Diz-se que o Brasil precisa de um volante criativo para ser campeão do mundo. Na verdade, não precisa — e o que Bruno Guimarães disse na coletiva desta segunda-feira, 8 de junho, deixou isso mais claro do que qualquer análise tática poderia fazer.

A Copa começa antes do apito inicial para Éderson

O calor úmido de Nova Jersey já estava pesado quando Éderson desembarcou nesta manhã no hotel The Ridge, menos de 24 horas depois de receber o telefonema da CBF. O volante de 26 anos, nascido em Campo Grande (MS), trocou Bérgamo pelos EUA em tempo recorde — convocado às pressas para ocupar a vaga deixada pelo corte de Wesley, lateral da Roma que saiu do grupo por lesão. As imagens publicadas pela CBF mostram o momento em que Matheus Cunha, seu futuro companheiro no Manchester United a partir do segundo semestre, abre os braços para recepcioná-lo no corredor do hotel. Carlo Ancelotti aparece logo atrás, observando a cena com aquela expressão que mistura distância e controle total.

Três partidas pela Seleção Brasileira. Esse é o currículo de Éderson com a camisa amarela até aqui — e, ainda assim, ele chega à Copa do Mundo como uma das peças mais discutidas do grupo. Embora tenha figurado na primeira lista de Ancelotti em junho de 2025, o volante nunca chegou a atuar sob o comando do italiano. Agora, o cenário mudou… e aí vem o problema de quem ainda subestima o que ele pode oferecer taticamente.

O caminho de Campo Grande até a Atalanta que Ancelotti viu com outros olhos

A trajetória de Éderson não foi linear. Estreou profissionalmente pelo Desportivo Brasil, passou por Cruzeiro, Corinthians e Fortaleza — foi no clube cearense que o futebol brasileiro começou a prestar atenção nele de verdade. Em 2022, a Salernitana o tirou do Nordeste e o levou para a Série A italiana. Poucos meses depois, a Atalanta o comprou e transformou o que era uma promessa em realidade europeia. Em Bérgamo, sob uma filosofia de pressão alta e intensidade física extrema, Éderson se consolidou como um volante completo: marcação intensa, boa condução e capacidade de chegar ao ataque sem abandonar o equilíbrio da equipe.

É justamente esse perfil que interessa a Ancelotti agora. O italiano não precisa de um construtor de jogo puro no meio — ele precisa de alguém que proteja a defesa, vença duelos e permita que os jogadores mais criativos operem com liberdade. Éderson, formado numa das equipes mais exigentes taticamente da Europa nos últimos anos, encaixa nessa descrição melhor do que parece à primeira vista.

Bruno Guimarães entrega o plano e não pede desculpas por isso

Na sala de imprensa, Bruno Guimarães não deu voltas. Questionado sobre a possibilidade de o Brasil jogar em linhas baixas e sair no contra-ataque em determinados jogos, o volante do Newcastle foi direto:

A Copa começa antes do apito inicial para Éderson Bruno Guimarães abre o jogo e
A Copa começa antes do apito inicial para Éderson Bruno Guimarães abre o jogo e
"Acho que aquela Champions, principalmente a segunda que ganhou com o Real Madrid, eles jogaram com linha baixa em contra-ataque muitas vezes. Sabemos que temos jogadores muito rápidos na frente. É algo que a gente já vem trabalhando, vem pensando também."

E foi além, sem qualquer sinal de desconforto com o tema:

"Fico a questão do mister decidir como a gente vai jogar, mas vejo isso com muito bons olhos, é muito interessante ter esse jeito de jogar e essa variação de às vezes esperar um pouco mais e sair no contra-ataque."

A referência ao Real Madrid campeão da Champions 2021-22 não foi aleatória. Naquele torneio, o time de Ancelotti eliminou Manchester City, Chelsea e Liverpool em remontadas históricas, muitas vezes absorvendo pressão por longos períodos antes de explodir nas transições. O Brasil de 2026 tem Vinicius Jr., Rodrygo e Raphinha — velocidade de sobra para transformar qualquer recuperação de bola em perigo imediato. Éderson, como volante marcador, seria o primeiro elo dessa corrente.

O que Éderson muda no meio-campo e o que a Copa vai exigir dele

O contexto tático justifica a aposta. Em jogos recentes, o Brasil apresentou dificuldades para controlar as transições defensivas quando avançava demais suas linhas. Com um volante de perfil mais marcador ao lado de Bruno Guimarães, Ancelotti consegue equilibrar o setor sem abrir mão da qualidade técnica — porque Éderson não é apenas um destruidor, ele sabe sair jogando e conectar o setor defensivo com os meias mais criativos.

A Copa chega num momento em que o Brasil ainda não tem um modelo de jogo consolidado. Entre a saída de Tite e a chegada de Ancelotti, a Seleção passou por diferentes treinadores e conceitos sem tempo para sedimentar nenhum deles. O italiano assumiu há pouco mais de um ano e teve que montar um grupo sob pressão constante. Nesse quadro, um volante que já jogou na Atalanta — sinônimo de disciplina coletiva — pode oferecer algo que dinheiro e fama não garantem: entendimento de papel tático. Conforme apurado em matéria do SportNavo, a expectativa dentro da delegação é de que Éderson dispute minutos já nos primeiros jogos da fase de grupos, dependendo do adversário e do plano de jogo escolhido por Ancelotti.

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 com Éderson no grupo, Bruno Guimarães defendendo o pragmatismo em voz alta e Ancelotti montando um quebra-cabeça que ainda não mostrou todas as peças. Diz-se que o Brasil precisa de um volante criativo para ser campeão do mundo. Na verdade, não precisa — e o que acontecer dentro de campo nas próximas semanas vai mostrar exatamente por quê.