"Ele estava jogando muito bem. É uma perda enorme para nós." A frase, atribuída ao técnico Steve Clarke após o amistoso desta sexta-feira em Glasgow, sintetiza o que a eliminação de Billy Gilmour representa para a Escócia antes de sua primeira Copa do Mundo em 28 anos. Uma lesão no joelho encerrou a participação do meia do Napoli no torneio antes mesmo de ele pisar em solo norte-americano — e reacende um debate estrutural sobre como a seleção escocesa se sustenta quando seu principal organizador de jogo desaparece.
A tese dominante sobre Gilmour e por que ela precisa ser revisada
A narrativa mais difundida no futebol britânico é que Gilmour é insubstituível — o único escocês capaz de operar como pivô técnico num meio-campo de marcação intensa. Há fundamento empírico nessa leitura: o meia de 23 anos foi eleito o melhor jogador em campo no empate 0 a 0 contra a Inglaterra na Eurocopa de 2020, antes de ser cortado do jogo decisivo por Covid-19. Sua trajetória é marcada por interrupções cruéis em torneios. A ausência, portanto, não é apenas tática — carrega um peso simbólico que pesa sobre a Tartan Army como uma maldição recorrente.
Contudo, a leitura de que a Escócia entra em colapso sem Gilmour ignora dados concretos do amistoso desta semana. Contra Curaçao, que ocupa posição no ranking FIFA apenas um degrau abaixo do Haiti — próximo adversário escocês na fase de grupos —, a equipe de Clarke marcou quatro gols e administrou a partida com segurança após o intervalo, mesmo diante de um adversário reduzido a dez jogadores por mais de 45 minutos. O resultado final de 4 a 1 foi construído a partir de um sistema que priorizou a profundidade ofensiva em detrimento da posse elaborada que Gilmour personificava.
Scott McTominay, John McGinn e Lewis Ferguson sequer participaram do amistoso — chegaram ao grupo apenas na sexta-feira. Isso significa que Clarke testou uma configuração experimental, com George Hirst e Lawrence Shankland formando dupla de ataque, e ainda assim a equipe funcionou. A pergunta que esse dado levanta não é se a Escócia sobrevive sem Gilmour, mas se Clarke vai aproveitar a oportunidade para redesenhar o meio-campo de forma permanente.
O que o 4 a 1 sobre Curaçao realmente revela sobre as alternativas táticas
O início do amistoso em Hampden Park foi, para usar uma metáfora do compasso da Lapa numa quinta-feira de carnaval fora de época, descoordenado e sem ritmo. Tahith Chong, meia do Sheffield United, aproveitou falha de marcação de Scott McKenna para marcar um gol que deixou a torcida escocesa em silêncio. A jogada foi cirúrgica: primeiro toque de qualidade na linha do meio-campo, arrancada que deixou McKenna e John Souttar para trás, finalização precisa. Curaçao humilhava Hampden.
A reação escocesa, porém, foi instrutiva. Com Craig Gordon — goleiro de 43 anos que parecia ter encerrado sua carreira internacional em 2024 — na meta, e com um esquema de dois atacantes que Clarke sinalizou como possível para a estreia contra o Haiti, a equipe encontrou soluções coletivas que não dependiam de um único criador. A vitória por 4 a 1 não apaga as fragilidades do primeiro tempo, mas demonstra capacidade de resposta.
A ausência de Gilmour abre espaço para três configurações distintas. A primeira seria usar McTominay como meia de ligação mais recuado, explorando sua capacidade física e de progressão de bola — algo que o Manchester United nunca lhe permitiu fazer de forma sistemática, mas que a seleção escocesa pode demandar. A segunda seria apostar em McGinn como motor central, com função mais box-to-box. A terceira, mais ousada, seria manter dois atacantes e operar com um meio-campo de três jogadores de perfil mais dinâmico, sacrificando a construção elaborada em favor da transição rápida.

"Temos jogadores de qualidade para cobrir essa posição. Vamos ver como os próximos dias se desenvolvem", disse Clarke, segundo relatos do The Guardian, sem confirmar qual das alternativas vai adotar.
A síntese que o Haiti vai forçar Clarke a responder antes de 20 de junho
A contra-leitura mais honesta sobre a situação escocesa é que a lesão de Gilmour expõe uma dependência estrutural que existia antes mesmo de ele se machucar. Seleções que constroem seu jogo em torno de um único organizador são vulneráveis não apenas à lesão, mas à marcação individual — algo que treinadores competentes exploram sistematicamente em fases eliminatórias. O Haiti, que retornou à Copa do Mundo 52 anos depois sob o comando de Patrice Migné, vai estudar esse vazio.
A síntese que emerge da análise dos dois lados é que a Escócia tem material humano para suprir a ausência de Gilmour, mas precisa de uma decisão tática clara de Clarke — e precisa dela rápido. A estreia no Grupo C acontece contra o Haiti, e a janela de adaptação é estreita. McTominay e Ferguson juntos no meio-campo oferecem volume físico; McGinn oferece leitura de jogo e experiência em grandes torneios. A combinação dos três, com um dos atacantes recuando para dar equilíbrio, pode ser a solução mais pragmática.
O que o amistoso contra Curaçao não respondeu — e que a estreia contra o Haiti vai exigir — é se a Escócia consegue manter a posse e controlar o ritmo sem um meia técnico de referência. Gilmour fazia isso com naturalidade. Seus substitutos são mais atléticos, mais verticais, menos pacientes. Contra o Haiti, que joga em bloco baixo e aposta na transição, essa mudança de perfil pode até ser uma vantagem. Contra adversários mais qualificados no Grupo C, a ausência vai pesar de forma diferente.
"Voltamos a uma Copa do Mundo depois de 28 anos. Nada disso é pequeno para nós", declarou um dos capitães escoceses, segundo cobertura do The Guardian, capturando a dimensão emocional de um torneio que a Tartan Army não via desde a França 1998.
A Escócia estreia na Copa do Mundo contra o Haiti no Grupo C. Clarke tem os próximos dias para definir quem ocupa o espaço deixado por Gilmour — e a resposta que ele der vai ditar não apenas o resultado do primeiro jogo, mas a coerência tática da seleção ao longo de todo o torneio. Se McTominay, McGinn e Ferguson conseguirem distribuir entre si as funções que um único jogador exercia, a Escócia pode surpreender. Se Clarke hesitar e tentar replicar o perfil de Gilmour com um substituto de características similares mas menor qualidade, a lacuna vai aparecer cedo. Qual dos três meias você apostaria como titular na estreia contra o Haiti — e por quê?








