A última vez que uma seleção europeia chegou à Copa do Mundo com dois títulos continentais consecutivos nas costas e uma sequência invicta de seis jogos em sua Eurocopa mais recente foi a Alemanha de 1974, que havia vencido a Euro 72 e a Copa 74 com a mesma espinha dorsal de Beckenbauer, Müller e Breitner. Cinquenta e dois anos depois, a Espanha de 2026 apresenta credenciais comparáveis — com uma diferença estrutural relevante: a profundidade do banco espanhol atual não tem paralelo histórico direto.

Uma Eurocopa disputada como manual técnico

A Euro 2024, realizada na Alemanha, terminou com a Espanha como a única seleção a vencer todos os seus seis jogos do torneio. O placar agregado foi de 15 gols marcados contra apenas 4 sofridos, e dez jogadores diferentes balançaram as redes ao longo da campanha — dado que sintetiza a distribuição coletiva de responsabilidade ofensiva que Luis de la Fuente cultivou desde que assumiu a equipe principal em dezembro de 2022.

A final contra a Inglaterra, disputada em Berlim no dia 14 de julho de 2024, ilustrou a natureza dessa equipe. Com 1 a 1 no placar e a partida equilibrada, De la Fuente lançou Mikel Oyarzabal — reserva — nos minutos finais. O atacante da Real Sociedad criou e concluiu o gol aos 41 minutos do segundo tempo, selando o 2 a 1 e tornando-se o décimo marcador espanhol naquela Eurocopa. Não foi sorte. Foi o funcionamento de um sistema em que o substituto conhece o papel tão bem quanto o titular.

"Luis de la Quem?" — era a piada que circulava na internet quando De la Fuente foi promovido em 2022 após mais de uma década nas categorias de base da Federação Espanhola. Quase quatro anos depois, a ironia ficou para trás.

De la Fuente e a coluna vertebral construída nas seleções jovens

O ponto que diferencia De la Fuente de técnicos que assumem equipes prontas é biográfico: ele já havia treinado Rodri, Mikel Merino e Fabián Ruiz nas seleções sub-19 e sub-21 espanholas, antes de reencontrá-los na equipe principal. Rodri, hoje considerado o melhor meio-campista do mundo após a Bola de Ouro de 2024, foi campeão da Champions League pelo Manchester City em 2023 e integra o eixo que dá cadência ao jogo espanhol. Merino e Fabián Ruiz funcionam como extensões táticas desse mesmo sistema de posse e pressão alta.

A Espanha encerrou a fase de classificatórias para a Copa do Mundo 2026 com aproveitamento superior a 85%, somando triunfos sobre Dinamarca, Sérvia e Suíça no Grupo A da UEFA. Nenhuma derrota. Nenhum empate com perda de ponto relevante. Para uma equipe que já havia conquistado sua quarta Eurocopa — isolando-se como a maior campeã da história da competição —, a trajetória até o Mundial seguiu a mesma lógica de um processo, não de um pico isolado.

Lamine Yamal e o problema do jogador mais decisivo ter 18 anos

Nenhum nome concentra mais atenção — e mais variáveis de risco — do que Lamine Yamal. O ponta do Barcelona entrou no radar mundial aos 16 anos durante a própria Euro 2024, quando foi eleito melhor jovem do torneio e encerrou a campanha com 4 assistências em 6 jogos. Na temporada 2024/25, ajudou o Barça a conquistar o doblete espanhol — La Liga e Copa do Rei. Na temporada 2025/26, já com 18 anos completos, liderou o Barcelona ao bicampeonato consecutivo de La Liga, aproximando-se de Ousmane Dembélé na votação da Bola de Ouro mais recente.

O problema concreto: Yamal chega ao Mundial com um incômodo persistente na região da virilha, e a comissão técnica espanhola monitora sua condição física semana a semana. A Federação Espanhola não confirma titularidade garantida, e a possibilidade de De la Fuente ter que gerenciar a minutagem do atacante nos jogos da fase de grupos é real. Conforme registrado pelo SportNavo em cobertura anterior, o técnico já sinalizou que não arriscará o jogador além do limite físico, mesmo em partidas decisivas.

"Ele é um jogador fundamental para nós, mas a saúde sempre vem antes do resultado" — declaração atribuída a De la Fuente em entrevista coletiva pré-Copa, segundo agências internacionais.

O efeito cascata sobre os adversários no chaveamento

A Espanha está no Grupo B da Copa do Mundo 2026, ao lado de Croácia, Itália e Marrocos — o que, na prática, significa que qualquer uma dessas seleções precisará bater a equipe mais consistente do futebol europeu recente apenas para avançar às oitavas. A Croácia, semifinalista em 2018 e vice-campeã, chega a 2026 sem Luka Modrić como titular fixo pela primeira vez desde 2006. A Itália, campeã europeia em 2021, não disputa um Mundial desde 2022 e entrou na competição via repescagem. Marrocos, semifinalista em 2022, é o adversário com maior capacidade de criar problema, mas nenhum dos três tem, historicamente, o mesmo volume de recursos coletivos que a Espanha apresenta neste ciclo.

Se a trajetória se confirmar, a Espanha deve enfrentar nas oitavas uma das seleções do Grupo A — que inclui Brasil e Argentina — ou uma terceira colocada de outro grupo. O confronto potencial com o Brasil nas quartas de final, caso ambas avancem, seria o duelo mais aguardado do torneio: as duas únicas seleções do mundo que combinam, simultaneamente, posse técnica qualificada, profundidade de elenco e um técnico com mais de três anos no cargo.

A Espanha entra em campo pela primeira vez no Mundial no dia 15 de junho, contra a Croácia, no SoFi Stadium, em Los Angeles. Com ou sem Yamal nos 90 minutos, De la Fuente tem dez jogadores que já marcaram em uma Eurocopa para escalar no lugar.