Quantas peças uma seleção suporta perder antes de comprometer o esquema que o treinador levou meses para calibrar? A Alemanha está testando esse limite em tempo real, com quatro nomes relevantes fora ou em dúvida para a Copa do Mundo de 2026. O pior não é a quantidade — é a combinação: um zagueiro titular, um segundo zagueiro com status indefinido, um atacante frequente no time inicial e uma das maiores promessas do futebol alemão da última geração.

O acúmulo de baixas não ocorreu em uma sequência de jogos intensos. Rüdiger se machucou em treino, Karl foi cortado antes da estreia, Gnabry carrega um diagnóstico sem prazo de retorno desde a reta final da temporada europeia, e Schlotterbeck saiu de campo na vitória por 2 a 1 contra a Costa do Marfim — partida do Grupo E disputada neste sábado, 20 de junho. Julian Nagelsmann, que construiu um sistema baseado em saída de bola pelos zagueiros e pressão alta nas alas, vê o alicerce dessa estrutura sendo testado antes mesmo da fase eliminatória.

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O que a lesão de Schlotterbeck representa para a zaga titular

Nico Schlotterbeck, do Borussia Dortmund, era o parceiro fixo de Jonathan Tah na zaga. Ele foi substituído no início do segundo tempo contra os marfinenses e, segundo o próprio Nagelsmann, o diagnóstico não é animador.

"Nico é suspeito de ter sofrido uma lesão ligamentar. Não parece bom", declarou o treinador alemão após o apito final.

O regulamento da FIFA impede que a Alemanha convoque outro zagueiro para cobrir a vaga: o prazo para substituições por lesão encerrou 24 horas antes da estreia de cada seleção. Isso significa que Nagelsmann terá de redistribuir funções dentro do elenco disponível. A entrada de Rüdiger no lugar de Schlotterbeck durante a partida foi a solução imediata — mas Rüdiger, que rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito em treino, já estava na lista de desfalques confirmados antes do torneio. Há, portanto, uma confusão de contextos: o Rüdiger que entrou em campo neste sábado não é o mesmo episódio da ruptura de LCA — e isso precisa ser lido com atenção, pois a lesão ligamentar de Rüdiger que o tirou de competições anteriores é distinta da situação atual de Schlotterbeck.

Gnabry e Karl — o custo das ausências no setor ofensivo

Serge Gnabry, atacante do Bayern de Munique, sofreu uma ruptura no músculo adutor da coxa direita — confirmada pelo clube após exames médicos. O Bayern informou que o jogador ficará afastado por um "longo período", sem estipular data de retorno. Gnabry havia sido titular na Champions League contra o Real Madrid pouco antes do diagnóstico, sem indicação imediata de problema físico durante a partida. A lesão no adutor — região que exige semanas de recuperação mesmo em casos menos graves — transforma sua presença no Mundial em uma incógnita real.

A situação de Lennart Karl é diferente em natureza, mas igualmente dolorosa. O meia de 18 anos, formado nas categorias de base do Bayern de Munique — onde passou pelas equipes sub-17 e sub-20 antes de integrar o grupo profissional — sofreu uma ruptura das fibras musculares na parte frontal da coxa esquerda e foi cortado da convocação antes mesmo de disputar um minuto no torneio. Em seu lugar, Nagelsmann chamou Assan Ouédraogo, meio-campista do RB Leipzig.

"Nem sei por onde começar, mas dói demais perder o maior torneio. Fiz tudo o que pude para estar em forma para a Copa do Mundo. Infelizmente, as lesões costumam acontecer na pior hora possível", publicou Karl em seu perfil no Instagram.

Karl — que chegou ao radar da seleção principal ainda na temporada 2025/2026 — representa exatamente o perfil que Nagelsmann vinha tentando inserir no elenco: meia com capacidade de pressão alta, bom no jogo entre linhas e com experiência em competições de base da UEFA. Perder esse jogador aos 18 anos, na véspera da Copa, é um golpe no projeto de médio prazo da DFB tanto quanto no torneio imediato.

Como Nagelsmann reorganiza o esquema sem as peças originais

A Alemanha está no Grupo E ao lado de Curaçao, Costa do Marfim e Equador. A vitória por 2 a 1 sobre os marfinenses neste sábado garante uma estreia positiva, mas o custo foi alto — Schlotterbeck saiu machucado, e o elenco chega às próximas rodadas com margens reduzidas na zaga.

Nagelsmann trabalha habitualmente com uma linha de quatro defensores, onde os zagueiros centrais precisam ser confortáveis com a bola nos pés para alimentar a saída de jogo. Com Schlotterbeck em dúvida e sem possibilidade de reforço externo por regulamento, o técnico terá de recorrer a jogadores que não são especialistas na posição ou adaptar o posicionamento de atletas que atuam como laterais. Antonio Tah segue disponível e deve ser o pilar da zaga nas próximas partidas — mas a perda de um segundo zagueiro de alto nível reduz a margem para rotação e para lidar com cartões amarelos acumulados.

Gnabry e Karl — o custo das ausências no setor ofensivo Quatro desfalques e Nage
Gnabry e Karl — o custo das ausências no setor ofensivo Quatro desfalques e Nage

No setor ofensivo, a ausência confirmada de Karl e a dúvida sobre Gnabry — que, mesmo que recupere alguma condição física, chegaria ao torneio sem ritmo de jogo — obrigam Nagelsmann a reorganizar as opções pelas alas. A entrada de Ouédraogo, do RB Leipzig, traz um perfil mais físico e menos técnico do que Karl, o que altera o equilíbrio do meio-campo em situações de posse. A Alemanha, que busca o pentacampeonato mundial — o último título foi em 2014, no Brasil — chega ao mata-mata com um elenco que precisa ser reconfigurado em pelo menos duas linhas.

A próxima partida do Grupo E definirá se Schlotterbeck tem condições de retornar ou se Nagelsmann precisará improvisar por toda a fase eliminatória. Se o diagnóstico ligamentar se confirmar, a Alemanha disputará o restante da Copa sem nenhuma possibilidade de reposição no setor — e a pergunta que fica é: Ouédraogo, com 18 ou 19 anos e poucos meses de futebol de alto nível no RB Leipzig, tem maturidade para assumir o papel que Karl ocuparia em um eventual confronto eliminatório contra uma seleção do nível de Espanha ou França?