Não é o estilo flamboyant da Laranja Mecânica que torna a Holanda ameaçadora neste domingo em Dallas — é a disciplina coletiva que Ronald Koeman instalou ao longo de um ciclo de quatro anos. Esse reposicionamento muda completamente a pergunta sobre o jogo das 17h (de Brasília) no AT&T Stadium, em Arlington, Texas, pela 1ª rodada do Grupo F da Copa do Mundo: a questão não é se a Holanda vai dominar, mas se o Japão — menor no ranking, maior em cadência — vai deixar espaço para esse domínio acontecer.

O peso de 1974 e o que Koeman construiu sobre essas ruínas

A sombra de Johan Cruyff nunca some de uma seleção holandesa. Desde aquela final perdida em Munique, em 1974, a Holanda acumulou outros dois vice-campeonatos — em 1978 e em 2010, quando cedeu à Espanha de Iniesta no último suspiro da prorrogação em Johanesburgo — e chegou a este Mundial com 30 vitórias, 14 empates e 11 derrotas em toda sua história em Copas. Números respeitáveis de uma seleção que nunca encontrou o caminho para a taça.

Koeman manteve a espinha dorsal do time que parou nas quartas de final em 2022, eliminado pela Argentina. Virgil van Dijk lidera a zaga com Micky van de Ven; Frenkie de Jong e Ryan Gravenberch controlam o meio com passes curtos e pressão alta; Cody Gakpo e Donyell Malen flanqueiam o ataque. Memphis Depay, que balançou as redes em oito dos oito jogos das Eliminatórias Europeias, aparece como referência ofensiva de peso — a provável escalação mantém Cody Gakpo centralizado, com Summerville e Malen nas pontas. A seleção não perdeu nos últimos dez jogos antes da competição, sofrendo apenas uma derrota nesse período.

"A campanha nas eliminatórias foi sólida, mas o Mundial é outra dimensão", reconhece o entorno técnico holandês, consciente de que os 11 de Koeman terão pela frente um adversário que não segue padrões europeus.

O Japão que chegou a Dallas sem três dos seus melhores jogadores

Aqui reside a tensão real desta partida. O técnico Hajime Moriyasu acumulou seis vitórias consecutivas antes da Copa, incluindo triunfos sobre seleções de tradição reconhecida, e chegou ao torneio com um dos elencos mais tecnicamente sofisticados da história japonesa. Mas Dallas recebe um Japão mutilado: Kaoru Mitoma e Takumi Minamino, peças centrais do esquema ofensivo de Moriyasu, estão fora por lesão. O volante Wataru Endo foi cortado e anunciou aposentadoria da seleção. Três ausências que mudariam o plano de qualquer treinador do mundo.

O que sobrou ainda assusta. Takefusa Kubo, formado nas categorias de base do Real Madrid e hoje figura do Real Sociedad, organiza o jogo pela direita. Junya Ito garante velocidade no contra-ataque. Daichi Kamada opera entre linhas com inteligência técnica acima da média asiática. Ayase Ueda é o centroavante que finaliza com frieza. A escalação provável de Moriyasu — Suzuki; Watanabe, Taniguchi e Hiroki Ito; Kamada, Sano, Ritsu Doan e Keito Nakamura; Kubo, Junya Ito e Ueda — entrega um bloco compacto, pensado para explorar transições rápidas.

O peso de 1974 e o que Koeman construiu sobre essas ruínas Como a Laranja Mecâni
O peso de 1974 e o que Koeman construiu sobre essas ruínas Como a Laranja Mecâni
"O objetivo é sempre superar a barreira das oitavas", declarou Moriyasu antes da viagem aos Estados Unidos, referindo-se às quatro eliminações japonesas nesta fase — em 2002, 2010, 2018 e 2022. Para um país que disputa sua oitava Copa consecutiva, esse teto começa a pesar.

O histórico favorece a Holanda, mas o contexto complica o cálculo

Nos três confrontos diretos entre as seleções, a Holanda somou duas vitórias e um empate — retrospecto que sustenta o favoritismo. A diferença no ranking da FIFA aprofunda esse argumento: holandeses na sétima posição, japoneses na décima oitava. Mas rankings não jogam futebol no calor do Texas, e o Japão de 2026 é estruturalmente diferente das versões que os europeus já enfrentaram.

O Grupo F tem ainda outras duas seleções, o que torna cada ponto desta estreia especialmente precioso. Para a Holanda, uma vitória consolida o status de favorita ao primeiro lugar e abre o caminho para a fase eliminatória que a seleção almeja há décadas. Para o Japão, mesmo uma derrota por margem pequena pode ser administrada — o esquema de Moriyasu já demonstrou capacidade de pontuar contra grandes seleções ao longo do ciclo classificatório asiático. A missão imediata dos japoneses é não entrar em colapso defensivo nas primeiras duas alturas do jogo, período em que a pressão holandesa costuma ser mais intensa.

Quem quiser acompanhar o duelo ao vivo tem opções em TV aberta pela Globo e pelo SBT, em TV fechada pelo Sportv e pelo N Sports, e em streaming pela CazéTV (YouTube), GeTV e Globoplay — uma cobertura ampla que, segundo levantamento do SportNavo, reflete o interesse crescente do público brasileiro por jogos que não envolvem a Seleção nesta Copa. É o mesmo cenário que o Japão viveu em 2022, quando entrou como zebra no grupo da Alemanha e da Espanha e venceu as duas — só que agora a aposta é diferente, porque os desfalques são reais e o adversário conhece o roteiro.