2026. As outras três foram eliminadas nas oitavas, mas saíram elogiadas. O Brasil, fora da fase de grupos do Sub-20, foi eliminado igualmente nas oitavas da Copa principal — pela Noruega, com 33% de posse de bola. A correlação não é causal, mas o padrão estrutural é inequívoco.
O paradoxo das joias que nunca jogam juntas
Nenhum jogador que disputou as últimas duas edições do Mundial Sub-20 esteve no elenco convocado para a Copa do Mundo de 2026. Endrick, de 19 anos, e Rayan, também de 19, os mais jovens da lista de Carlo Ancelotti, nunca chegaram a atuar juntos pelas seleções Sub-17, Sub-20 ou Sub-23. Isso não é acidente de agenda — é consequência direta de um conflito estrutural entre o calendário dos clubes europeus e as janelas de liberação da CBF.
O que para o espanhol é um ciclo de formação contínuo — onde o jogador passa pelo Sub-16, Sub-19 e Sub-21 com o mesmo modelo de jogo e os mesmos companheiros —, para o brasileiro é uma passagem expressa pelo profissional europeu antes dos 18 anos, com retorno às seleções de base apenas quando o clube permite. A Espanha, que formou Pedri, Gavi e Yamal dentro do mesmo sistema federativo, é o contraponto mais cruel para entender o que o Brasil desperdiça.
"As joias que se consolidam cedo no futebol profissional não são liberadas para a Seleção. Como resultado, não há identidade, não há entrosamento, não há projeto." — síntese do diagnóstico circulante entre analistas da CBF, conforme registrado pelo SportNavo a partir de fontes do setor.
O custo real de exportar talentos sem contrapartida formativa
O Brasil exportou, em 2024, mais de 1.700 jogadores para o exterior — número levantado pela CIES Football Observatory — o maior contingente entre todos os países do mundo pelo quinto ano consecutivo. O problema não é a exportação em si: é que ela acontece cada vez mais cedo, antes que o jogador sequer complete um ciclo completo nas categorias de base da CBF. Em 2015, quando o Brasil chegou à final do Sub-20, a média de idade dos convocados era de 18,7 anos e 60% dos atletas atuavam em clubes brasileiros. Em 2025, esse percentual caiu para menos de 30%.
Países como França, Alemanha e Argentina investiram pesado em centros de treinamento federativos nas últimas duas décadas. A Federação Francesa de Futebol, por exemplo, desembolsou €250 milhões na ampliação do Clairefontaine entre 2010 e 2020. A Argentina reestruturou seu programa Sub-20 após a Copa de 2007 e colheu os frutos com a geração campeã do mundo em 2021 — no Sub-20 — e 2022 — na Copa principal. A CBF, no mesmo período, trocou de coordenador de base seis vezes.
O que precisa mudar antes da próxima janela
A CBF anunciou em março de 2026 a criação de um novo programa de seleções de base com ciclos quadrienais e liberação compulsória negociada com clubes europeus — uma iniciativa que, se implementada até o Mundial Sub-20 de 2027, pode começar a reverter a tendência. O desafio concreto é político: convencer Real Madrid, Chelsea e PSG a liberar jovens brasileiros para treinos da federação em janelas que não são obrigatórias pela FIFA.
"O Brasil precisa criar um ambiente competitivo interno para que o jogador queira estar na Seleção de base, não apenas na principal. Hoje, não há esse incentivo." — avaliação de um dirigente de clube formador do interior de São Paulo, em entrevista a veículos especializados no primeiro semestre de 2026.
O próximo teste real do novo modelo é o Campeonato Sul-Americano Sub-20, previsto para fevereiro de 2027, no Equador — a principal porta de entrada para o Mundial da categoria. Se a CBF não apresentar um grupo minimamente entrosado com mais de três meses de trabalho conjunto antes do torneio, o ciclo de 11 anos sem final se estenderá para 12.










