O apito já está marcado para esta quinta-feira. A Copa do Mundo de 2026 começa com uma estrutura inédita: 48 seleções, 104 jogos distribuídos por três países — Estados Unidos, México e Canadá — e, pela primeira vez na história do torneio, uma plataforma digital brasileira com direito de transmissão integral. A CazéTV, canal do YouTube criado pelo apresentador Casimiro Miguel, transmitirá todos os jogos, com ou sem delay, conforme a janela de horário. Para o torcedor brasileiro, isso significa acesso gratuito e sem paywall a cada partida da fase de grupos até a final.

O que a CazéTV transmite e como o modelo de distribuição funciona

A CazéTV detém os direitos de exibição dos 104 jogos desta edição no Brasil, via plataforma YouTube — canal que já ultrapassou 14 milhões de inscritos antes mesmo do início do torneio. O modelo é relevante do ponto de vista da economia da mídia esportiva: enquanto em 2022, no Qatar, a Globo monopolizava a grade aberta e o streaming ficava fragmentado entre SporTV e Globoplay, em 2026 uma plataforma nativa digital ocupa o centro da distribuição. Pesquisas da Kantar Ibope Media apontam que o consumo de vídeo ao vivo via YouTube cresceu 38% no Brasil entre 2022 e 2025, o que torna essa escolha da FIFA coerente com a reconfiguração do hábito de audiência.

A Globo, por sua vez, mantém direitos de exibição em TV aberta de 55 jogos selecionados — incluindo todos os jogos do Brasil, semifinais e a final. O SBT, que recentemente contratou o ex-técnico Muricy Ramalho para compor sua equipe de análise, também integra o consórcio de transmissão para jogos específicos. A fragmentação entre plataformas não é nova no cenário global, mas no Brasil ela adquire contornos particulares: cerca de 31 milhões de domicílios ainda não têm acesso à internet banda larga de qualidade, segundo dados da Anatel referentes ao primeiro trimestre de 2026, o que torna o acesso à CazéTV estruturalmente desigual.

Os 104 jogos e o que o novo formato de 48 seleções muda na grade

O salto de 32 para 48 seleções, implementado pela FIFA a partir desta edição, não é apenas uma questão esportiva — é uma decisão de receita. A FIFA projeta arrecadar US$ 11 bilhões com a Copa de 2026, contra US$ 7,5 bilhões obtidos no Qatar. O aumento de 104 jogos (ante 64 em 2022) amplia o inventário de cotas de transmissão e patrocínio, mas também dilui a densidade competitiva da fase de grupos, já que cada seleção disputa apenas três partidas antes de um mata-mata que começa com 32 equipes.

Para o torcedor brasileiro que pretende acompanhar a integralidade do torneio, o desafio logístico é real. Os horários dos jogos variam entre 12h e 22h (horário de Brasília), com algumas partidas da fase de grupos ocorrendo simultaneamente — situação que a CazéTV resolve com múltiplas transmissões paralelas no mesmo canal. A fase de grupos vai de 11 de junho a 2 de julho, com os 48 grupos de três times cada produzindo 72 jogos nesse intervalo. As oitavas de final somam 16 partidas, as quartas de final, 8, as semifinais, 2, e a final única está agendada para 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

"A Copa se sobrepõe a quase tudo", escreveu o colunista do UOL, evocando o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que colocava uma placa na porta de casa com os dizeres: "Cerrado por fútbol".

A citação de Galeano captura um dado comportamental que os estudos de audiência confirmam: durante Copas do Mundo, o índice de absenteísmo no trabalho no Brasil sobe entre 12% e 18% nos dias de jogos da seleção, conforme levantamentos do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) realizados nas edições de 2014 e 2018. A Copa não é apenas entretenimento; ela reorganiza o tempo social.

O que a política americana revela sobre a Copa que ninguém está assistindo

Há, no entanto, uma dimensão desta Copa que o guia de transmissões não cobre. A seleção do Irã — classificada para o torneio e alocada para jogar em território americano — enfrentou uma situação sem precedente na história das Copas: um de seus atletas foi retido por sete horas no aeroporto de Chicago para interrogatório, antes de receber autorização de entrada nos Estados Unidos. O episódio não tem paralelo documentado nem mesmo na Copa de 1978, realizada na Argentina sob a ditadura de Jorge Videla, período em que jogadores de países com conflitos diplomáticos com o regime militar circularam sem restrições equivalentes.

A FIFA optou por não realocar os jogos do Irã para o México ou o Canadá — diferentemente do que seria esperado de um protocolo diplomático mínimo. O Qatar, em 2022, obrigou a Arábia Saudita a disputar jogos apesar da ruptura diplomática entre os dois países desde 2017, mas não impôs a nenhuma delegação a condição de dormir em território estrangeiro por vedação de fronteira. O Irã, nesta edição, treina e pernoita no México, cruzando a fronteira para os jogos nos EUA. Trata-se de um arranjo logístico que a FIFA aceitou sem declaração pública formal.

"Obrigar a seleção do Irã a jogar nos Estados Unidos e ir dormir no México nem os déspotas do Qatar, em 2022, obrigaram os sauditas, com quem estiveram de relações rompidas desde 2017, a fazer", observou o colunista do UOL, em texto publicado na véspera do torneio.

Há também os casos das torcidas de Haiti, Cabo Verde, Senegal e Irã, que relataram dificuldades sistemáticas na obtenção de vistos americanos para acompanhar seus países. A União Europeia de Futebol registrou 23 pedidos formais de facilitação consular junto ao Departamento de Estado americano entre janeiro e maio de 2026, sem resposta conclusiva. O dado é relevante porque a Copa do Mundo é, entre os megaeventos esportivos, aquele com maior proporção de torcedores internacionais de países em desenvolvimento — e as barreiras de mobilidade afetam desproporcionalmente esse público.

O Brasil estreia no torneio no dia 16 de junho, contra o Marrocos, no SoFi Stadium, em Los Angeles — jogo que a Globo transmite em TV aberta e a CazéTV exibe simultaneamente no YouTube. Diante de uma Copa com 104 jogos, 48 seleções e questões políticas que extrapolam o gramado, a pergunta que permanece sem resposta é: a FIFA vai, em algum momento antes da final de 19 de julho, emitir um posicionamento sobre o tratamento diferenciado imposto a delegações de países específicos, ou o silêncio institucional fará parte permanente do protocolo desta edição?