A última vez que uma Copa do Mundo perdeu um jogador por impedimento migratório antes mesmo de uma bola rolar foi em 1990, quando a burocracia italiana criou obstáculos para credenciamentos de delegações africanas — um episódio que a Fifa varreu para debaixo do tapete durante décadas. Trinta e seis anos depois, o problema voltou com nome e sobrenome: Thomas Partey, 32 anos, ex-meio-campista do Arsenal, teve o pedido de visto de entrada no Canadá recusado pelo governo canadense e não estará disponível para a estreia de Gana contra o Panamá, marcada para o dia 17 de junho, em Toronto.

A confirmação veio em comunicado oficial da Copa do Mundo: "Fifa pode confirmar que o jogador Thomas Partey não poderá viajar da base da seleção de Gana, em Boston, nos Estados Unidos, para o Canadá para a primeira partida contra o Panamá, em 17 de junho, porque seu pedido de visto foi recusado pelo governo canadense." A entidade fez questão de sublinhar que não participa dos processos migratórios dos países-sede e que a decisão final sobre a entrada de estrangeiros cabe exclusivamente às autoridades locais — uma posição juridicamente correta, mas politicamente confortável demais para uma organização que vendeu esta Copa como o maior torneio da história.

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O que a lei canadense enxerga que a Fifa prefere ignorar

O Canadá possui uma das legislações migratórias mais restritivas do mundo ocidental quando o assunto é histórico criminal ou processos judiciais em aberto. Partey responde na Justiça britânica a sete acusações de estupro e uma de agressão sexual apresentadas pela Polícia Metropolitana de Londres — acusações das quais ele se declarou inocente. O julgamento, inicialmente previsto para novembro de 2026, foi adiado e está programado para começar em 8 de junho de 2027, no Southwark Crown Court.

A legislação canadense, especificamente a Immigration and Refugee Protection Act, permite a recusa de entrada a qualquer estrangeiro considerado inadmissível por razões de segurança ou criminalidade — e isso inclui indivíduos com processos pendentes, mesmo sem condenação. Não é uma novidade criada para este torneio: o Canadá já negou vistos a figuras públicas com situações jurídicas similares em anos anteriores. O que é novo é que isso agora atinge um jogador titular de uma seleção participante da Copa do Mundo, expondo uma lacuna que a Fifa nunca se deu ao trabalho de mapear formalmente.

"Fifa pode confirmar que o jogador Thomas Partey não poderá viajar da base da seleção de Gana, em Boston, nos Estados Unidos, para o Canadá para a primeira partida contra o Panamá, em 17 de junho, porque seu pedido de visto foi recusado pelo governo canadense."

Gana perde seu pulmão no momento mais delicado do Grupo L

Partey soma 57 partidas pela seleção ganesa e era peça central nos planos da comissão técnica para a estreia. Ele esteve em campo no amistoso preparatório contra o País de Gales, disputado no início de junho, o que torna a ausência ainda mais abrupta — o jogador passou pela peneira técnica, mas não pela burocrática. Revelado no futebol ganês e com passagens pelo Atlético de Madrid e pelo Arsenal entre 2020 e 2025, Partey se transferiu para o Villarreal antes desta Copa e chegava ao torneio como o principal elo entre a defesa e o ataque dos Black Stars.

Gana está no Grupo L ao lado de Croácia e Inglaterra — um grupo que, historicamente, não perdoa tropeços na estreia. Basta lembrar que na Copa de 2010, os ganeses precisaram de cada centímetro de qualidade individual para avançar; em 2014, foram eliminados mesmo com um elenco de alto nível. Sem Partey contra o Panamá, o técnico terá de reorganizar um meio-campo que dependia da capacidade do jogador de cobrir espaços e iniciar jogadas — uma função que, na linguagem do futebol europeu dos anos 90, só um Deschamps ou um Albertini conseguiam exercer com a mesma eficiência silenciosa.

Outros jogadores podem enfrentar o mesmo obstáculo no Canadá

O caso de Partey não é isolado na sua estrutura legal — é isolado na sua visibilidade. A Copa do Mundo de 2026 tem três países-sede: Estados Unidos, México e Canadá. Cada um deles possui legislação migratória própria, critérios distintos e soberania plena para decidir quem entra em seu território. A Fifa não tem — e juridicamente não pode ter — poder de interferência nesse processo.

Isso significa que qualquer jogador convocado com processos criminais em aberto, condenações anteriores ou histórico de inadmissibilidade no Canadá pode enfrentar o mesmo obstáculo. A legislação canadense é especialmente sensível a casos envolvendo violência doméstica, agressão sexual e tráfico — categorias que, infelizmente, aparecem com frequência nos dossiês judiciais de jogadores de futebol ao redor do mundo. Seleções com jogos marcados em Toronto ou Vancouver precisariam, tecnicamente, fazer uma triagem migratória prévia de toda a delegação — algo que nenhuma federação parece ter feito com o rigor necessário.

A comparação histórica mais precisa talvez seja com a Copa de 1994, nos Estados Unidos, quando o próprio país-sede utilizou critérios de entrada para dificultar o acesso de determinadas delegações e jornalistas. Naquele torneio, a Fifa também recuou, alegando que soberania nacional estava fora de seu alcance. A diferença é que em 1994 o problema ficou nos bastidores. Em 2026, chegou ao gramado.

A Fifa entre a soberania nacional e sua própria credibilidade

Há uma ironia considerável no fato de a Fifa ter construído toda a narrativa desta Copa em torno da inclusão, da diversidade e do futebol como linguagem universal — e agora se ver obrigada a emitir um comunicado dizendo, essencialmente, que não tem nada a ver com isso. A entidade tem instrumentos para negociar acordos de facilitação migratória com países-sede: fez isso com a Rússia em 2018 e com o Qatar em 2022, onde vistos especiais foram criados para delegações e torcedores. Por que o mesmo protocolo não foi estendido para abranger situações de inadmissibilidade legal nos três países-sede desta edição é uma pergunta que nenhum dirigente respondeu até agora.

Partey, que se declarou inocente de todas as acusações e cujo julgamento só começa em junho de 2027, é tecnicamente um homem sem condenação. Mas a lei canadense não exige condenação para barrar uma entrada — exige apenas a existência de acusações formais em determinadas categorias. Esse é o nó que a Fifa não consegue desatar com comunicados.

Com a estreia de Gana marcada para o dia 17 de junho em Toronto, vale acompanhar nas próximas horas se a federação ganesa tentará algum recurso de última hora junto às autoridades canadenses — ou se Partey se juntará ao grupo apenas para os jogos disputados nos Estados Unidos, contra Croácia e Inglaterra, onde sua entrada não encontra os mesmos obstáculos legais.