Cinco gols. Trinta e seis jogos. Uma assistência por partida que nunca vira gol. Três competições oficiais sem marcar. Esses são os dados que definem Vinicius Jr. com a camisa da Seleção Brasileira — e que tornam impossível ignorar o abismo entre o que ele entrega no Real Madrid e o que produz de concreto pelo Brasil.

Um histórico que não mente

O primeiro gol de Vini Jr. pela seleção veio nas Eliminatórias para a Copa de 2022, numa goleada por 4 a 0 sobre o Chile. Depois disso, ele balançou a rede apenas mais quatro vezes: contra a Coreia do Sul no Mundial do Catar (4 a 1), num amistoso contra a Guiné em 2023 (4 a 1) e duas vezes contra o Paraguai em junho do ano passado, na Copa América, numa vitória por 4 a 1. Repare no padrão: todos os gols vieram em partidas em que o Brasil já dominava folgadamente. Nenhum em jogo decisivo, nenhum contra seleção do nível que ele vai enfrentar na Copa do Mundo.

O pênalti desperdiçado contra a Venezuela nas Eliminatórias — empate em 1 a 1 — condensou tudo isso numa única imagem. O atacante mais caro do futebol mundial, eleito melhor do planeta, bateu mal e perdeu. Não foi azar. Foi sintoma.

Um histórico que não mente 5 gols em 36 jogos revelam por que Vini
Um histórico que não mente 5 gols em 36 jogos revelam por que Vini

Para dimensionar: Neymar disputou apenas quatro partidas nestas Eliminatórias e já marcou dois gols. A diferença de rendimento entre os dois, nas mesmas Eliminatórias, é a distância entre Recife e Manaus — numericamente pequena no mapa, mas absurda quando você tenta percorrê-la a pé.

O que os precedentes históricos ensinam sobre esse dilema

Não é a primeira vez que o Brasil chega a uma Copa com seu jogador mais badalado carregando dúvidas sobre rendimento pela seleção. Em 1994, Romário havia sido irregular no PSG e chegou ao torneio sendo questionado por Parreira. Marcou cinco gols, foi campeão. Em 2002, Ronaldo Fenômeno voltava de duas cirurgias no joelho e era tratado com ceticismo pela imprensa europeia. Marcou oito gols e levou o Brasil ao hexa.

A diferença entre esses casos e o de Vini Jr. está no tipo de problema. Romário e Ronaldo tinham questões físicas ou de forma momentânea. O caso do atacante do Real Madrid é estrutural: ele já disputou 36 jogos pela seleção e o padrão de baixa produção se repete independentemente do técnico, do esquema ou do adversário.

Carlo Ancelotti deixou clara sua filosofia para a Copa. Em entrevista antes do amistoso contra a Croácia, em Orlando, o treinador foi direto:

"Eu estou convencido de que o Mundial ganha quem sofre menos gols, não quem marca mais. O time está pronto sim para ser pragmático."

A declaração tem dois lados. Por um lado, alivia a pressão sobre Vini Jr. ao redistribuir a responsabilidade ofensiva. Por outro, levanta uma pergunta incômoda: se o Brasil vai depender de solidez defensiva, o que justifica manter o atacante como peça central do ataque se ele não converte?

A raiz tática do problema com Vini Jr.

No Real Madrid, Vini Jr. opera com liberdade total na esquerda, com Bellingham e Modric alimentando transições rápidas e Mbappé abrindo espaço no centro. Ele recebe em velocidade, com campo aberto à frente e adversários já desorganizados. A estrutura do clube foi construída, em partes, para potencializar exatamente o que ele faz melhor.

Na seleção, o contexto é outro. As seleções adversárias bloqueam os corredores laterais, fecham o espaço de condução e forçam Vini a tomar decisões rápidas em espaços reduzidos — o que não é o seu ponto forte. Sem um pivô fixo no centro e sem o automatismo que só vem de meses de treino conjunto, ele recua para buscar a bola, toca demais e raramente chega à área com vantagem real.

O ex-atacante Müller, tetra em 1994, foi preciso no diagnóstico antes do último amistoso, uma vitória por 2 a 1 sobre o Egito:

"A Seleção Brasileira não tem um time, uma cara, uma identidade, e por isso vai passar dificuldade na Copa do Mundo."

A crítica não é sobre Vini Jr. especificamente, mas atinge diretamente a questão: quando não há identidade coletiva, os jogadores que dependem de entrosamento para produzir — como ele — são os mais prejudicados.

O que Ancelotti pode fazer a partir da estreia contra o Marrocos

Bruno Guimarães, em matéria do SportNavo, rejeitou o pessimismo com dados concretos: dois amistosos, duas vitórias, incluindo o 2 a 1 sobre o Egito com gols de Bruno e Endrick. O volante do Newcastle foi categórico:

"Temos grandes jogadores brilhando nos melhores times do mundo, como Vini, Raphinha. Todas as pessoas com quem falo na Inglaterra respeitam demais o Brasil."

O argumento é válido, mas não resolve o problema específico de Vini Jr. A solução mais viável para Ancelotti — que conhece o atacante melhor do que qualquer técnico de seleção — é deslocá-lo para posições mais centrais nas fases de transição, reduzindo sua dependência de condução lateral e aumentando seus contatos com a área. Nos últimos jogos do Real Madrid na temporada 2025/2026, o treinador já testou variações nesse sentido com resultado positivo.

O Brasil estreia na Copa do Mundo no próximo sábado, dia 13, contra o Marrocos — semifinalista do torneio anterior e uma das seleções mais organizadas defensivamente do mundo. Será exatamente o tipo de jogo em que Vini Jr. historicamente some. Se ele aparecer dessa vez, o debate muda de patamar. Se não aparecer, Ancelotti vai precisar responder com algo além de declarações sobre solidez defensiva.