"O Brasil é o favorito, mas não é como se fosse 90 para 10." A frase saiu da boca de Stale Solbakken, técnico da Noruega, nesta sexta-feira (3), depois do treino em Nova Jersey — e ela carrega um peso que vai muito além da diplomacia protocolar de véspera de jogo. Solbakken sabe o que os números confirmam há décadas: a Noruega nunca perdeu para o Brasil. Em quatro confrontos, dois empates e duas vitórias escandinavas, sendo a mais recente um amistoso em 2006, vencido por 1 a 0. Domingo, no MetLife Stadium, o Brasil tem a chance mais concreta de sua história recente para encerrar esse registro — e também a mais difícil, dado o estado do elenco.
Quatro jogos, zero vitórias e um fantasma que o vestiário já conhece bem
O histórico entre Brasil e Noruega é curto em quantidade, mas extenso em simbolismo. O confronto mais marcante aconteceu na fase de grupos da Copa de 1998, na França, quando a Noruega venceu por 2 a 1 e eliminou o Brasil — que já estava classificado — de forma que ainda hoje causa desconforto em qualquer análise do ciclo daquele torneio. O último duelo entre as seleções foi há 20 anos, num amistoso sem grandes consequências, mas que manteve o retrospecto intacto. Solbakken não escondeu que esse dado existe no radar do seu grupo: "É possível repetir o que foi feito na Copa de 1998. É muito difícil, mas é possível", admitiu o treinador norueguês em entrevista coletiva.
Dentro do vestiário brasileiro, o tabu específico contra a Noruega se mistura a um problema mais amplo: o Brasil foi eliminado por seleções europeias nas últimas cinco edições consecutivas de Copa do Mundo. Bélgica em 2018, Croácia em 2022 — as memórias são recentes e doem. Matheus Cunha, artilheiro da Seleção no torneio com três gols, foi direto ao falar sobre o assunto:
"A gente não conversa sobre isso e sobre Copas passadas. Na verdade temos conversas sobre o momento exato da eliminação porque muitos companheiros passaram por isso. Mas é muito mais sobre não querer reviver aquele dia do que propriamente sobre o adversário. Mas sem dúvida nenhuma é algo que a gente tem que fazer para matar ou sumir com esse fantasma."
O lateral Douglas Santos acrescentou outra camada ao debate, ao comentar a frase que Solbakken soltou no vestiário após a classificação da Noruega sobre a Costa do Marfim — "Espere, Carlo Ancelotti, estamos indo atrás de você" — e que circulou amplamente nas redes sociais. Para o lateral, o comentário tem efeito conhecido:
"Esse tipo de comentário serve para motivação. Vocês viram a garra que estávamos. Mesmo depois do gol, seguimos firmes, focados, com o propósito que tínhamos de fazer."Solbakken, depois, amenizou na coletiva, classificando a frase como uma brincadeira e elogiando Ancelotti como "talvez o maior treinador da história do futebol europeu". O dano retórico, porém, já estava feito — e a Seleção aproveitou.
Haaland, Ødegaard e uma defesa brasileira que chega ao mata-mata com desfalques sérios
A Noruega que chega às oitavas não é a mesma seleção que o Brasil enfrentou em amistosos no início dos anos 2000. O time de Solbakken marcou dez gols em quatro partidas na fase de grupos, com vitórias sobre Iraque, Senegal e Costa do Marfim, e só perdeu para a França num jogo em que poupou titulares. Erling Haaland é o centro gravitacional do ataque: cinco gols no torneio, incluindo o gol decisivo aos 86 minutos contra a Costa do Marfim. Mas o perigo norueguês não se resume ao centroavante do Manchester City. Martin Ødegaard e Alexander Sorloth compõem um ataque que exige atenção coletiva, não apenas marcação individual.
Matheus Cunha, que enfrentou boa parte desse grupo nas temporadas da Premier League e da Bundesliga, reconheceu o peso do adversário sem minimizar o que o Brasil tem a oferecer: "O Haaland é um grande jogador, já demonstrou em todos os momentos que teve oportunidade. Desde o Borussia Dortmund o acompanho bastante. Já enfrentei muitas vezes, joguei também na Alemanha e na Inglaterra. O ataque é muito, muito forte." Douglas Santos, que terá a missão de conter o flanco norueguês pelo lado esquerdo, reforçou que a comissão técnica trabalhou especificamente para neutralizar as qualidades de Haaland dentro da área.
O problema é que o Brasil chega ao confronto com o elenco mais curto desde o início do torneio. Raphinha não tem condições de jogo: a lesão na coxa direita, sofrida em 19 de junho contra o Haiti, completa 14 dias de recuperação, e a comissão técnica de Carlo Ancelotti optou pela cautela — até porque o atacante desfalcou o Barcelona por 112 dias na temporada passada por causa de quatro lesões musculares diferentes. Lucas Paquetá também está fora. Casemiro é tratado como dúvida. A ausência do meio-campo titular obriga Ancelotti a remodelar o setor central, com Danilo Santos como opção mais provável para a vaga, ou uma formação mais ofensiva com Endrick.
O que o Brasil precisa resolver para que domingo não vire mais um capítulo do mesmo livro
A atuação contra o Japão nas oitavas acendeu alertas que não podem ser ignorados. O Brasil saiu atrás após erro na construção, teve dificuldades para criar no primeiro tempo e só reagiu depois do intervalo — Casemiro empatou de cabeça e Gabriel Martinelli marcou o gol da classificação aos 95 minutos do segundo tempo. A Noruega, diferente do Japão, tem poder ofensivo para punir qualquer hesitação defensiva com muito mais força. Haaland, especificamente, é o tipo de centroavante que converte situações de meia-chance em gol.

Vinícius Júnior é o antídoto mais evidente. O atacante do Real Madrid marcou nos três jogos da fase de grupos e chegou a quatro gols no torneio, tornando-se apenas o quinto brasileiro a balançar a rede em todas as partidas da fase de grupos de uma mesma Copa do Mundo. Solbakken não escondeu a preocupação: "É um problema para todos quando ele joga bem. Mas vamos tentar resolver isso, eu sei que não é fácil." A Noruega vai pressionar alto, vai fechar os espaços centrais e vai tentar explorar transições com Haaland. O Brasil precisa de velocidade, de criatividade pelo meio e de uma solidez defensiva que ainda não ficou provada neste torneio.
A partida acontece domingo (5), às 17h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. Se o Brasil vencer, encerra 28 anos de tabu contra a Noruega e avança às quartas de final pela primeira vez desde 2006. Se perder, será mais uma eliminação europeia numa série que já tem cinco capítulos consecutivos — e que começa a parecer menos coincidência e mais estrutura.
Naquela tarde de 1998, em Marseille, o placar marcava 2 a 1 para a Noruega quando o árbitro apitou o final. Vinte e oito anos depois, a Seleção entra em campo carregando esse número como uma pedra no bolso — e com Haaland do outro lado, esperando para adicionar mais um.










