É um relógio suíço com pavio curto.

A imagem serve para a situação da delegação iraniana na Copa do Mundo: mecanismos precisos e sincronizados — logística, protocolo diplomático, agenda esportiva — funcionando sob pressão máxima, com o risco de explodir a qualquer momento. O Team Melli chegou a Los Angeles vindo de Tijuana, num voo de vinte minutos, porque os Estados Unidos negaram vistos a cerca de quinze integrantes da delegação, incluindo dirigentes e membros da comissão técnica.

Isso não é burocracia. É geopolítica disfarçada de formulário consular.

Os bastidores de uma delegação sitiada antes mesmo de entrar em campo

A decisão de mudar o campo base de Tucson, no Arizona, para Tijuana, no México, foi tomada depois que Washington recusou os pedidos de visto de parte relevante do grupo iraniano. A mudança não é simbólica: Tijuana fica a menos de trinta quilômetros de San Diego, do outro lado da fronteira, e obriga a delegação a cruzar o território americano apenas quando os compromissos esportivos exigem. Para a estreia contra a Nova Zelândia no SoFi Stadium, em Inglewood, os iranianos fizeram exatamente isso — entraram nos EUA pelo tempo estritamente necessário.

Os bastidores de uma delegação sitiada antes mesmo de entrar em campo Como a del
Os bastidores de uma delegação sitiada antes mesmo de entrar em campo Como a del

O contexto fora das quatro linhas é ainda mais pesado. Protestos antigovernamentais no Irã já duram seis dias, com ao menos oito mortos confirmados em confrontos entre manifestantes e forças de segurança nas cidades de Lordegan, Azna e Kouhdasht. A crise começou pelo colapso da moeda iraniana e rapidamente absorveu demandas mais amplas: parte dos manifestantes pede o fim do governo do líder supremo Ali Khamenei, outro setor clama pela restauração da monarquia.

"Se o Irã atirar e matar violentamente manifestantes pacíficos, o que é de seu costume, os Estados Unidos irão em seu socorro", escreveu Donald Trump na rede Truth Social.

A resposta de um assessor de Khamenei veio em tom de alerta direto: "Trump deveria saber que a interferência dos EUA nesse assunto interno significaria desestabilizar toda a região e destruir os interesses da América." O duelo retórico entre Washington e Teerã, que já dura décadas, ganhou mais um capítulo — desta vez com um Mundial de futebol como pano de fundo.

Deportações, sarampo e o voo que quase não saiu

No domingo 25, o governo Trump enviou cerca de quatorze iranianos de volta ao país num voo de deportação — o primeiro desde que os protestos em larga escala começaram. O episódio tem detalhes que revelam a tensão: dezenas de iranianos haviam sido notificados de que estariam no voo, mas alguns não embarcaram porque foram colocados em quarentena por exposição ao sarampo.

Entre os que escaparam temporariamente estavam dois homens gays, representados pela advogada Bekah Wolf. Ela afirmou à CNN que seus clientes enfrentam "uma probabilidade extremamente alta" de serem executados se forçados a retornar ao Irã. Um deles deixou uma mensagem direta ao presidente americano:

"Se o senhor se importa com as pessoas, por favor, nos deixe ficar. Não somos pessoas más. Amamos este país. Nossa pátria foi tomada. Está arruinada."

O caso dos deportados e o caso dos jogadores iranianos vivem em universos jurídicos distintos, mas habitam o mesmo ambiente político. A delegação esportiva entra nos EUA com salvo-conduto temporário; os cidadãos comuns são devolvidos a um país em colapso. A distância entre esses dois grupos, medida em quilômetros, é quase zero — medida em direitos, é abissal.

O estádio de 70 mil lugares e a torcida que pode virar protesto

Los Angeles abriga uma das maiores comunidades iranianas fora do Irã, tão expressiva que a cidade ganhou o apelido de "Tehrangeles". Para a seleção iraniana, jogar ali poderia parecer vantagem — torcida familiar, idioma comum nos arredores. Mas a realidade é mais complexa: a megalópole californiana foi palco de grandes manifestações no início deste ano contra a repressão do regime, e novas convocações de protesto foram feitas para o entorno do SoFi Stadium, com capacidade para 70 mil pessoas, no dia da estreia.

Deportações, sarampo e o voo que quase não saiu Como a delegação iraniana chegou
Deportações, sarampo e o voo que quase não saiu Como a delegação iraniana chegou

Há quem veja o Team Melli como instrumento de propaganda da República Islâmica — crítica que acompanha seleções de regimes autoritários em Copas desde, pelo menos, a Argentina de 1978. Os jogadores iranianos, individualmente, raramente têm liberdade para se posicionar. Em 2022, no Qatar, parte do elenco recusou-se a cantar o hino nacional nas primeiras partidas, gesto lido como solidariedade aos protestantes do movimento Mulher, Vida, Liberdade. O custo dessa escolha, para alguns deles, veio depois — em forma de pressão institucional e ameaças veladas.

A situação atual é ainda mais volátil. Com oito mortos nas ruas, deportações em andamento e Trump ameaçando intervenção, qualquer gesto dentro de campo — ou a ausência dele — carrega peso político que nenhum técnico consegue neutralizar no vestiário. O futebol, que tanto gosta de se declarar acima da política, está sendo usado como vitrine por todas as partes do conflito.

A próxima partida do Irã no Grupo A da Copa do Mundo está marcada para 20 de junho. Até lá, os protestos em Lordegan, Azna e Kouhdasht continuam, os voos de deportação seguem programados e o relógio — esse suíço de pavio curto — não para.