Confesso: eu errei sobre Marrocos em 2022. Quando os Leões do Atlas chegaram à semifinal do Qatar, escrevi que aquilo era um pico de geração — desses que não se repetem. Hoje, com 19 jogadores nascidos fora do país na lista da Copa do Mundo de 2026, e com títulos mundiais sub-20 e bronze olímpico no currículo, vejo que eu não entendi nada sobre o que estava sendo construído desde 2010.

O que motivou um rei a fundar uma academia de futebol

A resposta curta é: vergonha esportiva. Entre 2002 e 2014, Marrocos não se classificou para nenhuma Copa do Mundo. Quatro ciclos perdidos. Para Mohamed VI, isso foi suficiente para agir de forma estrutural. Em 2010, o rei inaugurou a Academia Mohammed VI de Futebol em Salé, na periferia de Rabat — um complexo de 9 mil metros quadrados com seis campos principais e um centro de pesquisa que, à época, não tinha paralelo no continente africano.

O que motivou um rei a fundar uma academia de futebol Como a academia do rei Moh
O que motivou um rei a fundar uma academia de futebol Como a academia do rei Moh

A lógica por trás da decisão era simples no papel e complexa na execução: não dá para disputar Copas sem uma base sólida de formação, e não dá para ter base sólida sem infraestrutura de nível profissional para jovens de 12 anos em diante. O modelo foi além do gramado. O complexo conta com dez salas de aula, laboratórios de informática e uma grade curricular desenvolvida com o Ministério da Educação marroquino, dividida em três níveis de ensino — o primeiro focado em adaptação dos recém-chegados à rotina dupla de futebol e escola.

Os jovens também têm acesso a dormitórios, refeitório, academia de ginástica, piscina e um centro médico com fisioterapia e balneoterapia. Não é exagero dizer que o modelo lembra, em estrutura, as melhores academias europeias — mas foi construído com propósito africano, para um país que precisava recuperar décadas de atraso no desenvolvimento de base.

A métrica que ninguém discute sobre o futebol marroquino

Quando se analisa o crescimento de Marrocos pelos dados, o que mais impressiona não é o resultado final — é a consistência do processo. No futebol moderno, usamos algumas métricas para entender como um time domina e cria jogo:

  • xG (expected goals): mede a qualidade das chances criadas, não apenas o número de chutes. Marrocos no Qatar-2022 tinha um xG defensivo extraordinariamente baixo — ou seja, concedia poucas oportunidades de qualidade aos adversários.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): quanto menor, mais agressiva é a pressão da equipe. Os Leões do Atlas operavam com um PPDA competitivo em comparação a seleções europeias do mesmo torneio.
  • Progressive passes: passes que avançam o jogo em direção ao gol adversário. Jogadores como Hakimi e Ounahi foram dos mais ativos nessa métrica entre os jogadores africanos de 2022.

Esses números não surgem do nada. Eles refletem uma filosofia de jogo instalada ao longo de anos de formação — exatamente o que a academia propõe construir desde a base.

O sistema de captação que mudou o mapa da seleção

Talvez o trabalho mais estratégico da academia não aconteça nos campos, mas nos bastidores. É lá que funciona o sistema de identificação e captação de talentos nascidos fora de Marrocos — uma operação silenciosa que redesenhou a seleção ao longo de uma década.

O caso mais conhecido é o de Achraf Hakimi, nascido em Madri em 1998, filho de marroquinos. Cresceu nas categorias do Real Madrid, poderia ter optado pela Espanha, mas foi convencido a representar Marrocos. Hoje é um dos melhores laterais do mundo, referência do PSG, e peça central da seleção. Brahim Díaz, também formado no futebol espanhol, fez o mesmo caminho.

O caso mais recente, e talvez o mais surpreendente, é o de Ayyoub Bouaddi. O jovem meia foi capitão da seleção francesa sub-21 — não jogou por Marrocos nas categorias de base, mas foi convencido pela federação a mudar de federação e está na lista da Copa do Mundo de 2026. Ao todo, 19 jogadores da convocação nasceram fora do país, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da preparação marroquina para o torneio.

"A academia não serve apenas para formar — ela serve para identificar quem pode representar Marrocos, onde quer que essa pessoa esteja no mundo." — paráfrase da filosofia declarada pela Federação Real Marroquina de Futebol em documentos oficiais sobre o programa de captação.

O que os títulos recentes confirmam sobre o investimento

O resultado mais concreto da academia até agora não foi o Qatar-2022, surpreendente como foi. Foi a sequência que veio depois: bronze nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, com a seleção sub-23, e título mundial sub-20 em 2025. Nos dois torneios, havia jogadores que passaram pelo complexo de Salé. Entre os convocados para a Copa do Mundo de 2026, o goleiro Reda Tagnaouti e o meia Azzedine Ounahi têm passagem pela academia — Nouor Aguerd também seria da lista, mas foi cortado por lesão.

"Ganhar o Mundial sub-20 mostrou que não foi sorte. Temos uma geração real sendo formada com metodologia." — declaração atribuída ao staff técnico marroquino após o título de 2025, segundo veículos especializados europeus.

A academia virou referência dentro do próprio Marrocos, inspirando outros centros menores no país. O modelo não é perfeito — a dependência de naturalizações ainda gera debate sobre identidade futebolística — mas os dados são difíceis de ignorar: uma seleção que não se classificava para Copas virou top 10 do ranking FIFA e está entre as favoritas a surpreender em 2026.

Confesso: eu errei sobre Marrocos em 2022. E agora entendo que aquele Qatar foi só o começo visível de algo que Mohamed VI começou a construir quinze anos antes, com seis campos, dez salas de aula e um mapa do mundo marcado com o nome de cada filho da diáspora que poderia vestir a camisa dos Leões do Atlas.