Confesso que errei sobre Folarin Balogun. Quando Mauricio Pochettino o escalou como centroavante titular dos Estados Unidos para esta Copa do Mundo, eu escrevi, em análise pré-torneio, que o atacante de 23 anos era uma aposta excessivamente arriscada para um torneio realizado em casa. Dois gols contra o Paraguai, incluindo uma finalização com a perna esquerda no ângulo aos acréscimos do primeiro tempo, mostraram que eu subestimei o perfil de jogador que a seleção americana havia construído em silêncio. Trago isso à mesa porque a ausência possível de Christian Pulisic diante da Austrália, nesta sexta-feira (19) às 16h de Brasília, no Seattle Field, recoloca Balogun exatamente no centro do tabuleiro — e o debate sobre dependência de craques ganhou outra dimensão.

O que a lesão de Pulisic revela sobre a estrutura americana

Pulisic é dúvida por causa de uma lesão na panturrilha esquerda. A informação foi confirmada antes do segundo jogo do Grupo D, e o impacto vai além do aspecto físico. Contra o Paraguai, o camisa 10 do Milan construiu a jogada que resultou no gol contra de Damián Bobadilla logo aos sete minutos, ditando o ritmo de pressão alta que Pochettino havia ensaiado. Com 65% de posse de bola e 16 finalizações registradas, os Estados Unidos não jogaram apenas com talento individual — jogaram com um sistema. Mas Pulisic era o eixo de rotação desse sistema, o jogador capaz de transformar pressing em transição vertical em segundos.

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O que para o argentino é o enganche — a figura que conecta linhas e organiza o caos criativo — para o futebol de alta intensidade que Pochettino tenta implantar nos EUA é o number ten de pressing: um atacante que trabalha para trás tanto quanto avança. Pulisic cumpre esse papel com naturalidade europeia, forjada em anos de Premier League e Serie A. Retirado do jogo, o sistema não colapsa, mas perde seu ponto de referência mais sofisticado.

"Nossa equipe precisa demonstrar o desejo de ser a melhor, de ser sempre a primeira, de vencer, de competir... Todos os valores que este país demonstra para o resto do mundo. Os Estados Unidos têm o talento para fazer algo grande", afirmou Pochettino em entrevista ao site da Fifa.

A fala do técnico argentino não é apenas retórica motivacional. Ela aponta para uma escolha filosófica: a seleção americana foi construída sobre coletivo, não sobre um único protagonista. Se Pulisic não jogar, Pochettino tem opções concretas. Giovani Reyna, que anotou o quarto gol contra o Paraguai com uma trivela nos acréscimos finais, pode assumir papel mais central. O jovem de 23 anos vive fase de maturidade técnica e seria a escolha mais natural para ocupar o espaço de articulação.

Balogun e Reyna como âncoras do ataque americano em Seattle

A dupla Balogun-Reyna já demonstrou química funcional no Los Angeles Stadium. Balogun, na briga pela artilharia do Mundial após dois gols na estreia, não depende de Pulisic para ser eficiente: seu primeiro gol veio de passe de Pulisic, mas o segundo foi construído por iniciativa própria — corte sobre o zagueiro, finalização no ângulo. São movimentos de um centroavante que aprendeu a criar antes de concluir, característica rara em atacantes de área pura.

A Austrália, que também lidera o Grupo D após vitória na primeira rodada, chega a Seattle como adversário tecnicamente organizado, com capacidade de explorar contra-ataques verticais. Sem Pulisic para pressionar a saída de bola adversária com a mesma eficiência, os americanos podem sofrer mais em transições defensivas. Weston McKennie, cujo cruzamento originou o gol contra de Bobadilla, terá responsabilidade ampliada na cobertura do setor central.

"Talento sem compromisso é um jogo que se transforma em individualidade", completou Pochettino, em outro trecho da mesma entrevista, sinalizando que a exigência coletiva não muda independentemente de quem estiver em campo.

O mapa do Grupo D e o que está em jogo agora e nas próximas semanas

Uma vitória nesta sexta-feira praticamente classifica os Estados Unidos para a fase eliminatória, deixando a terceira rodada — contra a Turquia — como apenas uma formalidade matemática. Uma derrota, no entanto, reabre o grupo e coloca a seleção anfitriã em situação de pressão inédita para um torneio que o país investiu anos construindo institucionalmente, desde a candidatura conjunta com Canadá e México até a expansão de infraestrutura esportiva em cidades como Seattle, Los Angeles e Nova York.

A melhor campanha histórica da seleção masculina americana em Copas do Mundo foi o terceiro lugar em 1930, no Uruguai — uma era sem profissionalismo pleno. Na era moderna, a eliminação nas oitavas de 2002, diante da Holanda, permanece como teto de referência. Pochettino, no cargo desde setembro de 2024, tem pouco mais de 20 meses de trabalho para tentar reescrever esse limite histórico. O jogo contra a Austrália, com ou sem Pulisic, é o primeiro teste real de que o sistema sobrevive à ausência de sua peça mais reconhecível internacionalmente.

Balogun, Reyna e McKennie têm condições de sustentar o resultado. Os dados da estreia — 65% de posse, domínio territorial durante quase toda a partida — indicam que a estrutura coletiva existe e funciona. A questão, agora, é se ela resiste à pressão de um adversário que chegou ao Seattle Field também com três pontos e com motivação equivalente. O jogo começa às 16h de Brasília e vale acompanhar ao vivo para ver se Pochettino escala Reyna no lugar de Pulisic ou opta por uma solução mais defensiva no setor criativo.