A última vez que um atleta de campo disputou seis Copas do Mundo diferentes foi Lothar Matthäus, que encerrou sua carreira mundialista em 1998 aos 37 anos — sem marcar um único gol naquela edição. Nesta terça-feira (23), no NRG Stadium, em Houston, Cristiano Ronaldo não apenas igualou a façanha em número de participações, como a reescreveu com dois gols na goleada de Portugal por 5 a 0 sobre o Uzbequistão, chegando a 10 tentos em Mundiais e se tornando o primeiro jogador da história a balançar as redes em seis edições consecutivas do torneio — de 2006 a 2026.

O gol que abriu o placar e fechou um capítulo histórico

Aos 7 minutos do primeiro tempo, João Cancelo avançou pela direita e cruzou rasteiro para a área. Ronaldo, posicionado no segundo pau, pegou de primeira e converteu o que seria muito mais do que o 1 a 0: aquele chute transformou o atacante de 41 anos no único homem a ter marcado em seis Copas diferentes, marca que nem Pelé, nem Messi, nem Zidane alcançaram. Antes de a partida terminar, o camisa 7 voltaria a marcar aos 38 minutos, em contra-ataque construído por João Félix e Bruno Fernandes, concluindo com um chute cruzado na saída do goleiro Nematov para fazer 3 a 0 e isolar-se como maior artilheiro de Portugal em Mundiais, com 10 gols — superando Neymar, que soma 8, e chegando à marca de 975 gols na carreira.

HOMENAGEM AO REI! | #shorts | Copa do Mundo 2026 | ge.globo

O contexto tornava a conquista ainda mais significativa. Portugal havia tropeçado na estreia, empatando em 1 a 1 com a República Democrática do Congo, e Ronaldo tinha encerrado aquela partida sem uma única finalização no alvo — a quinta partida consecutiva sem gol em Copas. As redes sociais foram tomadas por um debate que misturava futebol e política interna da seleção: seriam os companheiros obrigados a passar a bola para o capitão? O meia João Neves havia dito que CR7 "não era diferente dos demais", declaração que gerou uma crise nas redes sociais envolvendo familiares de jogadores.

"Não há ninguém como Cristiano Ronaldo em matéria de qualidade para fazer gols, mas não temos essa obrigação, essa necessidade de lhe passar a bola. Fazemos tudo por instinto, em milésimos de segundos. Cristiano está aqui para ajudar como qualquer outro jogador da seleção", disse o atacante Francisco Conceição em entrevista coletiva no domingo anterior à partida.

O esquema de Martínez que devolveu Ronaldo ao centro do jogo

A goleada por 5 a 0 — completada com gols de Nuno Mendes, um contra de Khusanov e Rafael Leão — não foi acidente. Roberto Martínez ajustou a estrutura ofensiva para que Ronaldo recebesse nas costas da linha defensiva adversária, explorando o espaço que o Uzbequistão, estreante em Mundiais treinado pelo italiano Fabio Cannavaro, deixava entre a zaga e o goleiro Nematov. O técnico espanhol havia descartado publicamente a hipótese de poupar o capitão após o empate: "Não faz sentido tirar o melhor artilheiro do futebol mundial em um jogo em que você precisa de gols", afirmou Martínez. "A experiência do Cristiano na área é importante, assim como a forma como ele atrai os defensores".

Taticamente, a diferença em relação à estreia foi visível. Bruno Fernandes operou mais próximo da área, encurtando o circuito de passes até Ronaldo. João Félix e Pedro Neto criaram largura para abrir os corredores centrais. O resultado foi que, diferentemente do jogo contra o Congo, Ronaldo finalizou cinco vezes — quatro no alvo —, sendo parado pelo goleiro em pelo menos duas oportunidades claras de hat-trick. Há algo de cinema de ação clássico nessa dinâmica: o protagonista que parecia fora de cena reaparece exatamente quando o roteiro exigia, como no terceiro ato de qualquer thriller de espionagem bem construído. A diferença é que aqui os dados são reais.

"Cristiano é um exemplo. Pela forma que foi a carreira dele e como se apresenta hoje aos 41 anos, querendo ganhar todos os dias e treinando como se fosse o último treino", definiu Francisco Conceição ao ser questionado sobre a liderança do capitão.

Dez gols em seis Copas e o que esse número representa no futebol moderno

Para dimensionar o recorde, basta olhar para os números comparativos. Messi, que liderava a artilharia desta Copa com cinco gols antes da partida desta terça, soma 13 gols ao longo de cinco edições mundialistas. Ronaldo chegou a 10 em seis. Eusébio, maior ídolo histórico do futebol português, marcou 9 gols em apenas uma Copa — a de 1966. Miroslav Klose, recordista histórico com 16 gols, precisou de quatro edições para construir sua marca. A distribuição de Ronaldo ao longo de seis torneios — com gols em 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e agora 2026 — é um fenômeno de consistência que não tem paralelo no esporte de alta performance.

Com a vitória, Portugal soma 4 pontos no Grupo K e encaminhou sua classificação para o mata-mata da Copa do Mundo de 2026. Na outra partida da chave, Colômbia e República Democrática do Congo se enfrentaram às 23h desta terça. Portugal encerra a fase de grupos na terceira rodada, e Martínez já sinalizou que pode poupar titulares nesse jogo — o que significa que a próxima grande vitrine de Ronaldo deverá ser nas oitavas de final, onde os portugueses chegarão como favoritos ao grupo. A última vez que um atleta de campo disputou seis Copas do Mundo diferentes foi Lothar Matthäus — e ele não marcou nenhum gol na sexta.