O complexo de treinamento inaugurado pelo Uzbequistão em 2025 tem quatro centros integrados: base da seleção, laboratório de pesquisa, academia de formação e estrutura dedicada à medicina esportiva. Esse conjunto de instalações é o símbolo físico de uma decisão tomada em novembro de 2023, quando o governo uzbeque decretou um plano nacional de expansão do futebol. No centro desse projeto, desde outubro de 2025, está Fabio Cannavaro — campeão do mundo em 2006, Bola de Ouro no mesmo ano e, agora, o quarto técnico mais bem pago da Copa do Mundo 2026.
O salário que posiciona o Uzbequistão entre as potências em gestão esportiva
Cannavaro recebe 4 milhões de euros por ano — aproximadamente R$ 23,5 milhões — para comandar uma seleção que nunca havia disputado uma Copa do Mundo na era moderna. O valor o coloca atrás apenas de Carlo Ancelotti (Brasil, 9,5 milhões de euros), Thomas Tuchel (Inglaterra, 5,9 milhões de euros) e Julian Nagelsmann (Alemanha, 4,9 milhões de euros). Para efeito de comparação, Roberto Martínez, técnico de Portugal — adversário direto do Uzbequistão nesta fase de grupos —, recebe o mesmo valor que Cannavaro: 4 milhões de euros anuais. Didier Deschamps, à frente da França, ganha 3,8 milhões de euros, e Lionel Scaloni, treinador da Argentina bicampeã mundial, recebe 2,3 milhões de euros por temporada.
A lógica do investimento é direta: o Uzbequistão não tem tradição consolidada no futebol de elite, mas tem recursos e uma estratégia de longo prazo. Contratar um nome de peso como Cannavaro — ex-capitão da Itália, defensor que integrou o melhor elenco da Copa de 2006 e único jogador de linha a ganhar a Bola de Ouro neste século — gera credibilidade institucional imediata, tanto para o recrutamento de jogadores quanto para o posicionamento do país no mapa do futebol mundial.
O próprio técnico reconhece a magnitude do desafio. Em declaração antes do confronto contra Portugal, Cannavaro foi direto ao ponto:
"Quando você vê os nomes, sente medo."
A frase, registrada em matéria do SportNavo, resume a postura pragmática de quem não subestima o adversário, mas também não abdica da competição.
Portugal sob pressão e Cannavaro como coadjuvante decisivo
Do outro lado do campo, a situação de Portugal é delicada. Na estreia do Grupo K, a seleção de Martínez emppatou ou venceu com dificuldade contra a República Democrática do Congo — dependendo do resultado final —, e Cristiano Ronaldo acumulou 0 xG no jogo, sem nenhuma finalização de qualidade dentro da área adversária. A contestação ao capitão chegou a níveis inéditos: parte da imprensa portuguesa e a maioria dos torcedores pediu sua saída do time titular para o confronto contra o Uzbequistão. O companheiro João Neves chegou a fazer declarações que, na leitura dos veículos locais, reduziram o status de Ronaldo dentro do grupo.
Martínez, no entanto, manteve Ronaldo entre os titulares. A decisão coloca o astro de 41 anos diante de uma pressão raramente vista em sua carreira: provar que ainda é determinante em um jogo de Copa do Mundo contra uma seleção que, no papel, é inferior — mas que chega estruturada, com treinador experiente e motivação histórica.
O contexto emocional de Portugal também pesa. Antes da estreia contra a RD Congo, jogadores como Bruno Fernandes entraram em campo com pulseiras brancas em homenagem a Diogo Jota, atacante que morreu em julho de 2025, aos 28 anos, em um acidente de carro na Espanha. As pulseiras foram distribuídas pelo primeiro-ministro Luís Montenegro antes da viagem da delegação aos Estados Unidos e trazem o nome de cada atleta com uma referência ao ex-jogador do Liverpool. Fernandes foi um dos que falou sobre a homenagem:
"Ele foi um ótimo companheiro de equipe, muito humilde e uma grande pessoa para o país. Ele ainda faz parte do grupo."
Jota havia marcado 14 gols e distribuído 12 assistências em 49 partidas pela seleção portuguesa. Seria convocado para esta Copa. A ausência é sentida dentro e fora de campo.
O que o investimento uzbeque revela sobre o futebol do século 21
A trajetória do Uzbequistão até esta Copa do Mundo é um caso de estudo em política esportiva. O decreto governamental de novembro de 2023 foi seguido por ações concretas: construção de infraestrutura, formação de treinadores locais e desenvolvimento de jovens talentos. Menos de dois anos depois, o país estreou no Mundial de 2026 — e o fez com um técnico cujo salário supera o de Deschamps e Scaloni, nomes que comandam seleções com décadas de tradição em Copas.
A derrota por 3 a 1 para a Colômbia na primeira rodada não apagou o feito histórico de estar no torneio. Mas também deixou claro que o investimento em nomes e infraestrutura precisa ser acompanhado por tempo — o recurso mais escasso no futebol de seleções. Cannavaro assumiu o cargo em outubro de 2025, menos de um ano antes da Copa. O trabalho tático e identitário de uma seleção não se consolida em meses.
O confronto contra Portugal, portanto, tem camadas. Para o Uzbequistão, é a chance de mostrar que o investimento produz resultado competitivo, não apenas presença simbólica. Para Portugal, é a obrigação de vencer com autoridade — e de responder às dúvidas sobre Ronaldo com desempenho, não com discurso. Uma vitória uzbeque ou um empate seria, nos termos do futebol moderno, o retorno mais concreto que 4 milhões de euros anuais já produziram para um país em construção esportiva.
Portugal e Uzbequistão se enfrentam em Houston, pela segunda rodada do Grupo K da Copa do Mundo 2026. Uma derrota portuguesa praticamente encerra qualquer ambição de liderança de grupo; um tropeço uzbeque torna a eliminação precoce quase inevitável.








