A última vez que uma seleção com quatro títulos mundiais entrou numa Copa sem ser lembrada como favorita, o mundo ainda discutia se a Alemanha de Beckenbauer tinha envelhecido cedo demais. Hoje, no calor úmido de Houston, a história parece se repetir — só que agora envolve dois gigantes ao mesmo tempo. Brasil e Alemanha, donos de nove taças entre si, chegam à Copa do Mundo de 2026 sem o peso do favoritismo nas costas. E tem gente que acha isso um erro grave.
O veterano que não tem medo de dizer o que pensa
Dick Advocaat tem 78 anos, três Copas do Mundo no currículo e zero paciência para eufemismos. O técnico de Curaçao — a pequena ilha caribenha que disputa seu primeiro Mundial na história — sentou diante dos jornalistas neste sábado, 13 de junho, e não hesitou quando o assunto chegou ao favoritismo. Para ele, a narrativa que coloca Argentina, Espanha, França e Inglaterra no topo da lista ignora dois nomes que não deveriam ser esquecidos tão facilmente.
"Sim, certamente subestimados. Acho que a Alemanha tem um ótimo entrosamento em todas as posições. E o Brasil também. Mas qualquer adversário deveria ser capaz de dificultar as coisas, não importa o quão bom seja. Se tiver um bom plano e souber onde se posicionar. Quem realmente se tornará campeão mundial? A Alemanha certamente é páreo para eles", disse Advocaat.
A declaração tem peso extra vindo de quem enfrenta os alemães já no domingo, dia 14, às 14h (horário de Brasília), pelo Grupo E no NRG Stadium. Advocaat não está elogiando o adversário por gentileza diplomática — ele está descrevendo o que viu nos treinos, nas análises de vídeo, nos movimentos de uma seleção que chegou ao torneio com entrosamento sólido em todas as linhas.
Nagelsmann ouve, sorri e coloca o trabalho na frente do rótulo
Do outro lado da equação, Julian Nagelsmann também encarou os repórteres neste sábado no NRG Stadium. Com 38 anos, ele é o técnico mais jovem desta edição — separado por exatos 40 anos de Advocaat, o mais velho. O alemão, em sua primeira Copa do Mundo como treinador, não demonstrou qualquer incômodo com a posição modesta da Alemanha nas projeções. Décima colocada no ranking da Fifa, atrás de Argentina, Espanha, França e Inglaterra, a Mannschaft não aparece nas listas dos favoritos dos especialistas. Nagelsmann tratou o assunto com uma clareza quase cirúrgica.
"Não seremos mencionados como uma equipe favorita para este torneio, é um fato. O nosso trabalho é atuar de forma perfeita em cada jogo. Nós nunca venceremos um jogo por sermos favoritos ou não — isso não ganha partidas. Sempre vencemos quando temos um desempenho perfeito. Se jogarmos uma Copa do Mundo perfeita agora, provavelmente em quatro anos seremos mencionados como uma das seleções favoritas", afirmou o técnico alemão.
A resposta diz muito sobre a mentalidade que Nagelsmann construiu no ciclo pós-eliminação precoce de 2022 no Catar. Sem o fardo do favoritismo, a Alemanha entra em cada jogo com a liberdade de quem não tem nada a perder — e tudo a provar. O técnico ainda arrancou risos da sala quando brincou sobre a diferença de idade entre ele e Advocaat: "Eu amo o meu trabalho, mas espero ter algumas coisas diferentes para fazer nesta idade."
O que nove títulos mundiais valem no ranking atual
Os números contam uma história curiosa. Brasil e Alemanha somam juntos nove taças da Copa do Mundo — cinco para o Brasil, quatro para a Alemanha. Nenhuma outra combinação de duas seleções chega perto desse número. No entanto, o ranking Fifa atual coloca o Brasil apenas na sexta posição e a Alemanha na décima, atrás de seleções que ainda não conquistaram sequer um título mundial. A Argentina lidera, seguida por Espanha, França e Inglaterra — países que carregam no máximo dois troféus entre si.
- Brasil — 6º no ranking Fifa, 5 títulos mundiais
- Alemanha — 10º no ranking Fifa, 4 títulos mundiais
- Argentina — 1ª no ranking Fifa, 3 títulos mundiais
- Espanha — 2ª no ranking Fifa, 1 título mundial
O ranking Fifa reflete desempenho recente em partidas oficiais, não legado histórico — e é exatamente aí que mora o argumento de Advocaat. Uma seleção que acumula décadas de cultura vencedora, estrutura técnica consolidada e jogadores de elite nas principais ligas do mundo não se torna fraca por ter oscilado em um ciclo de quatro anos.
O efeito cascata para os adversários no grupo
Para as seleções que dividem grupo com Brasil e Alemanha, a narrativa do "subestimado" tem um efeito prático imediato: qualquer ponto conquistado contra um desses times vira manchete. Curaçao, Equador e Costa do Marfim — adversários da Alemanha no Grupo E — sabem que uma vitória ou empate contra os alemães valeria mais do que o resultado em si. O mesmo vale para os rivais do Brasil. Esse contexto pode gerar exatamente o tipo de motivação extra que transforma zebras em realidade dentro de campo.

Advocaat, aliás, demonstrou conhecer bem esse mecanismo. Ao elogiar o entrosamento alemão, ele também sinalizou aos seus jogadores o nível de dificuldade que os espera — e a grandeza do feito caso consigam ao menos competir de igual para igual. Curaçao estreia na Copa do Mundo pela primeira vez na história, e o técnico veterano escolheu usar o favoritismo alheio como combustível, não como desculpa.
A estreia que vai além do placar
Domingo, 14 de junho, às 14h de Brasília, o NRG Stadium em Houston vai receber o encontro entre o técnico mais velho e o mais jovem desta Copa. Advocaat e Nagelsmann, 40 anos de diferença, filosofias distintas, mas um ponto em comum: os dois chegaram à véspera do jogo falando sobre o mesmo tema sem que ninguém precisasse forçar o assunto. O favoritismo — ou a falta dele — virou o debate central antes mesmo da bola rolar.
É o mesmo cenário que a Alemanha viveu em 2014, quando chegou ao Brasil sendo tratada como coadjuvante diante de uma Seleção que jogava em casa — e terminou levantando a taça no Maracanã com um 7 a 1 que ainda ecoa. Só que agora a aposta é diferente: desta vez, são dois gigantes que precisam provar juntos que memória e qualidade técnica ainda pesam mais do que algoritmos de favoritismo.








