Não, Neymar não é o problema de uma seleção que perdeu a identidade. Ele é o sintoma. O problema real é que a CBF construiu, ao longo de semanas, uma narrativa de recuperação tão cuidadosamente embalada que ninguém mais consegue distinguir o que é informação médica do que é gestão de imagem — e esse embaralhamento está custando ao Brasil um debate tático que deveria ter acontecido antes mesmo do embarque para os Estados Unidos.

Quase 30 dias parado e um treino que não convence ninguém

Na última sessão de treino da Seleção Brasileira, realizada com portões fechados pela primeira vez desde a chegada ao território americano, Neymar apareceu em campo por alguns minutos, correu ao redor do gramado e brincou com a bola — mas não participou das atividades coletivas com os demais jogadores. Pessoas com acesso ao treino afirmam que Carlo Ancelotti mesclou titulares e reservas sem deixar claro qual será o time diante do Haiti, na sexta-feira, às 21h30 (horário de Brasília), na Filadélfia. Para quem esperava uma definição, o silêncio foi mais eloquente do que qualquer nota oficial.

Quase 30 dias parado e um treino que não convence ninguém Como a CBF construiu u
Quase 30 dias parado e um treino que não convence ninguém Como a CBF construiu u

O atacante acumula quase 30 dias sem disputar uma partida oficial por conta de uma lesão na panturrilha. Não se trata de um afastamento curto, do tipo que um atleta de elite absorve em uma semana de trabalho intensivo. Três anos de irregularidade — com passagens pelo Al-Hilal marcadas por mais tempo no departamento médico do que em campo — criaram um histórico que torna qualquer projeção de retorno rápido, no mínimo, especulativa.

O que Samir e Milly disseram que a CBF prefere ignorar

O jornalista Samir Carvalho foi direto ao ponto em análise recente: o problema de Neymar não é exclusivamente físico. Segundo ele, há um componente técnico que já se manifesta em situações simples de jogo.

O que Samir e Milly disseram que a CBF prefere ignorar Como a CBF construiu uma
O que Samir e Milly disseram que a CBF prefere ignorar Como a CBF construiu uma
"A questão do Neymar não é só física. Ele não consegue bater uma falta mais. O Neymar dominou a bola na Vila Belmiro sem goleiro e finalizou para fora." — Samir Carvalho, jornalista esportivo

A frase sobre a falta merece atenção especial. Neymar construiu boa parte de sua reputação na Copa do Mundo exatamente em cobranças de bola parada — o gol de falta contra a Croácia em 2022 é o exemplo mais recente. Se essa ferramenta já não está disponível, a pergunta sobre o que ele oferece dentro dos 90 minutos se torna ainda mais urgente. Samir ainda apontou que o ciclo de notícias do tipo "treinou com bola" alimenta uma expectativa que não enfrenta o nível de exigência atual do futebol de alto rendimento.

A comentarista Milly Lacombe foi além e nomeou o ambiente criado pela CBF com precisão cirúrgica.

"Parece que a CBF criou esse ambiente em Nárnia, que é um lugar de completo delírio psicodélico. E estamos lá dentro discutindo uma coisa que não tem cabimento." — Milly Lacombe, comentarista

O raciocínio de Milly é estrutural: mesmo que a panturrilha cicatrizasse amanhã, Neymar precisaria de um período de recondicionamento físico para atingir o ritmo de competição em Copa do Mundo — e ele não tem esse tempo disponível. Ela ainda levantou a questão tática que ninguém na comissão técnica respondeu publicamente: se ele entrar por 15 minutos, sai quem? Raphinha? Vinicius Jr? Rodrygo? Cada uma dessas trocas altera o equilíbrio de um time que já empatou com Marrocos por 1 a 1 na estreia.

A identidade perdida que Casagrande descreveu com precisão

A polêmica em torno de Neymar não existe no vácuo — ela se encaixa num debate maior sobre o que o Brasil quer ser em campo. O ex-atacante Casagrande colocou o dedo na ferida ao afirmar que a seleção brasileira passou décadas tentando imitar o futebol europeu e, nesse processo, perdeu o que os próprios europeus sempre invejaram.

"Nós estamos parecendo sparring em Copa do Mundo para seleções europeias. Elas treinam para derrubar a gente." — Casagrande, ex-atacante e comentarista

O dado histórico sustenta a análise: desde 2006, o Brasil não passa das quartas de final em Copas do Mundo. Em 2014, levou 7 a 1 da Alemanha em casa. Em 2022, foi eliminado pela Croácia nos pênaltis após empate por 1 a 1. Ancelotti assumiu com a missão de resgatar uma identidade ofensiva, mas o empate com Marrocos — seleção que ocupa a 14ª posição no ranking FIFA — mostrou que a equipe ainda busca seu rosto. Nesse contexto, insistir em um Neymar fora de forma como âncora tática é menos uma decisão técnica e mais uma aposta de marketing.

O que os números de 2026 dizem sobre a aposta da CBF

Em toda a temporada 2025/2026, Neymar somou menos de 400 minutos em campo pelo Santos — números que qualquer scout europeu classificaria como insuficientes para uma convocação de Copa do Mundo. Para efeito de comparação, Vinicius Jr. acumula mais de 3.000 minutos na temporada pelo Real Madrid, com participação direta em mais de 25 gols entre La Liga e Champions League. Rodrygo, outro convocado, também ultrapassa 2.500 minutos e chega à Copa com ritmo de jogo consolidado.

A discussão sobre o encaixe de Neymar no esquema de Ancelotti também esbarrou na mudança de posicionamento que o técnico italiano tentou no empate contra Marrocos: o uso de Ibañez na lateral direita expôs fragilidades defensivas que um camisa 10 sem mobilidade tende a aprofundar, não resolver. Ancelotti usou as cinco substituições no jogo de estreia — trocando Casemiro por Fabinho e Ibañez por Danilo — o que indica que o time titular já não está blindado e que as posições estão em disputa real.

O Brasil enfrenta o Haiti na sexta-feira, dia 20, na Filadélfia, com a obrigação de vencer para não complicar a classificação no grupo. Se Neymar não estiver apto nem para os 15 minutos finais contra uma seleção ranqueada fora do top 50 do mundo, a CBF precisará, finalmente, responder à pergunta que Milly Lacombe fez sem receber resposta: no lugar de quem?