Terça-feira, 14 de julho de 2026. Enquanto Carlo Ancelotti estava de férias no Canadá — longe do calor sufocante do Rio de Janeiro e bem longe das perguntas que ninguém queria fazer em voz alta —, a CBF se reunia na sede da entidade, na Barra da Tijuca, para traçar o futuro da Seleção Brasileira. Na mesa, o presidente Samir Xaud. Na pauta, um plano que vai até 2030. No contrato do treinador, porém, a data de encerramento é 2028. Alguém notou a conta que não fecha.

A reunião da Barra da Tijuca e as metas que ninguém esperava ouvir tão cedo

A sala estava cheia. Vice-presidentes, diretores de departamento, presidentes de federações estaduais — todo o organograma do futebol brasileiro comprimido num mesmo espaço para um balanço que, convenhamos, tinha muito mais de prestação de contas do que de celebração. O Brasil havia terminado a Copa do Mundo de 2026 em 11º lugar, eliminado nas oitavas de final pela Noruega por 2 a 1. A pior campanha desde 1990. A segunda pior da história.

Seleção Brasileira
Seleção Brasileira

Foi nesse clima — pesado como a umidade carioca em julho — que o diretor de futebol Rodrigo Caetano apresentou o que a CBF chama de "objetivos para o ciclo 2026-2030". Dois pilares: vencer a Copa América de 2028 e terminar as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2030 na primeira colocação. Ambiciosos. Necessários, até. Mas com uma lacuna que qualquer torcedor de sofá identificaria em três segundos.

No ciclo que terminou em 2026, o Brasil foi apenas o 6º colocado na Copa América, eliminado pelo Uruguai nos pênaltis nas quartas de final. Nas Eliminatórias sul-americanas, chegou em 5º lugar, atrás de Argentina, Equador, Colômbia e Uruguai. Ancelotti assumiu com 13 meses de antecedência para o Mundial — tempo curto demais, reconheceu a própria CBF na reunião. Agora, a entidade promete um ciclo completo de quatro anos. Só que o técnico tem contrato até 2028.

"Claro que esperávamos um resultado mais positivo na Copa do Mundo Masculina, mas é importante mostrar tudo o que está acontecendo: o trabalho que vem sendo realizado na base, com integração entre as categorias, tanto no masculino como no feminino. Então o trabalho não para, é contínuo. Viramos uma página e agora voltamos o foco para o Mundial Feminino, além do ciclo para 2030", disse o presidente da CBF, Samir Xaud.

A fala de Xaud é cuidadosa, quase cirúrgica. Ele cita a base, cita a integração, cita o feminino — tudo verdadeiro, tudo relevante. Mas não responde a pergunta central: quem vai executar esse plano até 2030?

O número que expõe o problema antes mesmo de 2030 chegar

Existe uma métrica usada por analistas de desempenho chamada PPDA — passes permitidos por ação defensiva —, que mede a intensidade da pressão de uma equipe sobre o adversário. Quanto menor o número, mais agressiva é a marcação. Na Copa de 2026, o Brasil registrou um dos piores PPDAs entre os 32 participantes nas oitavas de final, o que, em linguagem simples, significa que a Seleção deixou a Noruega construir jogo com conforto demais. Ancelotti tem estilo próprio, reconhecido mundo afora. Mas adaptar esse estilo a um time nacional, com janelas FIFA de poucos dias, é um desafio que 13 meses não foram suficientes para resolver.

A CBF reconhece isso indiretamente. Dos 26 convocados para o Mundial de 2026, 23 tiveram passagem pelas categorias de base da Seleção — dado apresentado por Caetano como prova de que o trabalho de base está funcionando. O argumento é legítimo. Mas o processo de amadurecimento desses jogadores vai além de 2028. A geração que começa a aparecer agora vai atingir o pico justamente por volta de 2030. E aí está o paradoxo: a CBF quer colher em 2030 o que está plantando hoje, mas o jardineiro tem contrato apenas até a metade do caminho.

"Você pode ter o melhor projeto de base do mundo, mas se o técnico da equipe principal mudar no meio do ciclo, você perde o fio condutor. É como trocar o maestro no intervalo do concerto", disse um comentarista esportivo durante transmissão ao vivo após o anúncio das metas.

A CBF, por ora, mantém a aposta em Ancelotti para o próximo ciclo e sinaliza que espera a continuidade da comissão técnica italiana. A renovação, porém, não foi anunciada. E no futebol, intenção sem papel assinado vale pouco.

A decisão que a CBF ainda não tomou e que define tudo

A reunião de terça-feira serviu para apresentar um roteiro. O primeiro capítulo já tem data: amistosos contra a Austrália em setembro de 2026, nas datas FIFA que reiniciam o ciclo. Depois, a Copa América de 2028 — competição que ainda não tem sede definida — como primeiro grande teste do novo projeto. E, no horizonte, as Eliminatórias para 2030, com Argentina, Uruguai e Paraguai já classificados como países-sede de jogos do torneio, o que cria uma assimetria inédita na competição sul-americana.

Arthur Elias, técnico da Seleção feminina, também apresentou seu planejamento na reunião. O Brasil sediará pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina, em 2027, e a preparação inclui quatro datas FIFA entre outubro de 2026 e abril de 2027, com amistosos confirmados contra o Japão ainda neste ano. No lado feminino, pelo menos, o projeto tem dono e data definidos.

Seleção Brasileira
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No masculino, a lacuna entre 2028 e 2030 permanece sem resposta oficial. A CBF pode renovar Ancelotti antes da Copa América de 2028 — o que seria o movimento mais lógico caso o italiano entregue resultados nos próximos amistosos. Pode também planejar uma transição para um novo técnico após 2028, assumindo que o projeto de base já estará maduro o suficiente para sobreviver a uma mudança de comando. Ou pode simplesmente esperar — e torcer para que 2030 apareça com menos perguntas do que 2026 deixou.

O próximo passo concreto está marcado: os amistosos de setembro contra a Austrália serão o primeiro termômetro do novo ciclo sob o comando de Ancelotti. Se o italiano quiser mostrar que merece estar no projeto até 2030, o campo começa a falar já em dois meses.