Um pedaço de tecido azul, desgastado pelo tempo, vale mais do que 99% dos elencos do futebol mundial nesta temporada. A camisa que Pelé usou na final da Copa do Mundo de 1958, aos 17 anos, está em leilão na Sotheby's, em Nova York, com estimativa de US$ 6 milhões — aproximadamente R$ 30,3 milhões. O paradoxo é esse: o item mais valioso do futebol brasileiro não está em campo, não marca gols, não faz dribles. Fica parado atrás de um vidro, e ainda assim ninguém no mercado de memorabilia consegue ignorá-lo.
De Maceió para Manhattan — uma jornada de 68 anos
A história desta camisa começa no vestiário do Estádio Rasunda, em Solna, na Suécia, em 29 de junho de 1958. Após a vitória do Brasil por 5 a 2 sobre os donos da casa — com dois gols do jovem centroavante de 17 anos —, Pelé tirou a camisa número dez do peito e a entregou ao companheiro Dida. Era um gesto comum entre atletas. O que ninguém calculava era o peso daquele tecido ao longo das décadas.
A peça ficou guardada com a família de Dida, em Maceió, por décadas. Em 1993, o irmão do ex-jogador, Edson Santa Rosa, doou a camisa ao recém-inaugurado Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa, dentro do Estádio Rei Pelé. Por dez anos, foi a atração central do acervo — a joia que os turistas fotografavam, os escolares tocavam com os olhos.
Em 2004, com o museu em crise financeira, o então diretor Lauthenay Perdigão tomou uma decisão dolorosa. Ele buscou Edson Santa Rosa e propôs o leilão como solução.
"Quando eu tive a ideia de colocar a camisa em leilão, eu fui direto no Edson e expliquei a situação do museu para ele e que a solução seria leiloar a camisa. Falei: 'Já que a camisa estava com você e foi por você que ela chegou até mim, eu te dou 50% da venda'", contou Perdigão, falecido em 2021, em entrevista concedida em 2019.
A peça foi arrematada em setembro de 2004, num leilão da Christie's, por 59 mil libras esterlinas — equivalente a US$ 105 mil na época, cerca de R$ 530 mil. O comprador, um colecionador particular que nunca revelou a identidade, manteve a camisa por mais de duas décadas. Agora, ele a coloca novamente no mercado. Desta vez, a estimativa é 57 vezes maior do que o valor pago em 2004.
O que a Sotheby's vende quando vende essa camisa
O leilão integra a coleção batizada de "The Beautiful Game" (O Belo Jogo), com lances abertos de 29 de junho a 16 de julho — data que coincide, não por acaso, com o período da Copa do Mundo de 2026. A partir de 1º de julho, a peça ficou em exibição pública na sede da Sotheby's, na ilha de Manhattan. Nova York, com seu calor úmido de verão e o fluxo de colecionadores do mundo inteiro circulando pela cidade durante o torneio, foi o cenário escolhido a dedo.
Brahm Wachter, chefe de colecionáveis modernos da Sotheby's, foi direto ao ponto ao descrever o item: "não é apenas uma camisa", e sua importância histórica no mercado de memorabilia do futebol é, segundo ele, "sem paralelo". A afirmação tem respaldo nos números. O recorde atual de camisa de futebol mais valiosa pertence à camisa da "Mão de Deus", de Diego Maradona, usada na final da Copa de 1986 contra a Inglaterra — arrematada por US$ 9,28 milhões em 2022, também pela Sotheby's.
Para contextualizar a escala desse mercado: os US$ 6 milhões estimados para a camisa de Pelé superam o valor total arrecadado num leilão realizado em 2016 com mais de 2.000 itens do próprio Pelé — medalhas, troféus, a coroa do milésimo gol —, que somou US$ 4,2 milhões. Ou seja, uma única camisa vale mais do que dois mil objetos do mesmo dono.
O registro que nenhum outro jogador conseguiu apagar
Pelé tinha exatamente 17 anos, 249 dias quando entrou em campo na final de Estocolmo. Marcou dois gols — o primeiro de cabeça, o segundo com um toque de calcanhar seguido de voleio — e garantiu o título de mais jovem jogador a marcar numa final de Copa do Mundo. O recorde permanece intacto até hoje, 68 anos depois.
Para dimensionar o que esse feito representa em termos de longevidade: o recorde de Pelé resistiu a 17 edições da Copa do Mundo, a gerações inteiras de atacantes como Ronaldo, Zidane, Messi e Mbappé, e permanece sem ameaça concreta no horizonte. Uma marca que atravessa mais tempo do que a maioria dos países africanos e asiáticos que hoje disputam Copas levam de independência. É esse peso histórico que Wachter chama de "sem paralelo" — e que o mercado traduz em oito dígitos em dólares.
O mesmo leilão da Sotheby's traz outros itens de alto valor: a braçadeira de capitão de Maradona da final de 1986 e um lote de sete camisas de Lionel Messi, entre elas a usada na histórica virada do Barcelona sobre o PSG por 6 a 1 nas oitavas da Champions League de 2017, estimada em cerca de US$ 400 mil. A comparação é reveladora: sete camisas de Messi, incluindo uma peça de uma das maiores partidas da história recente, valem menos de 7% do que a Sotheby's espera arrecadar com a camisa de Pelé.
Quanto vale a memória quando o dono dela não existe mais
Pelé morreu em 29 de dezembro de 2022. Desde então, o mercado de memorabilia ligado a ele registrou uma aceleração previsível — e documentada. Em fevereiro de 2022, ainda com o craque vivo, um cartão colecionável do brasileiro foi vendido por US$ 1,33 milhão, tornando-se o primeiro cartão de futebol a superar sete dígitos em dólares, segundo o banco de dados Card Ladder. Pouco depois, um cartão de estreia de Messi saiu por US$ 1,5 milhão e um de Cristiano Ronaldo por US$ 1,35 milhão — sinal de que o mercado de memorabilia do futebol como um todo se consolidou num patamar novo.
A camisa de 1958, porém, opera numa categoria diferente. Não é colecionável de massa com tiragem limitada. É um objeto único, com proveniência rastreável — do vestiário em Solna ao museu em Maceió, do leilão da Christie's em 2004 à vitrine da Sotheby's em Manhattan —, carregando uma narrativa que nenhuma outra peça do futebol brasileiro pode replicar. A disputa entre os lances, que se encerra nesta quinta-feira, 16 de julho, vai determinar se a camisa azul de um adolescente brasileiro supera o recorde da luva e da camisa de Maradona como o objeto mais caro da história do esporte bretão.
Se o martelo da Sotheby's bater acima de US$ 9,28 milhões, a camisa não apenas baterá o recorde — ela o redefinirá. A disputa está aberta, conforme apurado em matéria do SportNavo, e os lances finais serão registrados ainda hoje.










