A última vez que uma mudança tão pequena no protocolo de pênaltis gerou tanto debate tático foi em 2016, quando a UEFA testou o formato ABBA — aquele em que as equipes alternam a vantagem de bater por último. O experimento durou pouco, mas provou uma coisa: a ordem das cobranças importa, e muito. Agora, em plena Copa do Mundo, a Fifa quer mexer de novo nesse protocolo, e o impacto pode ser ainda mais profundo.
A proposta, revelada pelo The Times e confirmada pelo UOL, é simples na superfície: em vez de dois sorteios de moedinha antes das cobranças — um para definir quem bate primeiro e outro para escolher o lado do campo —, haverá apenas um. O time vencedor decide o que prefere. O perdedor fica com o que sobrar.
O que muda na prática com um sorteio só
Hoje, os dois sorteios são independentes. Isso significa que uma mesma equipe pode, teoricamente, ganhar os dois e ter controle total: escolhe bater primeiro e escolhe o lado em que seu goleiro vai defender. A proposta da Fifa quebra esse acúmulo de vantagem.
A International Board — o órgão que regula as leis do futebol — realizará uma reunião extraordinária para votar a mudança já para os mata-matas desta Copa. Não é algo inédito: a mesma estrutura de reunião emergencial foi usada para aprovar a chamada "Lei Vini Jr.", que resultou na expulsão de Miguel Almirón, do Paraguai, após ele cobrir a boca durante uma conversa em campo — episódio que também gerou outra polêmica paralela no torneio.
O goleiro que sabe para qual lado o batedor prefere ir — e que tem histórico de leitura de cobranças — pode transformar a escolha do lado numa vantagem real. A luz do sol, a sombra da arquibancada, a orientação do vento: esses fatores influenciam a visibilidade do goleiro, e times com especialistas entre as traves passam a ter um ativo estratégico que antes era deixado ao acaso.
O que as métricas dizem sobre goleiros em pênaltis
Do ponto de vista analítico, a performance de goleiros em cobranças de pênaltis pode ser medida por algumas métricas específicas. A mais direta é o PSxG-GA (Post-Shot Expected Goals minus Goals Against) — ela compara os gols esperados com base no posicionamento do chute com os gols efetivamente sofridos. Um goleiro com PSxG-GA positivo está salvando mais do que a estatística esperaria.
- Save% em pênaltis: média da elite europeia gira em torno de 22-25%; goleiros especialistas chegam a 35-40% em sequências de mata-mata.
- Dive direction accuracy: métrica que mede se o goleiro mergulhou para o lado correto — afetada diretamente pela iluminação e pelo ângulo do sol, fatores que a escolha de lado pode controlar.
- Reaction time window: em cobranças de menos de 0,3 segundos até a linha, a antecipação do goleiro responde por mais de 70% das defesas — e a familiaridade com um determinado lado do gol pode reduzir décimos de segundo na decisão.
Esses números mostram que a escolha do lado não é cosmética. Para um goleiro com alto índice de dive direction accuracy — como os que treinam especificamente para leitura de cobranças —, operar no lado de sua preferência pode elevar a taxa de defesa em até 8 pontos percentuais, segundo modelos de performance usados em clubes da Premier League.
Quem sai perdendo com a mudança
Times que dependem mais da ordem de cobrança do que da qualidade individual do goleiro saem em desvantagem. A lógica do "bater primeiro cria pressão psicológica no adversário" — validada por estudos que mostram que o time que abre a série vence 60% dos mata-matas — perde força quando o adversário pode simplesmente abrir mão dessa vantagem e priorizar o lado do campo.
Seleções com atacantes de alto xG em pênaltis — aqueles que convertem mais de 85% das cobranças independentemente da pressão — perdem relativamente pouco. Mas equipes que dependem de um ou dois batedores específicos, com baixo histórico de conversão em situações de pressão máxima, ficam mais expostas se o goleiro adversário tiver a vantagem do lado ideal.
Há também o efeito cascata nos preparadores de goleiros. Com a nova regra, o trabalho de análise de vídeo pré-jogo ganha uma camada extra: identificar qual lado o goleiro adversário prefere defender e calibrar os batedores de acordo. Isso transforma o sorteio num item de planejamento estratégico, não apenas de sorte.
A polêmica fora de campo que dá contexto à reunião
A mudança chega num momento em que a Fifa já está no centro de duas polêmicas simultâneas. O jornalista paraguaio Jorge "Chipi" Vera teve sua credencial cassada pela entidade após chamar Gianni Infantino e o árbitro da partida Paraguai x Turquia de "ladrões" ao vivo, revoltado com a expulsão de Almirón — punido exatamente pela "Lei Vini Jr."
"Durante a transmissão do jogo entre Paraguai e Turquia, tive uma reação impulsiva. Naquele momento, usei expressões ofensivas e inaceitáveis contra o árbitro, a Fifa e seus dirigentes."
Vera pediu desculpas publicamente dias depois, mas a credencial não foi devolvida. Ele está proibido de cobrir qualquer etapa do Mundial — dentro ou fora dos estádios. O episódio — que concentrou em 90 minutos de jogo uma expulsão, uma nova regra e uma cassação de imprensa — ilustra como esta Copa está sendo marcada por decisões regulatórias que afetam o campo e as arquibancadas ao mesmo tempo.
Nas arquibancadas da final, no dia 19 de julho no Estádio de Nova York-Nova Jersey, estará Donald Trump — confirmado por Infantino para entregar o troféu ao lado do presidente da Fifa. A reunião extraordinária da International Board deve ocorrer antes dos mata-matas, que começam nas próximas semanas, o que significa que a nova regra da moedinha pode já valer a partir das oitavas de final.








