A última vez que a Concacaf ameaçou de verdade a hegemonia sul-americana em um torneio global foi na Copa de 1994, nos Estados Unidos, quando o México chegou às oitavas de final e o anfitrião norte-americano eliminou a Colômbia na fase de grupos — a mesma Colômbia que havia goleado a Argentina por 5 a 0 nas eliminatórias. Passados 32 anos, o mesmo continente voltou a surpreender, mas agora com dados ainda mais contundentes: a Copa do Mundo de 2026 registra a Concacaf com 54,1% de aproveitamento, numericamente colada nos europeus da Uefa (54,4%) e à frente da Conmebol, que amarga 44,4% após a primeira rodada completa.

Os números que ninguém esperava ver neste estágio do torneio

O quadro de aproveitamento por confederação, conforme registrado pelo SportNavo com base nos dados oficiais da Fifa, revela uma hierarquia que inverte décadas de senso comum: Europa lidera com 8 vitórias, 7 empates e 4 derrotas; Concacaf aparece em segundo com 4 vitórias, 1 empate e 3 derrotas; América do Sul soma apenas 2 vitórias, 2 empates e 2 derrotas; África registra 2 vitórias, 5 empates e 4 derrotas; e a Oceania, com 1 empate, fecha a tabela. A média de gols do torneio — 3,18 por partida — é a maior desde a Copa de 1958, na Suécia, quando o Brasil de Pelé, com 17 anos, marcou 16 gols em seis jogos. Naquele torneio, a média geral foi de 3,60 gols por jogo, o recorde histórico da competição.

EQUADOR X CURAÇAO | COPA DO MUNDO 2026 | 2ª RODADA | FASE DE GRUPOS AO VIVO COM IMAGENS
Os números que ninguém esperava ver neste estágio do torneio Como a Concacaf sup
Os números que ninguém esperava ver neste estágio do torneio Como a Concacaf sup

O jornalista Michael Fox, escrevendo no The Athletic — braço esportivo do New York Times —, sintetizou o momento com precisão:

"No terrible games"
— nenhum jogo ruim. Os estádios confirmam o entusiasmo: média de 64.574 espectadores por partida, a segunda maior de todos os tempos, superada apenas pela edição de 1994, também nos Estados Unidos. Coincidência geográfica que merece atenção.

O trio anfitrião invicto e o que explica o fator casa nesta edição

Estados Unidos, México e Canadá acumulam quatro vitórias e um empate desde o início do torneio — um desempenho que não tem precedente coletivo entre os anfitriões em uma Copa com múltiplas sedes. Na segunda rodada, o Canadá derrotou o Qatar e o México bateu a Coreia do Sul, dois resultados que elevaram o aproveitamento da Concacaf ao patamar atual. O técnico da seleção norte-americana, Mauricio Pochettino, não escondeu suas reservas quanto a alguns aspectos organizacionais do torneio, mas reconheceu o ambiente favorável. Sobre as pausas obrigatórias para hidratação, implementadas pela Fifa nesta edição, foi direto:

"Eu não gosto. Só gosto quando as condições são extremas, mas, quando as condições são boas, é desnecessário."
As pausas, de três minutos no meio de cada tempo, foram criadas pela Fifa em dezembro passado para padronizar o que já era feito de forma irregular na Copa do Mundo de Clubes de 2025 — e seguem sendo aplicadas até em estádios com ar-condicionado, o que ampliou a insatisfação de jogadores e torcedores nas arquibancadas.

O fator casa, porém, pesa mais do que qualquer pausa. Historicamente, os anfitriões da Copa do Mundo têm aproveitamento médio superior a 60% na fase de grupos. Em 2014, o Brasil de Luiz Felipe Scolari venceu os três jogos da fase inicial. Em 2018, a Rússia também passou em primeiro no grupo. Em 2022, no Qatar, a seleção local perdeu na estreia para o Equador, mas a exceção confirma a regra: jogar em casa mobiliza recursos emocionais e logísticos que as estatísticas capturam com fidelidade… e aí vem o problema para os sul-americanos.

A América do Sul abaixo da linha histórica e o peso das derrotas precoces

A Conmebol nunca havia encerrado uma primeira rodada de Copa do Mundo com apenas duas vitórias em seis jogos disputados desde a ampliação do torneio para 32 seleções, em 1998. Naquela edição francesa, Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Paraguai e Equador (este último ainda fora do torneio) produziram um bloco sólido. Em 2026, os campeões mundiais Brasil e Uruguai empataram na estreia, enquanto Paraguai e Equador foram derrotados — um resultado coletivo que não encontra paralelo nas últimas seis edições do Mundial.

A Argentina e a Colômbia foram as únicas a vencer na primeira rodada sul-americana, mantendo viva a chama do continente. O Brasil de Carlo Ancelotti, que empatou na estreia, entrou em campo na segunda rodada diante do Haiti, em confronto direto Conmebol-Concacaf, com amplo favoritismo e a missão de iniciar a reação regional. Qualquer resultado que não fosse uma vitória, segundo análises amplamente circuladas antes da partida, instalaria uma crise de proporções consideráveis na seleção canarinha. As seleções teoricamente mais fracas da Concacaf — Curaçao, Haiti e Panamá — acumularam derrotas que puxaram a média confederativa para baixo; sem esses resultados, o aproveitamento do bloco norte-americano seria ainda mais expressivo.

O que os dados históricos dizem sobre a sustentabilidade desse desempenho

Comparar aproveitamentos no início de uma Copa exige cautela metodológica. Em 1994, a Concacaf também começou bem — os Estados Unidos eliminaram a Colômbia de Carlos Valderrama e Faustino Asprilla na fase de grupos — mas nenhum representante do bloco chegou às quartas de final. Em 2002, o co-anfitrião sul-coreano chegou à semifinal, o que elevou o aproveitamento asiático a níveis históricos, mas o feito não se repetiu nas edições seguintes. A sustentabilidade do desempenho da Concacaf em 2026 depende, portanto, de como EUA, México e Canadá se comportarão no mata-mata, onde o fator casa perde força progressiva à medida que os jogos se deslocam entre sedes.

O México, que nunca passou das oitavas de final em nove participações consecutivas entre 1994 e 2018 — uma sequência que ficou conhecida como o quinto partido maldito —, terá a chance de quebrar o tabu exatamente em casa. Os Estados Unidos, semifinalistas em 1930 e quartas-de-finalistas em 2002, buscam a melhor campanha da história da franquia. O Canadá, em sua segunda Copa do Mundo (a primeira foi em 1986, quando saiu sem marcar um gol sequer), já garantiu sua primeira vitória histórica no torneio ao bater o Qatar na segunda rodada. É o mesmo cenário que a França viveu em 1998 — anfitriã, pressionada, superando expectativas rodada a rodada — só que agora a aposta é distribuída entre três países ao mesmo tempo, e ninguém ainda sabe qual deles vai carregar o peso até o fim.