Mudou. Em algum momento entre o pico de 6,9 milhões de espectadores simultâneos que acompanharam Brasil x Croácia pela Copa do Mundo de 2022 e a tarde em que a LiveMode assinou o contrato com a FIFA para 2026, o eixo das transmissões esportivas no Brasil se deslocou de forma permanente. A Globo, que detinha os direitos do torneio desde 1970 — 56 anos de monopólio sobre a maior audiência do futebol mundial —, chega ao Mundial deste ano sem exclusividade em nenhuma das 104 partidas e fora de 52 delas por completo.
O experimento de 2022 que se tornou uma operação de R$ 2 bilhões
A história começa com improviso. Semanas antes da Copa do Catar, a LiveMode — empresa fundada por Edgar Diniz e Sergio Lopes para atuar na distribuição de direitos esportivos — identificou uma janela nos direitos digitais disponíveis e decidiu testar um formato ainda sem nome definido. O canal da CazéTV no YouTube entrou no ar no dia da estreia do Brasil. O que veio depois surpreendeu os próprios criadores: a transmissão de Brasil e Croácia atingiu 6,9 milhões de espectadores ao mesmo tempo, número que supera a audiência média de qualquer jornal televisivo de horário nobre no Brasil naquele período.
"Não tínhamos noção do potencial. Vimos que havia uma demanda gigante de pessoas querendo assistir a jogos de uma forma diferente", disse Casimiro Miguel em entrevista recente à Exame.
Quatro anos depois, o experimento virou estrutura. A LiveMode fechou acordo com a FIFA para transmitir todos os 104 jogos da Copa de 2026, com 52 partidas em caráter exclusivo — sem nenhuma outra emissora ou plataforma no Brasil. A receita estimada com as 11 cotas de patrocínio já fechadas chega a R$ 2 bilhões, com marcas como Ambev, Coca-Cola, Itaú, Mercado Livre e Vivo no portfólio. No mercado, circula a informação de que o Google teria participado do financiamento do acordo com a FIFA — nenhuma das partes confirma, mas a escala do investimento torna a hipótese plausível.

A arquitetura de uma transmissão que a Globo não conseguiu replicar
O modelo da CazéTV não nasceu de uma estratégia de mídia convencional. Nasceu de uma linguagem. Casimiro Miguel construiu audiência durante a pandemia com reações ao vivo, comentários fora do roteiro e uma proximidade com o espectador que a televisão aberta, por estrutura e por cultura, nunca foi capaz de oferecer. A LiveMode identificou nessa audiência — jovem, engajada, habituada à interação em tempo real — um mercado que existia antes mesmo de ter um produto à altura.
"A Copa de 2026 marca uma evolução no hábito de consumo. O público não apenas assiste, ele acompanha, comenta e participa em tempo real. A transmissão passa a dialogar com esse comportamento, em vez de funcionar de forma isolada", afirmou Christian Mutzig, sócio da LiveMode.
Para a Copa de 2026, a plataforma opera em escala diferente de qualquer edição anterior. O canal ficará ao vivo por 24 horas durante todo o torneio, com quatro programas diários: edições especiais do Geral CazéTV e do Copazona, mais duas estreias — o Aqui É Brasil, voltado à seleção brasileira, e o Live da Madruga, que revisita o formato de reações ao vivo que deu origem ao projeto. As partidas do Brasil serão narradas por Luis Felipe Freitas, o Luisinho, que a empresa pretende posicionar como "a voz do hexa" por meio de campanhas nas redes sociais. Todas as partidas serão transmitidas em 4K.
O que sobrou para a Globo e o que isso representa para o mercado
A Globo havia transmitido a Copa do Mundo de forma ininterrupta desde o México de 1970 — 14 edições consecutivas, seis títulos mundiais do Brasil, a tragédia de Belo Horizonte em 2014, tudo passando pelo sinal da emissora. Mesmo em 1982, quando o Brasil de Telê Santana perdeu para a Itália na Espanha em uma das maiores decepções do futebol nacional, era a Globo quem narrava. Esse ciclo se encerra em 2026 não por derrota em uma negociação pontual, mas por uma transformação estrutural no comportamento do consumidor de mídia esportiva.
Conforme apuração do SportNavo, a mudança não é apenas tecnológica — é demográfica. A CazéTV construiu uma base de espectadores que, em larga medida, havia se desconectado da transmissão tradicional. Reintegrá-los ao futebol com uma linguagem própria do ambiente digital foi o movimento que justificou o investimento da FIFA em uma plataforma sem canal de televisão. O fato de que 52 jogos serão exibidos exclusivamente no YouTube representa, em termos práticos, a maior ruptura no modelo de distribuição de direitos esportivos no Brasil desde a criação do pay-per-view no futebol nacional nos anos 1990.
"Conseguimos um nível de audiência e de construção de comunidade que demonstra que o esporte tem que entrar no mundo digital com uma linguagem própria", disse Sergio Lopes, cofundador da LiveMode.
A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, com sede nos Estados Unidos, Canadá e México. O Brasil estreia no torneio com transmissão garantida na CazéTV, via YouTube, sem custo para o espectador. Para a Globo, que ainda divide as demais 52 partidas com a plataforma digital, a Copa de 2026 marca o primeiro Mundial em mais de meio século em que a emissora não é o único endereço do torcedor brasileiro.








