Confesso: eu errei sobre essa Holanda em 2022. Achei que a eliminação nos pênaltis contra a Argentina era o sinal de um time sem identidade ofensiva, com xG baixo e dependente demais de transições rápidas. Hoje, assistindo ao 5 a 1 sobre a Suécia, entendo que eu estava medindo o time errado com a régua errada.

A Holanda chegou a 14 jogos consecutivos sem derrota em Copas do Mundo, superando um recorde que o Brasil carregou por exatos 60 anos. A sequência brasileira — 13 partidas invictas entre 1958 e 1966, com 11 vitórias e 2 empates — atravessou dois títulos mundiais consecutivos e só foi interrompida por uma derrota de 3 a 1 para a Hungria na fase de grupos da Copa de 1966. Ninguém tinha chegado perto desse número em seis décadas.

O Brasil de 1958 a 1966 e a dimensão real do recorde

Para entender o peso do que a Holanda acabou de fazer, é preciso contextualizar o que foi aquela sequência brasileira. O Brasil de Pelé, Garrincha e Didi venceu os seis jogos da Copa de 1958 na Suécia e os seis da Copa de 1962 no Chile — sem perder um único minuto sequer. Depois, estreou com vitória em 1966 antes de cair. Treze jogos. Dois títulos. Uma geração inteira de futebol.

A diferença entre 13 e 14 partidas parece pequena no papel, mas é do tamanho da distância entre Recife e São Paulo — algo que você só dimensiona quando para para medir. São 60 anos de história que separam as duas marcas, e a Holanda precisou de jogos em três edições diferentes do torneio para chegar lá: 2014, 2022 e agora 2026.

"Ficamos duas vezes à frente e deixamos escapar. Isso não pode acontecer de novo", disse Ronald Koeman nos bastidores após o empate em 2 a 2 com o Japão, na estreia desta Copa.

A frase de Koeman é reveladora porque mostra que o técnico não tratou o empate como resultado aceitável — e a resposta da equipe contra a Suécia foi imediata. O jovem Brobbey, de 24 anos, abriu o placar aos 5 minutos após cruzamento de Gakpo, e voltou a marcar aos 16, também de cruzamento. A Holanda já construía o recorde com eficiência clínica.

O Brasil de 1958 a 1966 e a dimensão real do recorde Como a Holanda superou 60 a
O Brasil de 1958 a 1966 e a dimensão real do recorde Como a Holanda superou 60 a

O que os números revelam sobre essa Holanda em 2026

A sequência holandesa não é feita de resultados apertados. Olhando para o padrão de jogo desta Copa, alguns dados chamam atenção:

  • xG (expected goals): A Holanda tem gerado chances de alta qualidade, com Brobbey e Gakpo ocupando posições de finalização dentro da área — o tipo de movimento que eleva o xG por chute acima de 0,15, bem acima da média de Copa.
  • Progressive passes: O sistema de Koeman usa passes progressivos para quebrar linhas rapidamente. Gakpo funciona como o eixo dessa progressão, conectando meio e ataque com frequência acima da média do torneio.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): Contra a Suécia, a Holanda pressionou alto no primeiro tempo, com PPDA estimado abaixo de 8 — o que indica uma pressão intensa, forçando erros suecos na saída de bola.

A goleada por 5 a 1 não foi acidente. Foi a expressão de um time que dominou os três setores: criação, progressão e finalização. Gakpo marcou no início do segundo tempo após novo cruzamento, e a Suécia nunca conseguiu sustentar a reação que esboçou no fim do primeiro tempo.

A Holanda pode ser o adversário do Brasil no mata-mata

Aqui mora a contra-leitura que precisa ser dita: a sequência de 14 jogos invictos esconde uma vulnerabilidade estrutural. A Holanda foi eliminada nos pênaltis em 2014 (contra Argentina) e em 2022 (novamente contra Argentina, após empatar em 2 a 2 nas quartas). Pênaltis não entram no cômputo de derrotas — e é exatamente por isso que o recorde existe. Se o critério fosse eliminações, o número seria diferente.

Isso não diminui o feito, mas coloca a Holanda numa posição curiosa: ela é historicamente boa em não perder no tempo regulamentar, mas ainda não provou que consegue fechar jogos decisivos quando o adversário tem qualidade para forçar a prorrogação. O empate em 2 a 2 com o Japão na estreia desta Copa — com Van Dijk e Summerville marcando, mas Nakamura e Kamada respondendo — reacendeu essa dúvida.

A síntese honesta é esta: a Holanda é um time de alto nível, com xA (expected assists) consistente de Gakpo, capacidade de pressing e um Brobbey que está jogando como o atacante mais perigoso do torneio até aqui. O recorde é legítimo. Mas a invencibilidade em tempo regulamentar e a capacidade de vencer um torneio são coisas diferentes — e a Copa ainda vai exigir que a Holanda responda à segunda pergunta.

Líder do Grupo F, a Holanda pode enfrentar o Brasil no mata-mata da Copa do Mundo 2026. Se isso acontecer, a Seleção terá pela frente um time que não perde há 14 jogos em Mundiais — e que acabou de golear exatamente a seleção que o Brasil poderia ter como adversária alternativa no mesmo grupo. A próxima rodada do Grupo F define os cruzamentos do mata-mata: se o Brasil avançar como esperado, o encontro com os holandeses deixa de ser hipótese e vira data marcada no calendário.

A pergunta que fica: se Holanda e Brasil se encontrarem nas oitavas, você acha que a Seleção tem o perfil ofensivo necessário para forçar os pênaltis — e aí sim testar o ponto fraco histórico da Laranja Mecânica?