O Lincoln Financial Field ainda ecoava os gritos dos 69 mil torcedores quando Carlo Ancelotti encerrou a coletiva com uma frase que movimentou o noticiário mais do que qualquer gol da noite. Neymar treinará individualmente neste sábado e, depois, na segunda-feira, com a equipe, e estará preparado para o jogo contra a Escócia — foram essas as palavras do técnico italiano após a vitória do Brasil por 3 a 0 sobre o Haiti, na última sexta-feira, 19, em Filadélfia, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo. O que Ancelotti não disse, e aí está o ponto que interessa, é se o camisa 10 começa jogando ou entra no segundo tempo.
A lesão que manteve Neymar fora dos dois primeiros jogos
A história começa em 17 de maio, numa partida do Brasileirão entre Santos e Coritiba. Neymar sentiu dores na panturrilha direita e foi substituído — em circunstâncias que geraram polêmica à época — antes mesmo de entender o que havia acontecido. A lesão, muscular e de grau moderado, tirou o jogador dos dois primeiros compromissos da Seleção nesta Copa: o empate sem gols contra Marrocos e a vitória sobre o Haiti. Enquanto os companheiros jogavam em Filadélfia, Neymar ficou entre o CT de Columbia Park e o hotel The Ride, cumprindo protocolo de recuperação. A Copa havia começado sem seu maior símbolo em campo.
O impacto dessa ausência não é apenas simbólico. Nos dois jogos disputados, o Brasil acumulou quatro pontos — o mesmo que o Marrocos, que lidera com o mesmo saldo de gols até o fechamento da rodada —, mas deixou dúvidas táticas sérias. Contra o Haiti, o time de Ancelotti finalizou apenas duas vezes no segundo tempo, enquanto o adversário mais fraco do grupo chegou a sete finalizações nos 90 minutos. O comentarista Mauro Cezar Pereira foi direto ao analisar a partida no programa Canelada, da rádio Jovem Pan:
"Fica muito claro que o Brasil se sai melhor quando tem espaço. Foi bem na primeira etapa, mas na segunda, mesmo tendo espaço, não aproveitou. Faltou um pouco de apetite."
O ataque que funcionou — e onde ainda há buracos
A vitória sobre o Haiti teve um protagonista inegável: Matheus Cunha, dono da camisa 9, marcou duas vezes no primeiro tempo — aos 22 e aos 35 minutos — e consolidou uma trajetória de superação que inclui ter ficado fora da Copa de 2022, quando Tite preferiu Gabriel Jesus, Pedro e Richarlison. Em 2026, após uma temporada pelo Manchester United com dez gols e duas assistências em 35 partidas, Cunha chegou como unanimidade. Mas o que fez a diferença tática foi a movimentação do atacante: em vez de se fixar entre os zagueiros adversários, ele recuava para participar da construção, transformando o 4-3-3 de Ancelotti em algo próximo a um losango — como descreve a análise do Lance!, registrada também pelo SportNavo ao longo da competição.
Esse movimento de Cunha abriu corredores para Vinícius Júnior e Raphinha atacarem pelos lados. Vini Jr. marcou o terceiro gol e admitiu, em coletiva, que jogou numa posição com a qual não está totalmente confortável — centralizado, funcionando como falso 9 a pedido de Ancelotti:

"Hoje eu joguei em uma posição diferente, o mister pediu para eu jogar por dentro, entre os dois zagueiros. A verdade é que eu não jogo muito por ali, mas sempre que o mister me pede eu marco gols, então eu tenho que escutar muito mais vezes ele."
O problema é que essa engrenagem travou no segundo tempo. Raphinha sentiu dores no músculo posterior da coxa direita ainda no primeiro tempo — a mesma região que já o machucou antes, segundo o próprio Vini Jr. — e saiu de campo. Entrou Rayan, de 19 anos, que fez sua estreia em Copas do Mundo e dividiu opiniões: chegou a cruzar com qualidade em pelo menos uma jogada, mas não conseguiu progressão consistente pela direita. Com Raphinha fora, o Brasil perdeu fluidez ofensiva como água escorrendo por areia seca — o volume de jogo secou de forma silenciosa, sem um ponto de ruptura claro para identificar.
A noite ainda teve um dado histórico curioso: Endrick e Rayan entraram juntos no segundo tempo, tornando-se a primeira dupla de jogadores com menos de 20 anos a atuar num mesmo jogo de Copa do Mundo pelo Brasil desde 19 de junho de 1958 — quando Pelé, com 17 anos, e Mazzola, com 19, jogaram juntos na vitória por 1 a 0 sobre o País de Gales. Endrick chegou a marcar, mas o gol foi anulado por impedimento. Ao sair do estádio, o atacante do Lyon foi enfático:
"O Ancelotti não vai fazer o melhor para mim. Vai fazer o melhor para o grupo. Só posso ficar agradecido de ter ele na minha vida."
Como Neymar pode se encaixar no esquema que Ancelotti construiu sem ele
A questão tática central para o jogo contra a Escócia, na quarta-feira, no Hard Rock Stadium em Miami, é: onde Neymar entra nesse quebra-cabeça? O esquema de Ancelotti foi construído nos últimos dois jogos sem o camisa 10. Matheus Cunha ocupa a posição de referência ofensiva com mobilidade; Vini Jr. atua centralizado por pedido do treinador; e Lucas Paquetá funciona como o fio condutor do meio-campo ao lado de Bruno Guimarães e Casemiro — a dupla Paquetá-Bruno Guimarães com entrosamento desde os tempos de Lyon.
A chegada de Neymar não resolve automaticamente o segundo tempo apagado que o Brasil apresentou contra o Haiti. O camisa 10 volta de lesão muscular sem ritmo de jogo — não disputou uma partida oficial desde 17 de maio. Colocá-lo como titular exige que Ancelotti assuma um risco real: o de ter um jogador em ritmo de treino numa partida que vale a liderança do Grupo C. O Marrocos, que também tem quatro pontos, enfrenta o Haiti no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, na mesma rodada. Se os marroquinos vencerem e o Brasil não garantir um resultado positivo contra a Escócia, a liderança escapa.
A alternativa mais provável — e que Ancelotti não descartou nem confirmou — é Neymar entrar no segundo tempo, quando o desgaste físico já tiver sido absorvido e o placar ainda permitir ajustes. Essa gestão de carga é consistente com o perfil do treinador italiano, que ao longo da temporada no Brasil demonstrou preferir preservar jogadores em retorno de lesão para não arriscar recidiva.
O Brasil joga contra a Escócia na quarta-feira, às 19h (horário de Brasília), no Hard Rock Stadium, em Miami. Uma vitória garante a liderança do Grupo C independentemente do resultado de Marrocos. Neymar treina com o grupo na segunda-feira — e o que acontecer nessa sessão vai definir se ele começa jogando ou aguarda no banco a hora de mudar o jogo.








