Três coisas: idade, pênalti e substituição precoce. Tudo se explica daí.
Na tarde de sexta-feira, em Dallas, Luka Modric completou 40 anos, dois meses e alguns dias em campo pela Copa do Mundo — e saiu do gramado com a camisa da Croácia pesando de um jeito que raramente pesou. Foram dois erros que condensaram o pior da derrota por 4 a 2 para a Inglaterra: primeiro, a falta dentro da área que originou o pênalti convertido pelos ingleses no gol de abertura do placar; depois, a substituição no começo do segundo tempo, quando Zlatko Dalić decidiu que já era suficiente. O silêncio dos croatas nas arquibancadas durou mais do que o esperado.
O pênalti que abriu a ferida e os 45 minutos que vieram depois
A jogada do pênalti não foi um lance de azar. Modric entrou em disputa de bola com posicionamento tardio, e o árbitro não hesitou. A Inglaterra converteu e estabeleceu o ritmo de uma partida que terminou em 4 a 2 — um placar que, histórica e estatisticamente, representa a segunda derrota mais elástica da Croácia em fases de grupos de Copa do Mundo. Para referência: em 1998, a estreia croata, geração de Boban e Suker, foi marcada por vitórias convincentes antes da terceira colocação. Em 2018, a Croácia chegou à final sem perder uma partida sequer no tempo normal durante a fase de grupos. O contraste de 2026 é brutal.
Dalić manteve Modric em campo durante todo o primeiro tempo, mas a decisão de tirá-lo logo no início da etapa complementar enviou uma mensagem clara ao mundo do futebol: o treinador croata priorizou o coletivo sobre a simbologia. Não é uma postura comum quando o jogador em questão carrega na manga o emblema dourado da Bola de Ouro — distinção que, nesta edição da Copa, Modric divide apenas com Lionel Messi. Dois únicos jogadores em campo no Mundial de 2026 com esse símbolo costurado no uniforme. Peso histórico imenso … e aí vem o problema.
Quarenta anos e um emblema que cobra o que a idade já não entrega
Modric venceu a Bola de Ouro em 2018 — o único jogador desde 2007 a quebrar o duopólio Messi-Cristiano Ronaldo. Naquele mesmo ano, conduziu a Croácia à final da Copa da Rússia, anotando dois gols e distribuindo assistências decisivas. Seu aproveitamento em Copas é documentado: em 2014, no Brasil, a Croácia caiu na fase de grupos, mas Modric foi um dos poucos a sair com a reputação intacta. Em 2018, foram sete partidas, dois gols e a campanha histórica. Em 2022, no Catar, já com 37 anos, ajudou a Croácia a alcançar o terceiro lugar, eliminando o Brasil nas quartas de final — aquela noite dolorosa no Al-Janoub, quando Livakovic parou três pênaltis e Modric coordenou a reação croata com precisão cirúrgica.
Três anos depois daquela noite, o tempo fez o que sempre faz. A aceleração está menor. A leitura de jogo permanece entre as melhores do mundo — poucos jogadores enxergam o espaço com a precisão que Modric ainda demonstra em momentos de lucidez —, mas os 90 minutos em alta intensidade cobram uma conta que o talento já não consegue pagar integralmente. Nas palavras do técnico Dalić, parafraseadas pela imprensa croata após o jogo,
"Modric é o nosso líder, mas precisamos que todos estejam no nível máximo. Não podemos depender de um homem sozinho."A declaração é diplomática. A substituição, porém, foi direta.
Panamá como oportunidade e o que a Croácia precisa fazer em campo
A partida desta terça-feira (23), às 20h (horário de Brasília), no Grupo K, tem peso aritmético simples: Croácia e Panamá entraram na rodada com zero pontos. Os panamenhos perderam por 1 a 0 para Gana, com gol de Yirenkyi nos acréscimos — uma derrota construída na falta de eficiência ofensiva, não na fragilidade defensiva. Thomas Christiansen deve escalar Orlando Mosquera no gol; a linha de quatro com César Blackman, José Córdoba, Jiovany Ramos e Amir Murillo; e o trio ofensivo com Yoel Bárcenas, José Luis Rodríguez e Jose Fajardo.
Do lado croata, a escalação provável mantém Modric no time titular — ao lado de Mateo Kovacic e Martin Baturina no meio —, com Petar Musa, Marco Pasalic e Ivan Perišić no setor ofensivo e Ante Budimir como referência central. Dominik Livaković segue no gol, e Joško Gvardiol ancora a defesa. A arbitragem ficará a cargo do gabonês Pierre Atcho, com VAR do colombiano Nicolas Gallo, conforme registrado pelo SportNavo antes do apito inicial.
A Croácia tem histórico de reação em Copas. Em 2022, perdeu para o Marrocos na fase de grupos e se classificou mesmo assim. A diferença é que, naquela edição, a derrota foi por 0 a 0 — um empate, tecnicamente. Aqui, são dois pontos a menos do que o necessário para tranquilidade, com um adversário que, apesar do revés inicial, possui organização defensiva sólida e velocidade nas transições. Subestimar o Panamá seria o segundo erro croata em menos de uma semana.
Três coisas: idade, pênalti e substituição precoce. Tudo ainda se explica daí — mas agora Modric tem 90 minutos para mudar o que a leitura sugere.








