A última vez que Eusébio marcou em uma Copa do Mundo foi em julho de 1966, no Estádio de Wembley, em Londres. Cristiano Ronaldo tinha um ano de idade. Seis décadas depois, o mesmo recorde que aquele gênio de Lourenço Marques cravou na história do futebol português está a dois gols de ser apagado — mas o tempo corre, o jejum dói, e o Uzbequistão está na frente.
São cinco jogos. Cinco partidas de Copa do Mundo sem que CR7 balance as redes. O último gol foi em novembro de 2022, na estreia de Portugal contra Gana, no Catar. Desde então, silêncio. Um silêncio que pesa como o trânsito da Avenida Paulista às 18h numa sexta-feira — denso, interminável, sem saída à vista.
O fantasma de 1966 e os 9 gols que Eusébio deixou para a eternidade
Tensão. É essa a palavra que define o que Portugal carrega toda vez que o assunto é Eusébio e Copas do Mundo. O craque nascido em Moçambique disputou apenas uma edição do torneio — a de 1966, na Inglaterra — e transformou aquela participação em uma das histórias mais improvávels do futebol mundial. Portugal chegou às semifinais, Eusébio marcou 9 gols em 6 jogos, incluindo um hat-trick contra a Coreia do Norte quando a seleção lusitana perdia por 3 a 0. A marca ficou intocada por 60 anos.
Cristiano chegou a esta Copa com 8 gols acumulados em 22 partidas ao longo de cinco edições — 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Um gol a menos que Eusébio. Dois para superar. A matemática é simples; a execução, não tanto.
"Quero sempre marcar, é o meu instinto. Mas o mais importante é que Portugal vença", declarou Ronaldo em entrevista coletiva antes da Copa, quando questionado sobre a caçada ao recorde histórico.
Portugal entre a classificação e o abismo do Grupo K
O calendário não perdoa. Portugal estreou no Grupo K com um empate diante da RD Congo — resultado que colocou imediatamente a seleção na corda bamba. Hoje, contra o Uzbequistão, a equipe de Roberto Martínez precisa vencer. Não há meio-termo.
O paralelo com 2014 é assustador. Naquela Copa no Brasil, Portugal somou apenas um ponto nas duas primeiras rodadas — uma derrota por 4 a 0 para a Alemanha e um empate por 2 a 2 com os Estados Unidos — e foi eliminado na fase de grupos. O cenário atual, conforme registrado pelo SportNavo, é quase idêntico: um ponto após a primeira rodada, adversário teoricamente acessível na segunda, e a terceira rodada como julgamento final.
A pressão sobre Ronaldo é dupla. Ele precisa marcar para o recorde, mas precisa também marcar para a classificação. Aos 41 anos, numa que pode ser sua última Copa, cada minuto em campo carrega o peso de uma despedida que ele ainda se recusa a anunciar.
"Não penso em aposentadoria. Penso no próximo jogo", respondeu CR7 seco, quando a imprensa portuguesa insistiu no tema durante a preparação para o torneio.
O efeito cascata de um jejum que vai além dos números
Quando Cristiano não marca, Portugal muda. A seleção tem dificuldade histórica em criar sem depender da referência do camisa 7 na área — e os dados da fase de grupos desta Copa já evidenciam isso. Contra a RD Congo, foram apenas 3 finalizações no alvo em 90 minutos. João Félix teve a melhor chance, mas parou no goleiro. Rafael Leão entrou no segundo tempo e não conseguiu criar desequilíbrio real.
O efeito cascata é direto: se Portugal não vence o Uzbequistão, a terceira rodada — contra um adversário ainda a ser definido no Grupo K — vira uma final eliminatória. E Ronaldo pode chegar a essa partida carregando seis jogos sem gol em Mundiais, o que seria o maior jejum da sua carreira em Copas.
Lionel Messi, por contraste, marcou dois gols na vitória da Argentina sobre a Áustria na segunda-feira e assumiu a liderança histórica de artilheiros de Copas, com 18 gols em cinco edições — dez a mais que Ronaldo na competição. O rival eterno, mais uma vez, na frente.
Uzbequistão como palco de uma reviravolta ou de um adeus prematuro
A bola rola nesta terça-feira (23) com CR7 na titularidade confirmada por Martínez. O Uzbequistão chega à segunda rodada também pressionado, após derrota na estreia, o que teoricamente abre espaço para Portugal impor seu jogo. Mas o futebol já provou que teoria e prática divergem — especialmente em Copas do Mundo, onde o nervosismo transforma favoritos em tropeçadores.
Se Ronaldo marcar dois gols hoje, Portugal avança em situação confortável, CR7 supera Eusébio e reescreve 60 anos de história com uma caneta que só ele poderia segurar. Se sair de campo sem marcar, a pressão sobre o maior artilheiro de todos os tempos em jogos oficiais chega ao seu ponto mais crítico — e a terceira rodada, independentemente do adversário, vira o jogo mais importante da carreira de um homem que já jogou os jogos mais importantes do mundo. Portugal enfrenta sua terceira partida do Grupo K no próximo fim de semana, com a classificação para as oitavas em disputa direta.








