Quatrocentas mil pessoas. Postes escalados. Tetos de ônibus destruídos. Três coisas resumem o que aconteceu na Cidade do México na madrugada de 19 de junho — e as três juntas explicam por que o governo decidiu agir antes que a história se repita na quarta-feira (24).
A noite em que o Anjo da Independência virou epicentro do caos
O apito final do árbitro soou às 22h do dia 18 de junho, e a Cidade do México não dormiu. Ao redor do Monumento ao Anjo da Independência — o ponto de encontro histórico das grandes celebrações mexicanas —, mais de 400 mil pessoas se aglomeraram para festejar a vitória do México sobre a Coreia do Sul por 1 a 0, na Copa do Mundo. O cheiro de pólvora de fogos de artifício misturado ao calor úmido da capital mexicana criou uma atmosfera que começou eufórica e terminou violenta. Imagens que circularam nas redes sociais mostravam torcedores subindo nos tetos de pontos de ônibus, escalando postes e gerando tumultos que resultaram em feridos. A celebração se estendeu até a manhã seguinte, com ruas do Centro Histórico cobertas de lixo e vidros quebrados.
A cena lembra o que acontece quando um show de rock de grande porte ultrapassa a capacidade de controle das autoridades locais — aquele momento em que a energia coletiva deixa de ser festa e vira pressão física sobre tudo ao redor. Só que aqui não havia grade de palco nem segurança privada. Era a cidade inteira servindo de palco.
O que a Lei Seca proíbe e onde ela vai valer
A resposta do governo local foi direta e geograficamente cirúrgica. Para o jogo contra a República Tcheca, marcado para esta quarta-feira (24), as autoridades da Cidade do México colocarão em vigor uma Lei Seca que proíbe a venda de bebidas alcoólicas em lojas de conveniência, mercearias e supermercados em cinco regiões específicas: o Centro Histórico e os bairros Juárez, Tabacalera, San Rafael e Cuauhtémoc. A medida entra em vigor às 15h (horário local) de quarta-feira e permanece válida até as 7h de quinta-feira, conforme publicação oficial do governo.
O alcance da restrição não é pequeno. Esses cinco bairros concentram boa parte das fan fests e pontos de transmissão pública instalados especialmente para a Copa. A estratégia das autoridades é dupla: dispersar as multidões por mais pontos da cidade para evitar a concentração de 400 mil pessoas num único local, e reduzir o consumo de álcool nos momentos que antecedem e sucedem a partida. Segundo as autoridades locais, a medida foi adotada especificamente para "evitar novos distúrbios em caso de outra vitória da seleção mexicana".
"A medida entrará em vigor às 15h (horário local) de quarta-feira, e permanecerá válida até as 7h de quinta", conforme publicação oficial do governo da Cidade do México.
Torcedor preso entre a festa e a proibição
Para o torcedor mexicano que planejava acompanhar o jogo nos bares e na rua, a Lei Seca cria um dilema concreto. A experiência de assistir a uma Copa em casa — algo que o México não vivia desde 1986 — está sendo moldada por restrições que nenhum outro país-sede desta edição de 2026 adotou até agora. Quem mora no Centro Histórico ou nos bairros afetados não poderá comprar uma cerveja no mercado durante o jogo. Quem trabalha no comércio local sente o impacto direto no caixa.
Os bares e restaurantes, por enquanto, não estão incluídos na proibição — a Lei Seca foca nos pontos de venda de varejo. Mas a movimentação nas ruas tende a cair, e os ambulantes que dependem das grandes concentrações de torcedores já calculam o prejuízo. A Copa que deveria ser o maior evento econômico da história recente do México apresenta, para uma fatia do comércio informal, uma conta que não estava no orçamento.
"Mais de 400 mil pessoas compareceram nos arredores do Monumento ao Anjo da Independência para celebrar a vitória do México", informaram as autoridades locais após os incidentes de 18 de junho.
A tensão entre segurança pública e liberdade de celebração é antiga em grandes eventos esportivos. O Brasil enfrentou dilemas parecidos na Copa de 2014, quando cidades-sede adotaram esquemas de segurança que restringiram o acesso de torcedores a determinadas áreas. A diferença é que, no caso mexicano, a restrição vem como resposta a algo que já aconteceu — não como prevenção abstrata, mas como reação direta a 400 mil pessoas e uma noite que saiu do controle.
O México volta a campo às 18h (horário de Brasília) desta quarta-feira (24) contra a República Tcheca, em partida que pode garantir a classificação antecipada da seleção da casa para as oitavas de final da Copa do Mundo. Se o resultado vier, as ruas da Cidade do México vão ferver de novo — com ou sem cerveja nos mercados. Em 24 de junho saberemos se a Lei Seca foi suficiente para mudar o roteiro.








