Era março de 2023, e o Brasil ainda cheirava a derrota para a Croácia no Catar. O técnico interino Ramon Menezes escalou nove estreantes em Tânger, sem Neymar, sem um projeto claro — e perdeu por 2 a 1 para um Marrocos que acabara de sair das semifinais do Mundial. Aquele resultado nunca foi tratado como tragédia. Deveria ter sido.

O que aquela noite em Tânger revelou sobre o Marrocos

O time de Walid Regragui que venceu o Brasil em 2023 não era uma surpresa isolada. Era a consolidação de um modelo que chegaria ao mesmo patamar técnico em 2026, agora sob o comando de Mohamed Ouahbi. A seleção marroquina chega ao MetLife Stadium, em Nova Jersey, como quarta colocada no ranking FIFA, com Achraf Hakimi como estrela principal e Brahim Díaz, do Real Madrid, como motor criativo. Dois cortes por lesão — o zagueiro Nayef Aguerd, do Olympique de Marseille, e o atacante Abde Ezzalzouli, do Real Betis — abalaram o elenco, mas o lateral Noussair Mazraoui, do Manchester United, se recuperou de lesão no ombro e foi liberado para jogar. A profundidade do elenco marroquino, construída ao longo de quatro anos com base em jogadores da elite europeia, torna aquela vitória de 2023 menos acidente e mais tendência.

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O técnico Ouahbi não minimizou o adversário. Em entrevista oficial à Fifa, foi direto:

"O Brasil é um time e um país que respira o jogo. Eles têm jogadores de qualidade top, um técnico de nível mundial. Vai ser um jogo enorme."

Mas ao lado do elogio veio a declaração de intenção: "Pode ser que entremos nesse jogo com a intenção clara de mostrar que o Marrocos também importa. O Marrocos está aqui, importa e pretende mostrar isso em campo por muitos anos." Não é retórica de vestiário. É a mesma mentalidade que eliminou Portugal e Espanha em 2022.

Quem sobrou de 2023 e o que Ancelotti aprendeu sem estar lá

Dos 11 titulares que o Brasil mandou a campo naquela derrota em Tânger — Weverton, Emerson Royal, Éder Militão, Ibañez e Alex Telles; Casemiro, Andrey Santos e Lucas Paquetá; Rodrygo, Vini Jr. e Rony —, apenas cinco estão na Copa do Mundo de 2026: Weverton, Casemiro, Paquetá, Vini Jr. e Ibañez. Rony, que atuou como centroavante naquela partida, não foi convocado. Andrey Santos, revelado pelo Vasco e hoje no Chelsea, participou de toda a preparação sob Ancelotti mas ficou fora da lista final.

A escalação que Carlo Ancelotti vem repetindo nos treinos desta semana, segundo a ESPN, é: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Paquetá, Raphinha, Vini Jr. e Matheus Cunha. As quatro novidades em relação ao amistoso contra o Egito — onde o Brasil venceu por 2 a 1 — são Danilo, Gabriel Magalhães, Alex Sandro e Matheus Cunha, que entram nos lugares de Wesley (cortado por lesão), Ibañez, Douglas Santos e Igor Thiago.

Ancelotti foi objetivo na coletiva após o jogo com o Egito: "Eu tenho a escalação inicial para jogar contra Marrocos. A ideia é clara. Acho que a dupla Vini Jr. e Raphinha funcionou muito bem. Combinaram bem, tivemos oportunidades naquela posição." A escolha por Matheus Cunha como centroavante, em vez de um atacante mais fixo, é o ponto mais relevante da escalação. Cunha tem mobilidade para pressionar a saída de bola adversária — exatamente o que Marrocos explorou em 2023 quando o Brasil ficou passivo no meio-campo.

A métrica que Ancelotti não pode ignorar antes do apito

Há um número que resume o risco tático desta estreia: o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Marrocos nas eliminatórias africanas ficou consistentemente abaixo de 8, o que, em linguagem simples, indica que a equipe de Ouahbi pressiona com altíssima intensidade e concede pouquíssimo espaço para a construção adversária. Para um Brasil que quer jogar com a bola, especialmente com Bruno Guimarães e Paquetá se movimentando entre linhas, esse dado é o maior alerta. Em matéria do SportNavo publicada durante a preparação, já se apontava que a transição defensiva seria o principal ponto de atenção de Ancelotti contra equipes de alta intensidade.

O próprio técnico do Marrocos em 2023, Walid Regragui — que comandou a seleção africana até recentemente —, já havia declarado ao Globo que via o Brasil mais preparado com Ancelotti: "O Carlo vai dar serenidade e tranquilidade para a equipe. Mas em um jogo tudo pode acontecer." Regragui sabe do que fala. Ele estava no banco quando Marrocos venceu o Brasil naquele amistoso. O atual técnico Ouahbi herdou o mesmo modelo e o aprimorou.

A Copa de 2026 é o maior desafio da carreira de Ancelotti, segundo análise do jornal espanhol Marca. Aos 67 anos, o italiano carrega o peso de 24 anos sem título mundial e a responsabilidade de uma geração de atletas talentosos que nunca venceram nada juntos. Raphinha sintetizou bem o equilíbrio necessário: "Temos muito poder de ataque, mas não se ganha uma Copa do Mundo só com ataque." A frase vale como diagnóstico e como alerta.

Brasil e Marrocos se enfrentam neste sábado (13), às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, pela primeira rodada do Grupo A da Copa do Mundo de 2026. O único precedente em Copa entre as seleções é a goleada brasileira por 3 a 0 na França em 1998, com gols de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto — mas aquele Marrocos tinha xG próximo de zero e nenhuma das características do time atual. Se Alex Sandro, aos 34 anos, tiver de enfrentar Hakimi no lado direito marroquino durante 90 minutos, o que Ancelotti faz no intervalo caso o lateral esteja sendo superado?