A última vez que o Brasil entrou em campo numa Copa do Mundo com Neymar disponível no banco — pronto para mudar o jogo a qualquer momento — foi em 7 de julho de 2018, nas semifinais da Rússia, quando a derrota por 2 a 1 para a Bélgica encerrou a campanha e levou junto um ciclo inteiro. Oito anos depois, em Miami, na noite de quarta-feira (24), a cena pode se repetir — desta vez com o camisa 10 de volta de uma lesão na panturrilha direita e com Carlo Ancelotti segurando nas mãos uma das decisões táticas mais delicadas do torneio.

Três dias de treino e o sinal que Casemiro deu

No complexo de Nova Jersey onde a seleção se prepara para o encerramento do Grupo C, Neymar completou nesta terça-feira (23) o terceiro dia consecutivo treinando normalmente com o restante do grupo. A evolução foi visível — e comentada. Em determinado momento do bobinho, o atacante foi ao chão para recuperar a bola numa dividida que não era obrigatória. Casemiro, que observava de perto, bateu palmas e soltou a frase que circulou nos bastidores:

"Está querendo, hein?"
O gesto de Casemiro não era protocolar. Era o tipo de reação que emerge quando alguém que conhece bem o colega percebe algo genuíno na postura dele.

A avaliação interna da comissão técnica é positiva: Neymar está fisicamente preparado para retornar, mas o corpo ainda precisa ser testado em situações reais de jogo — especialmente em relação a pancadas de adversários. A ideia, caso o contexto do jogo seja favorável, é utilizá-lo entre 15 e 20 minutos. Tempo suficiente para reativar o ritmo competitivo sem comprometer a integridade física.

O esquema que Ancelotti desenhou com o Flamengo no meio

No treino desta terça, Ancelotti esboçou a equipe provável para enfrentar a Escócia dentro de um 4-3-3 que já ganhou consistência ao longo da fase de grupos. A espinha dorsal do time tem forte presença do Flamengo: Lucas Paquetá, titular nas duas primeiras rodadas contra Marrocos e Haiti, segue como um dos meias; Danilo, que começou como reserva na estreia mas se tornou dono da lateral direita, também está confirmado. Léo Pereira foi testado ao lado de Marquinhos, mas a tendência é que fique no banco mais uma vez — assim como Alex Sandro, que perde a disputa pela lateral esquerda para Douglas Santos mesmo com o atleta do Zenit pendurado com cartões.

A provável escalação desenhada nos treinos é: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Paquetá; Vinicius Júnior, Rayan (ou Luiz Henrique) e Matheus Cunha. Reparemos no detalhe: é exatamente nessa última posição, a de falso nove, que Neymar se encaixaria caso entre em campo.

Matheus Cunha perde vaga e o Brasil ganha outra dimensão

O próprio Ancelotti já havia deixado claro, na coletiva pós-convocação em maio, que Neymar seria utilizado como "atacante central". A declaração não era retórica — ela definia com precisão a função que o camisa 10 exerceria no sistema. Contra o Haiti, o 4-3-3 com Cunha como falso nove funcionou: o time conseguiu manipular os encaixes de marcação e criar espaços em profundidade, algo que havia faltado na estreia contra Marrocos, quando Igor Thiago ocupou a posição e o Brasil teve dificuldade de construir pelo meio.

Três dias de treino e o sinal que Casemiro deu Como Neymar transforma o Brasil n
Três dias de treino e o sinal que Casemiro deu Como Neymar transforma o Brasil n

Com Neymar no lugar de Cunha, o Brasil ganharia uma camada de imprevisibilidade diferente. O camisa 10 é um jogador que baixa para receber, arrasta marcadores e libera os corredores para Vinicius Júnior e os pontas da direita. É o que alguns analistas descrevem, com certa ironia, como um modelo "argentino" — um 10 clássico operando como falso nove, algo que a Argentina faz há anos com Messi. A diferença é que, no Brasil de Ancelotti, essa função chegaria a um jogador que faz seu primeiro jogo competitivo após semanas de recuperação muscular, com o corpo ainda calibrando o ritmo de jogo.

Cunha, por sua vez, não sai do time — sai da posição de titular. O atacante do Atlético de Madrid tem versatilidade suficiente para atuar também como meia no 4-3-3, o que lhe garante presença no banco com chances reais de entrar em outro momento da partida.

Brasil x Escócia e o que está em jogo em Miami

A partida contra a Escócia, nesta quarta-feira (24) às 19h (de Brasília), em Miami, fecha a fase de grupos do Brasil no Grupo C da Copa do Mundo. Com a classificação já encaminhada, Ancelotti tem margem para gerir o elenco — e é exatamente essa margem que abre espaço para o retorno gradual de Neymar. Uma vitória tranquila, com o Brasil controlando o jogo, criaria o cenário ideal para o técnico italiano dar os primeiros minutos ao camisa 10 sem expô-lo a um contexto de pressão extrema.

Em matéria do SportNavo, analisamos ao longo da fase de grupos como Ancelotti foi ajustando o sistema à medida que perdeu Rodrygo e Estêvão — e como o 4-3-3 com Cunha como falso nove foi a resposta mais eficiente encontrada. Neymar não entra para desmontar esse equilíbrio. Entra, se tudo correr bem, para adicionar a ele. O Brasil joga às 19h desta quarta em Miami — e Neymar tem 33 anos.