Dezenove anos. Dezessete jogos pela Seleção. Uma única partida completa com a camisa amarela. Três fatos que explicam, com mais precisão do que qualquer discurso, a posição de Carlo Ancelotti diante do clamor popular por Endrick na Copa do Mundo de 2026.
O empate que acendeu a chama da 'Endrick mania'
O Brasil estreou na Copa do Mundo com um empate em 0 a 0 diante do Marrocos, resultado que já seria suficiente para gerar insatisfação. O que amplificou a temperatura foi a ausência do atacante do Real Madrid entre os relacionados que entraram em campo. Endrick ficou no banco durante os 90 minutos, e a torcida não perdoou. Nas redes sociais, o nome do jovem dominou as buscas e os trending topics com uma intensidade que poucos jogadores brasileiros provocam antes mesmo de completar 20 anos.

A reação popular não surgiu do nada. Endrick acumula uma narrativa de impacto imediato: em amistosos contra Inglaterra, Espanha e México, o atacante entrou como reserva e deixou sua marca, criando a percepção de que ele resolve problemas quando entra em campo. O problema é que percepção e dado estatístico nem sempre andam juntos.
O que os números dizem sobre a experiência de Endrick na Seleção
Dos 17 jogos que Endrick disputou pela Seleção Brasileira desde 2023, ele foi titular em apenas duas ocasiões. A primeira foi diante do Paraguai, pelas Eliminatórias, quando foi substituído no intervalo. A segunda — e única vez em que permaneceu os 90 minutos em campo — foi nas quartas de final da Copa América de 2024, contra o Uruguai, quando assumiu a vaga de um Vinicius Júnior suspenso. A atuação foi apagada, e o Brasil foi eliminado nos pênaltis.
Esse recorte importa. Não porque invalide o talento do jogador, mas porque contextualiza a decisão técnica. Ancelotti não é o primeiro a adotar essa postura: Dorival Júnior, dois anos antes, também nos Estados Unidos durante a Copa América de 2024, resistiu por semanas ao clamor popular antes de ceder à necessidade circunstancial. O resultado, naquela ocasião, foi uma eliminação precoce que deixou cicatrizes.
No futebol de base, Endrick foi uma anomalia estatística. Profissionalizado pelo Palmeiras aos 16 anos, ele marcou 18 gols em 56 jogos pelo clube paulista antes de ser vendido ao Real Madrid por cerca de 72 milhões de euros — o maior valor já pago por um jogador formado no Brasil. No sub-17 e no sub-20, suas participações em gols superavam a média de 0,6 por jogo, número que chamou atenção de olheiros europeus desde 2021. O salto para o profissional, contudo, tem uma curva de adaptação que nenhuma estatística de base elimina.
A sombra histórica que Ancelotti quer evitar
No Brasil, há um ditado que diz que quem não tem cão caça com gato. A torcida brasileira, sem Neymar em condições plenas de jogo, encontrou em Endrick o substituto emocional para esse papel — o jovem prodígio que carregará o peso de uma nação. Ancelotti, que já gerenciou carreiras de Kaká, Cristiano Ronaldo e Benzema, conhece bem o custo dessa narrativa.
O técnico italiano foi direto ao ser questionado sobre o atacante na coletiva pós-jogo contra o Marrocos.
"Não falo dos jogadores individualmente", respondeu Ancelotti, desviando da armadilha de criar expectativas públicas sobre um atleta de 19 anos em sua primeira Copa do Mundo.
A comissão técnica brasileira tem clareza sobre os riscos de transformar Endrick no 'salvador da pátria'. A história recente da Seleção é farta em exemplos de jovens talentos que sofreram com o peso desproporcional da expectativa nacional. Em 1994, Ronaldo tinha 17 anos e estava na Copa dos Estados Unidos sem jogar um minuto — Zagallo o poupou da pressão. Em 2010, Neymar chegou com 18 anos e foi titular, mas o Brasil caiu nas quartas para a Holanda, e parte da responsabilidade pelo fracasso recaiu sobre o jovem atacante do Santos. Ancelotti, conforme registrado pelo SportNavo ao longo da preparação para o torneio, tem repetido nos bastidores que não quer repetir esse padrão.
O que Ancelotti planeja para os próximos jogos
A pergunta prática que o torcedor faz agora é objetiva: Endrick terá minutos contra Haiti ou Panamá, os próximos adversários do Brasil na fase de grupos? A lógica da gestão de Ancelotti sugere que sim — mas em doses controladas, provavelmente saindo do banco em situações de vantagem no placar, onde o jovem possa atuar sem a pressão de ser o responsável pelo resultado.
O próprio Endrick deu uma pista do seu estado de espírito ao comentar a situação com Neymar nos bastidores.
"Se eu pudesse, eu entrava", disse o atacante, em tom que mistura ansiedade com respeito à decisão do treinador.
A frase revela maturidade acima da média para um atleta de sua idade, mas também a tensão natural de quem sabe que tem capacidade e aguarda a oportunidade. Ancelotti precisa transformar essa energia em combustível, não em frustração. O Brasil joga sua segunda partida na fase de grupos nos próximos dias, e Endrick tem 19 anos — exatamente a idade que Ronaldo tinha quando foi campeão do mundo em 1994 sem jogar um segundo sequer.








