Confesso: durante anos defendi que a Seleção Brasileira ganhava mais jogando fora do país do que em casa. Os dólares dos amistosos nos Estados Unidos, os contratos com federações asiáticas, a visibilidade global — tudo parecia justificar o modelo. Estava errado. Os números da Copa do Mundo de 2026 me convenceram do contrário, e a movimentação recente da CBF indica que a entidade chegou à mesma conclusão.
A confederação já consulta federações estaduais e avalia estádios que possam receber amistosos durante a Data Fifa de novembro, entre os dias 9 e 17. O movimento foi revelado pelo Estadão e confirmado por fontes do setor. Trata-se do primeiro passo concreto para transformar em realidade a promessa feita pelo presidente Samir Xaud ainda em maio deste ano, durante o FutPro Expo 2026, realizado em Fortaleza.
"Depois dessa Copa, vamos trazer a seleção para jogar mais no Brasil do que fora, pois o povo brasileiro merece, e a gente quer resgatar essa conexão com os torcedores, é um compromisso meu." — Samir Xaud, presidente da CBF
Quais estádios têm mais chance de receber a Seleção em novembro
A CBF não divulgou oficialmente uma lista de candidatos, mas o histórico recente de jogos da Seleção Brasileira em solo nacional oferece pistas claras. Desde 2022, o Brasil disputou Eliminatórias para a Copa no Maracanã (Rio de Janeiro), na Arena Castelão (Fortaleza) e na Arena Fonte Nova (Salvador), além do Estádio Mané Garrincha (Brasília) e do Beira-Rio (Porto Alegre).
A intenção declarada da atual gestão é priorizar o Nordeste, região que historicamente recebe menos compromissos da equipe nacional. Entre 2018 e 2022, apenas 4 dos 22 jogos em casa pelas Eliminatórias foram disputados fora do eixo Rio-São Paulo-Sul. O desequilíbrio é histórico e tem raízes logísticas, mas também reflete uma política de concentração de renda nos maiores mercados consumidores.

A Arena Castelão, com capacidade para 63.903 espectadores, e a Arena Fonte Nova, com 47.907 lugares, são as candidatas mais naturais para representar o Norte e o Nordeste. Ambas receberam jogos da Copa de 2014 e têm infraestrutura homologada pela FIFA. A Arena das Dunas, em Natal (31.400 lugares), também entra no radar como opção para mercados menores.
O peso histórico de jogar em casa e o que os dados revelam
Há uma razão estatística robusta para defender amistosos em território brasileiro. Nas Eliminatórias para Copas do Mundo disputadas entre 1994 e 2026, o Brasil acumula aproveitamento de 84,3% como mandante em solo nacional — frente a 61,7% nos jogos disputados como visitante no continente sul-americano. Jogar em casa não é detalhe sentimental; é vantagem competitiva mensurável.
O último amistoso disputado pelo Brasil no país antes da Copa de 2026 ocorreu em 31 de maio, com uma vitória por 6 a 2 — resultado que serviu de despedida da torcida antes da viagem ao Mundial. Antes disso, o torcedor de várias capitais ficou mais de 18 meses sem ver a Seleção em campo dentro do Brasil, período em que a equipe disputou amistosos nos Estados Unidos, na Europa e na Ásia.
Para fins de comparação histórica que contextualiza bem a discussão, em matéria do SportNavo publicada anteriormente, levantamos que entre 1970 e 1990 o Brasil disputava em média 12 jogos por ano em território nacional. Entre 2018 e 2024, essa média caiu para menos de 6 partidas anuais em casa, com anos em que o número chegou a apenas 4 — todos pelas Eliminatórias, sem nenhum amistoso.
"O torcedor do interior do Nordeste, do Norte, do Centro-Oeste — esse cara passou anos sem poder ver a Seleção ao vivo. Isso cria um distanciamento que vai além do futebol, é cultural." — análise recorrente entre dirigentes de federações estaduais consultados pela imprensa.
O que ainda precisa ser resolvido antes de novembro
A janela de novembro é curta: nove dias, entre os dias 9 e 17. Nesse período, a CBF precisa definir adversários, negociar contratos de transmissão, acertar com as federações locais a divisão de receitas e garantir estrutura de segurança e hospedagem para as delegações. Trata-se de uma operação logística que, historicamente, demora meses para ser concluída.
Outro ponto sensível é o financeiro. Os amistosos disputados nos Estados Unidos, especialmente os organizados pela Relevent Sports, geravam receitas entre 3 e 5 milhões de dólares por jogo para a CBF, segundo dados do mercado esportivo. Trazer os jogos para o Brasil reduz esse valor, mas pode ser compensado por patrocínios locais e pela venda de ingressos em arenas com alta demanda reprimida — exatamente o caso das capitais nordestinas.
A escolha dos adversários também importa. Um amistoso contra seleção europeia de peso — França, Alemanha ou Portugal — tem potencial de lotar qualquer estádio brasileiro em horas. Uma partida contra equipe sul-americana de menor apelo comercial pode deixar cadeiras vazias, o que seria contraproducente para o projeto de reaproximação com a torcida que a CBF quer vender.
A Copa do Mundo terminou. O ciclo de Eliminatórias para 2030 começa em breve. A Data Fifa de novembro, entre os dias 9 e 17, será o primeiro teste real de se a promessa de Samir Xaud tem pernas — ou se ficará apenas no discurso do FutPro Expo. As federações do Nordeste já aguardam a confirmação oficial da CBF, e ao menos duas capitais da região estão em negociação avançada para sediar uma das partidas.










