É uma fortaleza sem janelas.
Isso é o que a seleção de Copa do Mundo de Gana construiu dentro do Gillette Stadium, em Foxborough, nesta terça-feira (23). Enquanto o frio úmido da região metropolitana de Boston cortava a pele nas arquibancadas, o técnico Carlos Queiroz ficava de braços cruzados na beira do gramado assistindo à Inglaterra rolar a bola de um lado para o outro — 79% de posse, segundo o DataESPN — sem encontrar uma única fresta para entrar. O placar final: 0 a 0. O resultado que ninguém queria, mas que Gana celebrou como se fosse uma vitória.
O plano de Queiroz que deixou Tuchel sem resposta
Nos bastidores do estádio, antes do apito inicial, os auxiliares de Thomas Tuchel já sabiam o que estava por vir. Gana não viria para jogar — viria para sobreviver. E sobreviveu com maestria. Desde os primeiros minutos, os africanos recuaram em bloco compacto, com uma linha de quatro defensores colada na entrada da área e dois volantes — Thomas Partey e Caleb Yirenkyi — tapando qualquer corredor central. O espaço entre a defesa de Gana e a linha do meio-campo era tão estreito quanto a diferença entre Recife e Caruaru: perto no mapa, intransponível na prática do jogo.
Declan Rice tentou uma cobrança de falta da meia-lua aos 14 minutos do primeiro tempo que passou por cima do travessão. Foi o máximo que a Inglaterra produziu antes do intervalo, quando controlava absurdos 78% da posse. Noni Madueke e Gordon tentaram infiltrações pelas pontas, mas os laterais Gideon Mensah e Marvin Senaya fecharam cada espaço com precisão cirúrgica. Ao apito do intervalo, parte da torcida neutra nas arquibancadas vaiou os dois times pelas poucas chances criadas.
"Os africanos defendem a entrada da área com força e tentam ligar contragolpes", apontou a cobertura da ESPN, descrevendo a estratégia de Queiroz como um mecanismo montado especificamente para anular o ataque inglês.
O travessão de O'Reilly e o gol perdido por Kane
O segundo tempo começou com Tuchel mexendo no time: entraram Bukayo Saka e Nico O'Reilly, saíram Gordon e outros. A injeção de talento nas pontas agitou o jogo, mas Gana continuou firme. Aos 33 minutos da etapa final, Prince Adu quase virou o jogo em um contra-ataque fulminante — correu em solitário em direção a Jordan Pickford, mas demorou para finalizar e foi travado. O lance foi invalidado por impedimento após a bola tocar em um companheiro.
A resposta inglesa veio em forma de blitz nos minutos finais. Aos 41, Saka exigiu grande defesa do goleiro Lawrence Ati-Zigi. No minuto seguinte, chegou o lance que vai perseguir a seleção inglesa: O'Reilly cabeceou com força e acertou o travessão. No rebote, com o gol completamente aberto, Harry Kane — o maior artilheiro da história da seleção inglesa — pegou mal na bola de pé esquerdo e isolou nas arquibancadas. Um silêncio pesado tomou conta do estádio por alguns segundos. Tuchel fechou os olhos na beira do campo.
"Uma tripla ocasião para a Inglaterra", descreveu o jornal espanhol El País, que acompanhou o lance em tempo real: primeiro o paradão de Ati-Zigi em Saka, depois o travessão de O'Reilly, depois o isolamento de Kane.
Tuchel ainda lançou Marcus Rashford, do Barcelona, nos minutos finais para tentar doblegar o bloqueio africano. O atacante entrou com vontade, mas Gana — rocosa e poderosa fisicamente, nas palavras de Queiroz — não cedeu.

A mesa do Grupo L e o que está em jogo na última rodada
Com o empate — apenas o quarto placar zerado desta edição da Copa do Mundo 2026 —, a Inglaterra vai a 4 pontos e mantém a liderança do Grupo L pelo saldo de gols (+2). Gana fica em segundo lugar, também com 4 pontos e saldo +1, sendo que o time de Queiroz ainda não sofreu um único gol no torneio. Dois jogos, 1 vitória, 1 empate, zero gols sofridos: a fortaleza segue de pé.
Em matéria do SportNavo publicada antes do confronto, a retranca ganesa já era apontada como o maior perigo para os ingleses — e o campo confirmou cada palavra. Agora, as duas seleções ficam de olho no resultado entre Croácia e Panamá, ainda nesta terça-feira, às 20h (de Brasília), que pode alterar o cenário da chave. Na última rodada, a Inglaterra enfrenta o Panamá e Gana mede forças com a Croácia — e quem vencer o duelo africano-europeu provavelmente decide a liderança do grupo. A data para essa resposta definitiva está marcada: 26 de junho de 2026, quando o Grupo L fecha suas contas e o labirinto de Foxborough terá, finalmente, uma saída.








