Todo mundo já sabe que a Inglaterra é favorita. O que a maioria não parou para calcular é o quanto o esquema de Carlos Queiroz deixa espaços laterais que Thomas Tuchel passou os últimos dois anos aprendendo a explorar. O jogo desta terça-feira (23), no Gillette Stadium em Boston, às 17h (de Brasília), pela segunda rodada do Grupo L da Copa do Mundo, tem uma narrativa oficial — e uma leitura tática muito mais interessante por baixo dela.
A narrativa que circula sobre Gana subestima o que Queiroz armou
A versão que circula é simples: Gana venceu o Panamá por 1 a 0 num jogo feio, com gol nos acréscimos de Yirenkyi, e chega ao duelo como azarão sem grandes recursos. Essa leitura ignora o que Carlos Queiroz — o mesmo que transformou o Irã numa muralha defensiva na Copa de 2022 — costuma fazer com blocos compactos em 4-4-2 baixo. A linha de quatro de Gana, com Jonas Adjetey e Jerome Opoku no centro, absorveu bem a pressão panamenha e saiu do jogo sem sofrer um único chute no alvo. Isso não é acidente — é desenho.
O problema para Queiroz é que o Panamá não tem Harry Kane. O centroavante do Bayern de Munique entrou na Copa com dois gols contra a Croácia e uma autoridade posicional que lembra o Gary Lineker de 1986: não é o mais veloz, não é o mais explosivo, mas sempre está no lugar certo quando a bola cai. Contra a defesa ganesa, que tende a recuar em bloco mas perde o posicionamento nos cruzamentos, Kane é um pesadelo específico — o tipo de atacante que vive de segundas bolas e de leituras de trajetória.
"Kane mantido entre os titulares", confirmou o staff da seleção inglesa, dissipando qualquer especulação sobre rotação após a vitória por 4 a 2 sobre a Croácia.
As duas trocas de Tuchel revelam um plano, não uma improvisação
A entrada de Marc Guéhi e Djed Spence nos lugares de John Stones e Nico O'Reilly não é rotação de elenco. Tuchel está calibrando a defesa para um adversário que aposta em transições rápidas pelas pontas — Iñaki Williams pela direita e Antoine Semenyo pela esquerda são os gatilhos de Gana no contra-ataque. Guéhi, zagueiro do Crystal Palace com 26 anos, tem velocidade de reação superior à de Stones para cobrir espaço em profundidade. Spence, pelo lado direito, fecha o corredor que Semenyo tenta abrir.
Há um paralelo histórico que ajuda a entender a lógica de Tuchel. Quando a Itália de Sacchi enfrentou seleções africanas nas Copas de 1990 e 1994, o dilema tático era o mesmo: como manter linha alta e pressing intenso contra adversários que vivem da velocidade nas pontas? A resposta de Sacchi foi sempre ajustar os laterais — não o bloco central — para não comprometer o esquema ofensivo. Tuchel faz o mesmo movimento trinta anos depois, com uma diferença: ele tem Jude Bellingham e Declan Rice para controlar o meio e reduzir a exposição defensiva.
O que para o técnico sul-americano é organização defensiva como ponto de honra — quase uma questão de identidade nacional —, para o europeu formado no modelo alemão é apenas uma fase de transição que precisa ser gerenciada com eficiência. Queiroz entende isso. Por isso Gana vai tentar ser compacto e rápido, não aberto e corajoso.
Kane precisa de dois gols para entrar no seleto grupo dos artilheiros históricos da Copa
Com dois gols na estreia, Kane chega a 9 tentos em Copas do Mundo — a dois de superar Gary Lineker (10 gols) como maior artilheiro inglês na história do torneio. A pressão não é nova para ele: na temporada 2025/2026 pelo Bayern, Kane já acumula 31 gols em todas as competições, mantendo a consistência que o colocou entre os três melhores centroavantes do mundo na última década. Contra uma defesa ganesa que perdeu o goleiro titular Lawrence Ati-Zigi por lesão na virilha — substituído por Benjamin Asare, que jogou apenas o segundo tempo contra o Panamá — o inglês tem condições de explorar a falta de entrosamento entre goleiro e zagueiros.
Elliot Anderson e Declan Rice vão ditar o ritmo do jogo. Rice, em particular, tem a função de cortar o abastecimento para Thomas Partey — o jogador mais técnico de Gana no meio — e forçar o adversário a jogar longo, onde a vantagem física inglesa é absoluta. Noni Madueke e Anthony Gordon nas pontas têm a missão de pressionar os laterais ganeses Marvin Senaya e Gideon Mensah, que ainda não mostraram capacidade de sustentar pressão intensa por 90 minutos.

Segundo análises do staff técnico inglês, conforme apurado em matéria do SportNavo, a instrução para as pontas é clara: pressionar a saída de bola ganesa desde o primeiro minuto e não permitir que Partey receba em condições de girar.
A Inglaterra entra em campo precisando de uma vitória para confirmar a liderança do Grupo L antes da última rodada — um empate mantém a vantagem no saldo de gols, mas abre a chave para qualquer resultado na terceira rodada. Gana, com 3 pontos, joga pelo mesmo objetivo. O Gillette Stadium, em Boston, recebe o duelo às 17h (de Brasília), com arbitragem de Saíd Martínez (Honduras). O vencedor desta partida praticamente garante a classificação às oitavas e pode esperar o adversário das rodadas finais com tranquilidade.








